A verdadeira essência do Maracanã.

Fonte: omaracaenosso.org

"Era um domingo de sol, eu como de costume, estava na rua brincando com os amigos, quando o namorado da minha irmã chegou para vê la. Só que ele andou na minha direção, parou na minha frente e perguntou: 'Quer ir no Maracanã ver o Flamengo?' Depois daquele dia minha vida mudou para sempre. Era final de campeonato carioca. Domingo, sol, Flamengo, estádio cheio, prato predileto de qualquer amante de futebol, mas e para uma criança de 9 anos? Bem, até hoje não sei explicar o que senti e o que sinto quando vejo o Maracanã pintado de vermelho e preto. 

Mas naquele dia eu não prestei atenção no jogo, era tudo novo, eu estava nas cadeiras e só olhava pra cima, aquele tanto de gente ali só 'por causa de futebol', balões, bandeiras, fogos, uma festa inexplicável, não a toa, a torcida do Flamengo é um patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. E de repente... uma gritaria, todos pulavam, se abraçavam, bandeiras balançavam sem parar. O que houve? GOL DO FLAMENGO e logo em cima do Vasco, naquele momento nos tornávamos campeões cariocas de 1999. Minha primeira vez no Maraca e eu não vi o jogo, que ironia né? Pois bem, voltei a frequenta lo mais a partir de 02/03 depois da sua primeira reforma para o Mundial de 2000. 

Não subi na arquibancada de concreto, não frequentei a geral, mas frequentei a arquibancada das "cadeiras" verdes, onde nos grandes jogos ficavam 3,4 em pé no lugar de 1 sentado. Quando fui novamente convidado a ir no Maracanã, perguntei: A gente pode ir la para cima? E eu fui, fui olhar mais de perto as bandeiras, as faixas, fui comemorar meu "primeiro" gol ali em cima. Era estranho, era divertido, desconhecidos falavam com você, te abraçavam, outros pais olhavam para você com seus respectivos filhos e falavam: 'Olha, ele também é Flamenguista como você', e assim, todos virávamos amigos pelo menos durante aqueles 90 minutos

Em 2004, outra final, outra vez Flamengo xVasco. Agora um pouco mais velho, mas ainda assim bobo toda vez que entrava naquele estádio, confesso que ali eu realmente senti o que era ser Flamengo e como a organização estrutural de um estádio e o apoio da torcida podem mudar o resultado de um jogo. Gol do Vasco, festa do outro lado, pensei: Vamos perder? Não aqui é Flamengo. Torcida, o chão tremendo, Felipe, Jean e cia me mostraram isso. E assim foi até 2005, quando novamente nosso Maracanã fecharia para a segunda reforma, agora para o Pan 2007. Mas ainda tinha sua essência natural, ainda poderia ficar "abarrotado". Ali morria a geral, já não poderia mais assistir jogo em pé, ainda não imaginávamos, mas aos poucos, a população era afastado do verdadeiro Maracanã e consequentemente a melhor parte da torcida. 
 
Já não se ouvia mais falar nos geraldinos, mas os arquibaldos ainda estavam firmes no seu propósito. O Pan chegou, o Marac o recebeu de braçoes abertos e tudo foi lindo, 2007, 2008, 2009... 2009? O maior mosaico do mundo? Deus me deu a oportunidade de ver, novamente domingo de sol, dezembro, verão, Rio de Janeiro, MARACANÃ, um mar rubro negro desembarcava nas estações de trem e de metrô, entre toda aquela euforia já citada acima, HEXA CAMPEÃO BRASILEIRO. Números oficias? Nunca saberemos, mas pra todos os efeitos, naquele 06/012/2009, o Estádio Jornalista Mário Filho, estava LOTADO! Bandeiras, faixas, fogos, sinalizadores, papel picado, papel higiênico e tudo que tivesse direito para festejar o Flamengo.
 
