A culpa é sempre do técnico?

 

Em dois anos, Juventude já trocou o comandante cinco vezes

 

Ele é responsável por treinar, comandar e escalar. Nas vitórias, fica esquecido e o brilhantismo vai para o jogador estrela da partida. Mas nas derrotas sempre carrega a culpa pelo fracasso. Talvez, a profissão mais injustiçada do futebol, junto com a de goleiro. Obviamente, estamos falando dos técnicos.

O ano é 2016. O time é o Juventude. Final do ano e: vice-campeão do Gauchão, entre os oito melhores da Copa do Brasil e garantido na Série B do ano seguinte. O técnico: Antônio Carlos Zago.

 

Antônio Carlos Zago, o responsável pelo acesso do Juventude em 2016

(Foto: Arthur Dallegrave/ E.C. Juventude)

 

Quem não acompanhou aquele time, deve imaginar que o comandante era uma unanimidade em Caxias do Sul. Afinal, conquistar tal feito na Copa do Brasil não é para qualquer um. Porém, há um engano!

Mesmo fazendo um ano excelente com o alviverde, Zago sempre foi muito criticado pela torcida. Em diversas ocasiões, víamos figuras pedindo a cabeça do treinador. Atrás da casamata, quando o resultado não agradava, e nas redes sociais, depois de alguma frustração, choviam críticas e pedidos de demissão do técnico. Mas, graças a teimosia de Roberto Tonietto, Zago continuou até o final do ano e nos trouxe a maior glória: o acesso.

Bem visto no cenário nacional, depois da excelente temporada com o alviverde, ele recebeu uma proposta irrecusável: treinar o Internacional. Time da capital, com maior poder aquisitivo e uma grande visibilidade. Não deu outra. Zago aceitou a proposta. Era o novo técnico do Inter. E nós? O que faríamos a partir de agora?

Roberto Tonietto continuava como presidente e deu uma chance a Pedro César Parente, técnico do sub-20 na época. Indicado por Zago, PC não era a ficha um da torcida, mas nos restava dar um voto de confiança a ele. Afinal, era um novo ano, depois do excelente 2016, deveríamos esperar mais um Estadual para ficar na história.

 

Pedro Cesar Parente ficou no comando do Juventude por três meses

(Foto: Arthur Dallegrave/E.C. Juventude)

 

Porém, nem tudo saiu como esperado. No comando do Juventude, PC conseguiu um dos maiores vexames dos últimos anos, a eliminação na primeira fase da Copa do Brasil, para o Murici, time sem nenhuma expressão e conhecido por pouquíssimas pessoas.

Além disso, o técnico também não convencia no Campeonato Gaúcho. Nos seis jogos que esteve no comando, o Juventude venceu apenas dois. A torcida, conhecida pela sua impaciência, pedia a cabeça do técnico. Afinal, a Série B começaria nos próximos meses, não poderíamos correr nenhum risco. Decidido: PC estava fora. Próximo!

Agora era a vez de Gilmar Dal Pozzo, quem ousaria questionar? O gringo tinha história no futebol, corresponderia às expectativas e não nos decepcionaria.

Bom, na verdade não foi bem assim. Logo que chegou, Gilmar sofreu para encaixar a equipe, peleamos no Estadual e chegamos às últimas rodadas com chances de rebaixamento. Mas, não foi dessa vez que conseguiram nos derrubar.

 

Gilmar Dal Pozzo, que foi muito questionado por sua retranca, mas nos manteve na Série B em 2017

(Foto: Arthur Dallegrave/E.C. Juventude)

 

Com muito esforço, chegamos aos mata-matas do Gauchão. Dois Ca-Jus pela frente. Era hora de nos vingarmos. Mas, mais uma vez, o desfecho não foi feliz. Depois de perder os dois jogos por 1 a 0, nos despedimos do Estadual. Agora era focar na Série B, afinal, precisaríamos nos manter.  

O Campeonato Brasileiro começou e Gilmar era muito contestado, principalmente pela retranca que promovia. Mas, ele não se abalava com as críticas, fazia uma Série B de dar inveja a muitos Clubes. No primeiro turno, o Juventude quase garantiu os 45 pontos. Estávamos nas cabeças. A torcida estava confiante. Será que logo no primeiro ano conquistaríamos o acesso?

O segundo turno começou e a direção defendia a luta apenas pela permanência. O foco era nos 45 pontos. Só. Objetivo concluído. Mas não com a facilidade que esperávamos. Depois de 19 rodadas de luxo, o Juventude se apagou no returno. O que acontecia com aquele time?

Não tínhamos respostas sobre isso, mas, novamente, a torcida queria a cabeça do técnico. Chamavam-o de retranqueiro e teimoso. Mais uma vez, a culpa era do comandante. Afinal, sempre temos que apontar um culpado, certo?

Para substituir Gilmar, o Juventude contratou Antônio Carlos Zago. Agora não teria erro, afinal, Zago sabia muito de Juventude.

 

Zago no comando do Juventude

(Foto: Arthur Dallegrave/E.C. Juventude)

 

Porém, desta vez a história não teve um final feliz. Zago ficou apenas quatro meses no comando do Papo. Novamente, o Juventude estava em situação complicada no Estadual e acabara de ser eliminado na Copa do Brasil, para o Avaí.

