A demissão de Marcelo Oliveira traz à tona o perigo de uma visão messiânica do futebol. Onde se elegem bodes expiatórios para culpar e salvadores da pátria para nos redimirem de todo o mal.

Foto: Sociedade Esportiva Palmeiras 

Madrugada de quarta-feira. O jogo da Libertadores tinha acabado há pouco tempo e eu não conseguia parar de pensar nele. A derrota do Palmeiras para os uruguaios do Nacional, ainda martelava. Decido tentar dormir. Mas não deu nem tempo de chegar ao banheiro, para escovar os dentes, quando fui surpreendida pela notícia de que Marcelo Oliveira não era mais o técnico do Palmeiras!

Parei por um instante. Mesmo surpresa, lembrei-me da declaração do diretor de futebol Alexandre Mattos, que numa entrevista durante a semana, havia afirmado que o time precisava vencer em casa “de qualquer jeito”. Para bom entendedor, o recado estava dado. E para o atual técnico do Palmeiras, não era apenas um recado, era um ultimato.

Cercado por inúmeras críticas, desde que o time começou a mostrar irregularidade no Paulistão, Oliveira era o pivô da “crise”. Torcedores e imprensa, não poupavam palavras para expressar o desejo de que ele fosse substituído. Sua situação era de fato, muito delicada.

Mas a demissão de um técnico, fala mais sobre a administração de um clube e sua torcida, do que se imagina e evoca elementos da cultura do futebol brasileiro.

Porque se dentro de campo, os números falam por si e realmente preocupavam, fora de campo, a impaciência de uma parte dos torcedores e a falácia da imprensa, não podem deixar de ser analisados.

É preciso recorrer à História. Sempre a mesma história... Mas não tem jeito, ela não pode ser esquecida e nem abafada pela irritação momentânea que a ausência de resultados traz.

O Brasil por carregar a insígnia de “país do futebol” parece ter incorporado a ideia de que ganhar sempre e de qualquer jeito, é a principal meta de um time. E convenhamos, nossa história carrega tantas glórias e vitórias tão contundentes, que é difícil pensar no futebol de outra forma. Fomos por muito tempo, não só superior a qualquer adversário, como celeiro dos melhores jogadores. E hoje, apesar dos pesares, ainda somos o maior campeão do mundo. Impossível não ficar com o ego inflado e não fazer disso um jeito de pensar o futebol.

Junte isso, ao surgimento dos “jogadores de ouro” com seus salários estratosféricos e ao nascimento do “clube empresa”, que precisa acompanhar o capitalismo vigente, cada vez mais competitivo e temos como resultado, a demanda megalomaníaca de vencer o tempo todo. Empates são sinônimos de derrota. E mais de uma derrota, no espaço de três rodadas, é definição de crise.

É! O capitalismo se mudou para dentro do futebol. Definitivamente. Um hóspede que trouxe na bagagem o conhecido modelo do lucro e a tentação da vitória como única forma de aparecer no cenário esportivo.

O acordo é atraente. Que olhos não brilhariam com o barulho do tirilintar das moedas entrando no cofre e gritos de gol, seguido de títulos?

Irresistível. Perfeito. Se não fosse por um “pequeno” detalhe. Eles se esqueceram apenas do principal. A matéria prima que alimenta todo esse sistema é humana e, portanto, cheia de complexidades. E o mais importante: não se enquadra na lógica cartesiano-matemática. Equação insolúvel.

Quem está dentro de campo, defendendo as cores do time, é regido por dificuldades e incertezas humanas. Tem insônia, acorda de mau humor, briga com o marido, fica preocupado com o filho doente, exatamente como você e eu. É impossível controlar todas as variáveis.

Sem essa consciência, o torcedor passa a exigir o impossível. É o que vemos o tempo todo. Ao menor sinal de não ter o seu desejo por resultados imediatos, satisfeito, recorre a bodes expiatórios, depositando neles toda a culpa pelos problemas do time. Isso alivia as tensões e os incômodos trazidos pela má fase.

Não dá para dizer que o Palmeiras errou em demitir Marcelo Oliveira. Como mencionei, os números não eram favoráveis a ele e é claro que não se pode colocar em risco o futuro de um time inteiro e os resultados de um campeonato, na espera de uma adequação que realmente parecia estar muito longe de acontecer.

Mas, é preciso lembrar que no futebol, a conta é muito alta, para um só pagar. Assim como os louros da vitória, muito brilhantes, para serem atribuídos a uma estrela solitária.


Alessandra Moitas