A referência das Sereias da Vila e a liderança de Calandrini

A prática do futebol feminino no Brasil está longe de ter o seu devido reconhecimento, a falta de divulgação e patrocínios ainda são problemas que atrapalham muito o desenvolvimento do esporte. Das equipes brasileiras, o time feminino do Santos Futebol Clube, mais conhecido como “Sereias da Vila”, se tornou referência no cenário esportivo, principalmente entre os anos de 2009 e 2012, como uma das equipes que mais investiram na categoria e que mais conquistou títulos, entre eles estaduais, nacionais e internacionais.

Por questões financeiras, no final de 2012, a antiga gestão do Santos Futebol Clube deu fim ao projeto, que só retornou em 2015, quando a atual gestão resolveu montar novamente uma equipe feminina de alto nível.

Sonho de qualquer menina que almeja um espaço no futebol, as Sereias da Vila, carregam o DNA ofensivo alvinegro conhecido mundialmente e sempre possuiu um time forte, com grandes jogadoras que ao se destacarem na equipe, conseguiram espaço na Seleção Brasileira. Um belo exemplo disso é a zagueira e capitã do time, Alline Calandrini. 

Líder absoluta da equipe, está em sua segunda passagem pelo time santista, a primeira foi entre os anos de 2008 à 2012, onde conquistou diversos títulos. Após o fim da equipe, “Calan” como é mais conhecida, jogou até o fim de 2014 no Centro Olímpico, e retornou ao Santos em 2015, time no qual aumentou a sua visibilidade.

(Imagem: Santos FC/Divulgação)

Para falar um pouco sobre sua carreira e o time santista, convidamos a zagueira para uma entrevista para o Blog Mulheres em Campo.

Em entrevista, você já disse que seu primeiro clube profissionalmente foi o Juventus, quando ainda tinha apenas 17 anos. Quais foram as principais dificuldades enfrentadas na época?

Calan: “Foi sair do conforto que eu tinha em casa. Do nada minha vida mudou. Estava morando com pessoas que nunca tinha visto, dividindo quarto com mais 5 e a casa com mais 15. Minha vida era completamente diferente. Foi um choque de realidade. Mas serviu muito para meu amadurecimento.”

Como você vê o futebol feminino atualmente, acredita que o reconhecimento seja maior?

Calan: “Vivemos momentos altos e baixos. Perto de competições como olimpíadas e mundial, sempre tem mais barulho. Depois acaba voltando tudo à sua normalidade. Nos últimos anos temos cobertura do campeonato brasileiro, e isso ajuda a divulgar a modalidade. Mas como falei, altos e baixos. Acaba a competição, que é tiro curto, acaba a cobertura.”

Você conquistou diversos títulos em sua primeira passagem na equipe santista, como foi receber na época a notícia de que o projeto seria encerrado? Acha que o futebol feminino perdeu muito com essa parada?

Calan: “Achei que não ia mais jogar... Fiquei mal acostumada. Na passagem anterior ganhamos tudo. Não tinha ideia pra onde eu ia, até porque eu tinha passado apenas pelo Juventus antes. Na época, todas as garotas sonhavam em ser uma Sereia Da Vila. Falavam em futebol feminino e lembravam das Sereias, da Marta, Cris, Maurine e cia. Então quando acabou o sonho de muita menina, o futebol feminino acabou dando uma "esfriada".”

Considerada como “Musa” por boa parte da torcida, isso te incomoda? Ou você consegue levar numa boa?

Calan: “Hoje consigo levar numa boa. Nos primeiros anos me incomodava bastante. Eu queria porque queria mostrar minhas qualidade como atleta e não um rosto ou corpo. E acredito que tenha conseguido. Depois que me firmei, passei a levar mais na boa.”

Em ano de Olimpíadas, ainda sonha com um retorno para a Seleção?

Calan: “Sonhar todo atleta sonha. Mas a seleção está fechada há algum tempo. É complicado entrar e firmar neste grupo. Mas sempre trabalho dando meu melhor para quem sabe futuramente ter novamente meu espaço.”

Como integrante destas duas gerações das Sereias, na sua visão quais as diferenças da equipe antiga para a atual?

Calan: “Todas as pessoas passaram a conhecer as Sereias Da Vila campeãs. Mas as pessoas não sabem o caminho percorrido até ser aquela equipe reconhecida. O Kleiton Lima (ex técnico) já tinha passado por muita dificuldade. Perdíamos alguns jogos, perdíamos campeonatos como qualquer outro time. Mas trabalhamos muito até conquistarmos todos os títulos e termos a melhor jogadora do mundo na equipe. Ano passado o Presidente Modesto Roma resolveu voltar com a modalidade. Mas voltou longe de ser aquela equipe, por vários motivos e sabíamos disso. Mas sempre deixando claro que é um recomeço. O caminho é trabalhar mais e mais pra ter uma trajetória igual como a nossa geração anterior.”

E como líder e porta-voz da equipe, com a expectativa para o restante da temporada após a eliminação do time no Brasileirão?

Calan: “A desclassificação foi dolorosa. Ficamos chateadas e envergonhadas. Mas no esporte aprendemos que cada jogo é um jogo. Que só iríamos apagar isso vencendo jogos e campeonatos. Não tivemos folga e estamos treinando forte para o Campeonato Paulista e uma possível Copa Do Brasil.”

 

Carolina Ribeiro