Como isso era possível? Era Zago, o mesmo que tinha nos levado ao vice-campeonato Gaúcho e as Quartas de Final da Copa do Brasil, em 2016. Enfim, mais uma vez, a demissão veio depois da impaciência da torcida que, pasmem, pediu a cabeça do comandante.

Próximo técnico. Pode entrar.

Mais uma aposta. Agora era a vez de Julinho Camargo, o eterno técnico do Veranópolis, que sempre fez campanhas pífias na Série B. O comandante vinha para nos salvar do rebaixamento no Estadual e garantir a permanência na Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.

 

Julinho Camargo, que não deixa nenhum time de saudades no Alfredo Jaconi

(Foto: Arthur Dallegrave / E.C. Juventude)

 

Retranqueiro, Julinho conquistou o primeiro objetivo. Não foi em 2019 que conhecemos a lama intitulada divisão de acesso. Porém, também não conquistamos nem a classificação para às Quartas de Final do Gauchão. Que fase!

Diante da grandeza do Juventude, a torcida não aceitava tamanha frustração e já pedia a demissão de Julinho. Porém, desta vez, quem teimava era a direção, que defendia o treinador e confiava que ele faria um bom Campeonato Brasileiro.

A Série B começou, seguramos na mão de Deus e estreamos. A campanha mediana de Julinho nos manteve fora da zona de rebaixamento, porém, do começo da sua passagem ao fim, o medo e a desconfiança imperavam. A torcida estava farta e receosa. Depois do sofrimento que foi chegar onde estávamos, não poderíamos voltar para a Terceira Divisão. Não era justo conosco.

Porém, a direção demorou para perceber isso. Julinho foi demitido quando não havia mais jeito. Ele entregou o Juventude fora da zona da degola, mas com pouca diferente para os, até então, candidatos ao rebaixamento.

Sai Julinho. Entra Luiz Carlos Winck.

 

Winck, assim como Zago, um dos mais injustiçados nos últimos anos

(Foto: Arthur Dallegrave/E.C. Juventude)

 

Esse sim! Winck é conhecedor de futebol, no primeiro jogo dele como técnico do Juventude, já percebemos uma diferença exorbitante. Em alguns grupos, falava-se até em acesso: “Ah, se o Winck tivesse vindo antes…”

A confiança tinha voltado e não acreditávamos que o desfecho seria negativo. A matemática era favorável, tínhamos confrontos diretos, Winck mostrava a que veio. Era só acreditar e apoiar.  Seria difícil, mas não tá morto quem peleia. Certo?

A verdade é que o sofrimento começou a aparecer, Julinho saiu, mas, mesmo assim, não conseguíamos vencer em casa. Parecia irreal. O Jaconi, que sempre foi nosso maior arma contra os adversários, não funcionava mais. Qual era o problema?

Esta resposta ainda não encontramos, pois, em 2019, conquistamos apenas uma vitória sob nossos domínios. Enfim, voltando a Era Winck. O Juventude não teve forças para lutar, o rebaixamento veio. A melancolia nos dominou. Parecia que não acreditávamos no que estávamos vendo. O que acontecia? Por que acontecia?

Perguntas que sou incapaz de responder. A verdade é que Winck não é um dos principais culpados pelo que aconteceu. A bomba relógio explodiu na mão dele. Sejamos realistas, o elenco não esboçava reação, nem Pep Guardiola seria capaz de operar tal milagre. Agora, precisávamos engolir o rebaixamento e focar no Estadual.

2019 começou. Novo plantel. Nova direção. Novo preparador físico. Tudo novo! Mas os problemas continuavam os mesmos.

O Juventude fazia uma campanha (quase) perfeita fora de casa. O elenco conseguiu derrubar o invicto América-MG na Copa do Brasil, estávamos garantidos na Terceira Fase, na base da garra e da dedicação. Mas… no Campeonato Gaúcho….

Depois de perder mais um clássico, o quarto em quatro anos, Winck foi dispensado. Mais um técnico demitido. O quinto em dois anos.

Sobre o assunto, a minha opinião é polêmica. Afinal, por que sempre culpamos o técnico? Óbvio que ele sempre tem uma parcela de culpa, que ele que escala, ele que treina, ele é responsável pelo elenco. Mas, especialmente sobre a última demissão, olhando para o apático time do Juventude na tarde deste sábado (09), não consigo culpar o Winck.

O time não demonstrou ¼ da garra vista no jogo contra o América-MG. Não apresentamos ¼ da vontade de vencer que foi vista contra o Internacional. Não tínhamos perna para correr atrás do resultado, diferente do que foi visto contra o Brasil de Pelotas. Qual a explicação?

Ainda gostaria de saber o que acontece com o Juventude, em relação a contratações. Como o Caxias, com menos dinheiro, consegue fazer um time melhor que nós todos os anos?

Algo de muito errado está acontecendo nos bastidores e isso vai muito além do comando técnico. Se essa dança das cadeiras resolvesse algum problema, não estaríamos, mais uma vez, lutando contra o rebaixamento no Campeonato Estadual. E, menos ainda, voltando a Série C.

As providências precisam ser tomadas! Esse troca-troca no comando técnico precisa cessar. O problema precisa ser resolvido, mas antes disso, precisa ser localizado. Não existe um único culpado para tudo de errado que acontece no Alfredo Jaconi!

Enfim, para o novo técnico, que deve ser anunciado entre hoje e amanhã, desejo muita sorte e paciência, pois acredito que só a junção dessas duas será capaz de ajudá-lo.

 

Por: Carol Freitas