A ARQUIBANCADA É MUITO NOSSA!

Desde que o mundo é mundo a mulher nasce predestinada a brincar de boneca enquanto o guri já nasce com a bola no pé. A mulher aprende que tem que ser "mocinha" e que não deve ir de saia para escola. O menino aprende que tem que ser garanhão, mostrar quem manda no pedaço. É aí que começa o problema. As divisões, os preconceitos e o machismo.

O futebol é um esporte machista. Sempre foi e continua sendo. Infelizmente ainda convivemos com os famosos comentários de "volta para a cozinha!", "vai lavar uma louça", "tu só vai no estádio procurar macho!", ou pedidos de explicação sobre impedimento e até insinuações de que não soubemos sequer quantos jogadores cada equipe tem em campo.

FOTO: Interior Forte - Daniel Pillar

O esporte mais popular do universo vem carregado de preconceitos, principalmente com as mulheres. É um ambiente hostil para elas, que são constantemente testadas, para ver se entendem/gostam mesmo de futebol. A mídia esportiva só noticia, na maioria das vezes, esportes praticados por homens e o seu público-alvo é só o masculino. Nesse mundinho limitado deles, mulher não joga futebol, as torcedoras simplesmente não existem. Ainda há pouco interesse em jogos femininos. No interior, raramente existem campeonatos destinados a elas. Não há apoio, divulgação, NADA! São simplesmente ignoradas.

As próprias bandeirinhas ainda sofrem muito com o machismo dentro dos estádios. São chamadas de todos os nomes possíveis, além do famoso "gostosa!". Errar? Não podem! Burras! Elas que larguem a bandeirinha e vão lavar uma louça (!!!). Errou o impedimento? "Ah, mas tinha que ser mulher". Enquanto isso, nas arquibancadas, para alguns, mulher vai ao jogo apenas para aparecer, afinal elas não gostam e/ou sequer entendem de futebol (rs). Como repórter, já trabalhei à beira do gramado e vivenciei o machismo de perto. Gritos de "gostosa", "vem cá para mais perto da tela", entre outros, são alguns dos "elogios". São essas coisas IMPREGNADAS que me TAPAM DE NOJO. Coisas que parecem invisíveis aos olhos de alguns, mas que existem.

FOTO: Interior Forte - Daniel Pillar

Um dos episódios de machismo com bandeirinha que mais me marcaram, enquanto repórter de gramado em um jornal aqui de Santa Cruz do Sul, foi em 2014, numa partida entre Santa Cruz x São José, em uma das Copas do segundo semestre. Quando a bandeira dois estava por conta de uma mulher que, coincidentemente, é aqui da cidade. O time da casa estava sendo eliminado na partida, e atrás dela, estavam senhores de cabeça branca, o presidente carijó em gestão na época, um policial rodoviário e um guri de uns 13 anos. Todos, repito, TODOS! Estavam a destilar palavras de baixo calão para ela: "puta! Só tá aí pra segurar na madeira, né?", "sua burra! Aproveita que tá aí e pasta essa grama", dentre outras. Em resumo, além de sair humilhada, ela levou a culpa da eliminação do time da casa (mesmo sem ter). Na época, me manifestei em redes sociais sobre o assunto e adivinhem? "Ai Sabrina, mas tu também está exposta a esse tipo de xingamento, desde que te dispõe a trabalhar em um ambiente frequentado por homens!", foi uma das respostas que recebi. Reflitam.

Lembro de uma história contada pela minha mãe, sobre a ÚNICA vez que pisou em um estádio. Meados dos anos 90, em um Avenida x Grêmio, nos Eucaliptos, ela se encorajou a ir ao estádio juntamente com um casal de tios meus. Ao adentrar, se sentiu totalmente oprimida e sem reação, talvez por nunca ter estado naquele ambiente, mas muito mais por perceber que estava rodeada basicamente por homens, que a olhavam torto quando passava. "Lembro que eu não sabia nem agir naquele ambiente, se o pessoal levantava eu também levantava, se aplaudiam eu aplaudia, e assim seguiu a partida toda. Mas nunca mais quis voltar." Felizmente, anos depois, eu soube rebater isso. Com 14 anos, quando resolvi ir sozinha para o estádio assistir um jogo do Avenida, fui olhada torto sim, recebi cantada sim, como acontecem ambas as coisas até hoje, anos depois. Como também acontece quando ando com camisa de time na rua. A diferença é que hoje, a gente já mudou o pensamento de alguns, (principalmente o nosso) de que a gente pode estar lá sim, a gente pode dividir alambrado com os homens sim, a gente pode tocar bumbo sim, a gente pode estar nos jogos em casa e nas viagens fora sim, mesmo que sejamos a ÚNICA mulher na excursão, como já aconteceu comigo. A gente pode estar onde a gente bem entender, e se sentir a vontade.

FOTO: Interior Forte - Daniel Pillar

Tudo o que queremos é respeito e reconhecimento dentro dos estádios. Estamos no caminho certo e enquanto estivermos juntas, resistiremos. Somos TODAS torcedoras. A gente desanima, mas NUNCA desiste. A gente gosta, entende e se emociona tanto quanto qualquer homem, quando o assunto é futebol. Muitas lágrimas nossas estão presas nas arquibancadas pelo mundo afora, sejam de alegria ou de tristeza. Acordamos com o mesmo frio na barriga em dia de decisão. Sentamos em rodas de conversa para falar de futebol sim, e gostamos disso. A gente não precisa ~provar~ para fulano ou ciclano que a gente sabe a regra do impedimento, nem a escalação do nosso time na década de 80 (como adoram perguntar).

Por isso, tudo que a gente quer, é que nos tratem com respeito, igualdade e reconhecimento porque a arquibancada também é nossa.

 

Dominando as arquibancadas, e em breve, o mundo, Sabrina Hemig.