A antologia de 77, um gol para a eternidade!

Não há um do bando de 30 milhões de loucos, que não conheça a epopeia de Basílio

 

Ser Corinthiano é sinônimo de ser sofredor. Nós, crescemos ostentando nosso passado de luta e de glórias, valorizando cada gota de suor derramada, para honrar o nome do Corinthians.

 

De joelhos torcedores agradeceram a conquista...Foto: ig

 

Independente de quando você tenha nascido, com certeza já deve ter ouvido falar do jejum de quase 23 anos, que teve fim em 13 de outubro de 1977. Neste período que o clube ficou sem o titulo paulista, sua torcida só cresceu, fortalecendo a máxima de que Corinthiano não vive de títulos, vive de Corinthians!

"E era o Paulista que os corintianos realmente queriam", disse o jornalista Celso Unzelte, autor do livro Almanaque do Timão, pois diferente do que muitos dizem, o clube não ficou sem títulos, chegando a vencer 15 torneios de menor expressão. A mistica dos 23 anos gira em torno a obsessão pelo Campeonato Paulista, considerado um dos maiores torneios do país na época.


 

De 54 a 77

 

O último triunfo havia sido sobre o Palmeiras, em  6 de fevereiro de 1955, pela final do Campeonato Paulista de 1954. Com um empate por 1x1, o Corinthians levou o título.

Depois daquilo o clube mesmo com grandes elencos e revelações de jogadores, não conseguiu sagrar-se campeão. Entre Mané Garrincha e Rivellino, o Corinthians ia amargando vices e via seus craques serem queimados pela falta de títulos.

A torcida era alvo de chacotas, ouvia o Corinthians ser chamado de “ Faz-me-rir” e respondia lotando os estádios por onde passava e cantando:

 

“No momento difícil, presente

A torcida responde por ti

Demonstrando a toda essa gente

Que tu tens um Nome, do qual não se ri!”

 

Todo o fanatismo fez os jornalistas passarem a se referir a Nação como Fiel! Alcunha mais que merecida e adequada!

Em 1976, o Corinthians embalado pela Fiel chegou a semi-final do Brasileirão. Em 5 de dezembro, um espetáculo único e incomparável!

 

Invasão do Maracanã. Foto: CulturaMIx

 

Movidos pela fé e pelo mais puro Corinthianismo, 70 mil alvinegros pegaram a estrada e invadiram Rio de Janeiro para assistir o confronto, que poderia por fim a seca.

Provocados pelo então presidente do Fluminense, Francisco Horta que disse: “Que os vivos saiam de casa e os mortos saiam das tumbas para torcer pelo Corinthians no Maracanã, porque o Fluminense vai ganhar a partida”. Os Corinthianos levaram o time a decisão contra o Inter, que acabou não disponibilizando ingressos para o Corinthians, com medo de uma segunda invasão. A partida terminou 2x0, arrastando o sofrimento por mais um ano...

 

Entre rezas e sofrimento, o caminho até a final

 

Santos, bíblias e terços decoravam os vestiários e as casas alvinegras, as velas sempre acesas aos padroeiros pelo fim do jejum. Vicente Mateus o “caçador de macumba”, fez os funcionários do clube cavarem o gramado atrás de um sapo, que estaria enterrado. O desespero era evidente, muitos contam as histórias de mitos sobre “pragas” rogados no clube e nas rezas de quebranto. Mas cada promessa valeria a pena…

 

Vicente Mateus, o simbolo de uma Nação! Foto: Acervo Estadão

 

Na primeira partida da decisão, o Corinthians venceu por 1x0, com um gol no mínimo curioso: "Fui na raça dividir a bola com o goleiro Carlos e ela explodiu no corpo dele e bateu com toda a força no meu rosto... foi parar no fundo do gol da Ponte", contou o próprio Palhinha, autor do tento. Com o placar, um empate bastava para o fim do jejum!