Naquela altura já sabíamos que seríamos sede da Copa de 2014 e então em junho de 2010, o Maracanã assistiu seu último jogo antes da terceira reforma. Um jogo vazio, triste, melancólico, um 0x0 contra o Santos que em nada tinha a cara do Flamengo, 3 anos depois ele reabre completamente diferente. Nossa! O Maracanã ficou lindo, pensavam os outros. Ué, cadê as cadeiras? Que arquibancada é essa? Onde vamos colocar as faixas? Pensavam os antigos torcedores. E na sua reabertura oficial, nossa d1° ingrata surpresa, FlamengoxBotafogo com ingressos a 100,00 reais cada. Lembra dos geraldinos citados acima? Dos arquibaldos? Pois é, foram limados aquilo que era o esporte do povo. 
 
Nascia aí o futebol moderno, com arenas novas e seguras, mas quem pediu modernidade? Tragam o concreto de volta! Queriam proibir as bandeiras e os instrumentos, não conseguiram, fomos mais fortes, mas já não é a mesma coisa. Copa do Brasil de 2013, chegamos a mais uma final, e aí? 250,00 o ingresso mais barato, sócios pagariam 75,00, o que ainda era um absurdo, mas vamos fazer uma linda festa. Vamos ou não vamos? Isso não pode, aquilo também não. Ah, pega o telefone e deixa o flash piscando, é lindo. Não, não é, nada se compara ao que já vivemos, Cadê o povo do metrô? Fila pra entrar? Entramos... mas não era o mesmo Maracanã, não tinha mais a sua verdadeira essência, não poderia mais olhar pro lado e abraçar aquele estranho que era Flamengo tanto quanto eu, estádio somente cheio, flashs a todo momento... vai começar o jogo. 'Senta aí irmão, eu quero ver o jogo', ' Abaixa essa bandeira', 'Olha o corredor, meu filho não consegue ver'. Gol do Flamengo, vamos comemorar! Não, vamos tirar foto! Tira foto da bandeira pra dizer que a gente veio... 
 
Uma mistura de sentimentos, alegria e tristeza ao mesmo tempo. Cadê a torcida do Flamengo? E alguém passou e disse: Nem todos podem pagar 75,00 reais. E nesse longo processo, aquilo que era quase um carnaval fora de época, aos poucos foi morrendo, sumindo, até quase desaparecer, parece que as reformas afastaram a torcida, não do time, mas sim de si mesma. Pobre daqueles que hoje frequentam o 'Estádio Jornalista Mário Filho' sem saber como era o 'velho Maraca'. DIGA NÃO AO FUTEBOL MODERNO."
 
- Felipe Pereira, torcedor do Clube de Regatas do Flamengo e frequentador assíduo do Maracanã desde 1999.
 
Como citado no depoimento acima, o Estádio Jornalista Mário Filho, famoso Maracanã, passou por 3 reformas na última década, acabando assim com um pouco da real essência do 'Estádio do povo'. Não desmerecendo a torcida dos dias hoje, ou as Torcidas Organizadas, todos amam o Flamengo, mas, essas reformas acabaram consequentemente mudando a forma de torcer, afastando setores um dos outros, transformando o estádio em um verdadeiro local para book fotográfico e assim por diante...
 
Foto:ndonline.com
 
A primeira foi em 1999, quando o local foi reformado para o Mundial de Clubes de 2000 ao custo de R$ 253 milhões (valores atualizados). Depois, para o Pan-Americano de 2007, as mudanças na estrutura do Mário Filho custaram R$ 428 milhões (valores atuais). Por fim, a reforma no estádio para o Mundial de 2014 irá consumir R$ 1,12 bilhão. Recentemente, o governo do Estado do Rio de Janeiro autorizou um aditivo de 200 milhões, aumentando o custo para 1,049 bilhão. Mas, com as obras intramuros, o contrato de gerenciamento das obras e as correções monetárias, o custo desta última intervenção ultrapassará a marca de R$ 1,1 bilhão. 
 
Por último, o consórcio que vai gerir o complexo precisará aplicar R$ 596 milhões em outras melhorias no complexo.
 No meio de tanto dinheiro que já foi e ainda será gasto, foi esquecido as coisas que realmente importam ou deveriam importar, o futebol, a torcida, o amor da torcida pelo futebol! DIGA NÃO AO FUTEBOL MODERNO.
 
"O flamenguista vai ao Maracanã pra curtir o time, o jogo, o clima e a própria torcida. É único."
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Rica Perrone
 
 
Bárbara Lima