1977: PROVAREMOS QUE A HISTÓRIA VIVIDA É MUITO MELHOR QUE A HISTÓRIA CONTADA.

 

 

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A história centenária do confronto entre Corinthians e Ponte Preta, terá um novo capítulo neste domingo. E nada melhor do que uma final, para engrandecer o duelo.

Os times que passaram o campeonato calando os críticos, chegaram a final por meritos proprios, mas certamente ninguém, além de seus apaixonados torcedores, apostava nesse duelo.

A Ponte, patinou no campeonato, trocou de treinador e segundo muitos jornalistas, seria presa fácil diante do Palmeiras. Mas diferentemente de outras decisões, a macaca pode jogar em casa, pode reinar no Majestoso, e mostrou a força de sua torcida e do Interior Paulista, vencendo num sonoro 3x0. Já o Corinthians, dito por muitos como a 4º potência de São Paulo, foi construindo sua classificação com placares magros e consistência defensiva. Diante do São Paulo no Morumbi, o 2x0 credenciou o time para decidir mais uma vez contra a Macaca, o Paulistão.

Exatos 40 anos depois da épica decisão do Paulistão de 1977, de timaços com Zé Maria, Wladimir, Vaguinho e Geraldão e de craques como o goleiro Carlos, o atacante Rui Rei e o meia Dicá, as equipes decidirão em dois jogos o Campeão Estadual de 2017. O jogo, hoje sem todo o peso dos 23 anos na fila para o Corinthians, mas carregado de expectativas pelo fim do jejum da Nação pontepretana

Para enaltecer ainda mais a disputa, decidimos contar a história escrita 40 anos atrás, de um jeito diferente, sob o olhar de quem viveu intensamente aquelas 3 partidas no Morumbi.

 

 

A história de 77 contada por dois alvinegros: 

 

Corinthiano:

Nasci ali perto do Morumbi, em 1956 e sempre via o povão indo pro estádio. Naquela época o Corinthians usava o Morumbi para mandar seus jogos. Adorava seguir a multidão, brincar entre os torcedores, muitas vezes pulei as catracas para assistir. Antigamente não tinha a frescura de hoje não, torcedor ajudava torcedor e o estádio ficava pequeno para tanta gente.

Cresci brincando descalço, imitando os craques do futebol e deixava as freiras malucas, correndo atrás de mim. Sempre diziam que eu era o Pelé nessa brincadeira, o negrinho magricela que queria ser atacante.

Assim como meu pai e meu irmão, eu torcia para o Corinthians, mas o time vinha mal das pernas. Não ganhava nada de expressão e os rivais viviam tirando sarro. Lembro que na época do exército foi ainda pior, a gente, os Corinthianos, abaixava a cabeça e trocava de assunto muitas vezes.

A torcida era imensa, sempre lotava os estádios, fazia festa. E era festa mesmo, não essas coisas de hoje. Tinha bandeira tremulando, batuque, voava cerveja na gente e isso quando era cerveja, mas todo mundo amava isso, ficava esperando o dia de ir ao estádio ver o Coringão jogar. O complicado é que o time não ajudava muito...chegava segunda-feira e você só via Corinthiano cabisbaixo. Mas a gente não desanimava não, seguia firme na torcida igual o Mazzaropi, colocava a camisa e incomodava. Aí começaram a chamar a gente de Fiel.

Os times do Corinthians eram bons. O clube gastava muito dinheiro, mas nada adiantava. Isso de chamar a gente de Timão, veio dos rivais, que ficavam perguntando depois das derrotas, cadê o Timão?

A fila e o jejum só iam aumentando, nem o Rivellino deu jeito. Perdemos uma final pro rival em 74, e queimaram o Riva. Ele não tinha culpa não, jogador sozinho não ganha jogo. Em 76 bateu na trave de novo. O povo encheu as ruas pra ir pro Rio de Janeiro, só tinha Corinthiano, mas nem assim deu jeito. Até que chegou o ano de 1977…

O time do Sócrates ganhou a primeira parte (Botafogo-SP) e se quisesse o titulo o Corinthians que ganhar o segundo. Eram alguns jogos, não lembro todos não, mas a gente começou mal e aí tivemos que vencer três seguidas, contra o Bota, o São Paulo e a Lusa. Deu a final contra o time de Campinas, que tinha um timaço. Todos diziam que eles eram os favoritos porque tinham o Dicá e o Rui Rei, e porque a gente tinha apanhado deles 3 vezes no Campeonato.

 

O time Campeão de 77. Foto: Reprodução.

 

Foram 3 finais. A primeira a gente levou com gol do Palhinha, num gol tão esquisito quanto o do Basílio ( ele ri e eu peço calma, que não chegou a hora ainda). O segundo eles ganharam. A nossa festa “tava” armada, todo mundo queria ver o titulo ( recorde de público até hoje no Morumbi) e começamos ganhando, mas o time morreu e o maldito daquele lá, esqueci até o nome, empatou. Logo eles viraram e a torcida já ficou aflita.