138 032 torcedores lotaram nosso maior salão de festas, recorde até hoje insuperável! E Vaguinho encheu de esperanças os corações, ao marcar o primeiro gol aos 42minutos. Faltando 23 minutos, Dicá empatou a partida. O 1 a 1 ainda deixava o título no Parque São Jorge, mas Rui Rei virou para a Macaca, deixando atônitos os presentes. O campeão paulista seria conhecido na terceira partida.

 

O fim do tormento

 

Um gol, esperado e almejado por uma Nação. Aos 36 minutos do segundo tempo, 23 anos de seca começavam a virar passado…

 

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Foto: Arquibancada Corinthiana

 

Basílio foi o escolhido. Digo escolhido, pois da forma que o gol saiu é impossível não imaginar que Deus tenha escolhido o camisa 8, para libertar a Fiel. Foram exatos  22 anos, oito meses e uma semana, de luta, de torcida, de mandinga e de reza, até que os mais de 86mil presentes puderam explodir e pintar de vez as arquibancadas com as cores do Timão.

 

"O Corinthians vira explosão e vira o maior espetáculo do território brasileiro! Corinthians, você acima de tudo é a alma desse povo! Você liga a imagem do sorriso de felicidade das raízes do povo! Corinthians, hoje a cidade é do povo! Tem que ter festa alvinegra! Tem que cobrir as ruas da cidade com paixão e loucura! Com felicidade, que desabrocha e contagia o povo pelas avenidas! Basílio, Basílio, Basílio! Trinta e sete minutos do segundo tempo!", Osmar Santos.

 

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Um gol sofrido! Foto: Estadão

 

Um gol antológico! Com a nossa marca, o nosso sofrimento, a nossa raça! Basílio emocionado disse:

"Eu me acho um escolhido, porque se for analisar, tivemos duas oportunidades, que foi o lance com o Vaguinho, com o Wladimir e finalizando comigo. Algo estava preparado e eu não sabia, e nós não tínhamos nem essa dimensão referente a essa conquista, a esse gol”.

 

Eram dois timaços em campo! Um Corinthians de Zé Maria, Wladimir, Vaguinho e Geraldão e a  Ponte, de craques como o goleiro Carlos, o atacante Rui Rei e o meia Dicá.

 

O time campeão! Foto: Reprodução Internet

 

Eu não vivi 77, mas ao escrever este texto e ouvir as narrações de Osmar Santos e de Fiori Giglioti, não pude conter as lágrimas… A emoção aflorou e por alguns instantes, senti a apreensão dos torcedores que cantavam e inflamavam as arquibancadas do Morumbi. Ao ouvir Fiori dizendo “apta o arbitro”, vibrei e sorri, imaginando cada torcedor, que agarrado ao rádio, soltou o grito de Campeão Paulista, que há anos estava sufocado.

 

“Olha festa do Brasil! Você enche de lágrimas os olhos desse povo, você enche de felicidade o coração dessa gente, Corinthians. O grito sufocado de um povo! O grito do fundo do coração de um torcedor. Depois de 20 anos a Fiel está explodindo! 22, 23, duas dezenas de anos na cabeça desse povo!" Osmar Santos.

 

A torcida comemorou como nunca, carregou nos ombros seus jogadores e coloriu o estado com nossas cores! O coro de campeão ecoava e lavava a alma de cada Corinthiano!

Com um jejum tão grande, qualquer time entre os chamados “grandes”, seria esquecido, mas nossa torcida fez questão de zelar por nosso nome! O ódio que os antis ateus tem, certamente vem de ver nossa união, nossa relação de amor !  

Como disse Osmar Santos “Doce mistério da vida este Corinthians. Inexplicável Corinthians”, o Corinthians é a alegria de uma nação, teu passado é uma bandeira, teu presente é uma lição e novas histórias serão escritas ao longos dos anos, porque o Corinthians é eterno!

 

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Nosso eterno pé de anjo! Foto: Futebol de todos os tempos

 

Basílio sempre será lembrado como representante do amor de uma uma torcida por seu time, mesmo nos piores momentos. Foram 7 segundos para a glória alvinegra, para a eternização do “pé de anjo” e para a alegria de milhares de Fiéis!

 

 
 


por Mariana Alves