Fomos pra melhor de 3. O Oswaldo Brandão comandava o time. No jogo o Rui Rei foi expulso no primeiro tempo e a gente foi pra cima, mas o gol demorou. Veio num lance de “arranca toco”, num sofrimento, mas o Basílio colocou pra dentro e a gente caiu no choro. Tava ouvindo no rádio e foi uma loucura, a cidade entrou em festa, os carros buzinavam, todo mundo esperando pra soltar o grito de Campeão que tava engasgado. São Paulo ficou pequena pra Fiel Corinthiana, foi um alívio e os operários, o povo mesmo sabe? esse foi trabalhar “virado”, louco, tudo bebado de emoção pelo fim do jejum.

“Olha a festa do Brasil! Você enche de lágrimas os olhos desse povo, você enche de felicidade o coração dessa gente, Corinthians. O grito sufocado de um povo! O grito do fundo do coração de um torcedor. Depois de 20 anos a Fiel está explodindo! 22, 23, duas dezenas de anos na cabeça desse povo!" Osmar Santos, em sua narração.

Tiraram um peso da gente e por dias, meses repetiram o gol estranho. Muita gente saiu pra pagar promessa e outros colocaram o nome do filho de  Basílio, aí hoje a gente não tem a mesma emoção. Saudade desse futebol.

 

Orlandino B. Alves é pai da colunista corinthiana Mariana Alves.

 

Texto escrito a partir do depoimento de Orlandino Bispo Alves, Corinthiano, Maloqueiro e Sofredor.

 

Pontepretano:

 

Falar sobre o Campeonato Paulista de 1977 é voltar no tempo. Tempo que para os olhos de alguns, é muito, para outros, parece que foi ontem. Tínhamos um time maravilhoso. Dentro de minha concepção, o melhor que vi até hoje. Mas… existe sempre o mas, as forças ocultas.

 

Time da Ponte Preta naquele ano. Foto: Reprodução

 

Nos classificamos para o terceiro turno (sim, na época três turnos) pelo índice técnico. Para o terceiro turno, até por renda havia classificação. Campeão e vice do primeiro, campeão e vice do segundo, dois  por índice técnico e dois por rendas. Divididos em dois grupos de quatro para o terceiro turno, nos classificamos para a final com antecedência, tamanha era a nossa superioridade sobre os demais. Cinco vitórias e dois empates, enquanto o adversário se classificou na bacia das almas. Ganhamos deles no primeiro turno em Campinas e no segundo e terceiro turnos em São Paulo.

Veio então grande final e tínhamos a certeza que seríamos os vencedores.  Mas ei que as forças ocultas começaram a aparecer. E ai, mesmo com toda a superioridade técnica que tínhamos, as coisas começaram a ficar muito difíceis. Só falam do último jogo, da expulsão. Mas esquecem de comentar os acontecidos no primeiro e segundo jogos. No primeiro jogo aquilo que hoje muitos reclamam já acontecia. Critérios totalmente contrários. O que era para um, não era para o outro. E fomos sendo minados. Perdemos 1 x 0. Mas a fé e a certeza que mudaríamos tudo no segundo jogo estavam presentes. Estava comigo. E no final, calamos mais de 145 mil pessoas. Vencemos por 2 x 1. Mas, foi neste jogo talvez que perdemos a decisão. Quando no finalzinho, o Sr. Romualdo tirou Odirlei do jogo seguinte dando-lhe cartão amarelo. Eles (as forças ocultas) precisavam fazer alguma coisa para o jogo final, pois, não esperavam nunca que fossemos forçar um terceiro jogo. Tinham a certeza que o campeonato se encerraria naquele domingo. E uma das formas encontradas naquele dia foi tirar do próximo jogo um de nossos melhores jogadores.

E aí chegou o grande dia. O terceiro jogo. Dali tinha que sair o campeão. E pasmem, não é que as forças ocultas começaram a agir logo no início do jogo ? Se Rui Rei forçou ou não é difícil de dizer, mas, era muito claro que tudo estava armado. Eram muitos anos de fila. E fomos jogar com 10 desde 15 minutos do primeiro tempo. Lutamos muito, bravamente. E ainda fica a pergunta: na falta que originou o gol, foi mesmo falta ?

Saímos derrotados ? Não. Pelo contrário. Saímos com o sentimento de dever cumprido. Com o sentimento de ver um time lutador, que honrou nossa camisa e nos encheu de orgulho.  Não perdemos aquela final para um adversário visível. Perdemos para forças extracampo. Tínhamos a capacidade de vê-las, mas, não tínhamos a capacidade de vencê-las.

O que ficou de 1977 ? A certeza que mesmo contra tudo e contra todos, amaria a cada dia que passasse mais e mais este time, este clube, esta nação. Não carrego no peito apenas este escudo. Mas no coração o amor por esta macaca mais linda do mundo.

 

Célio é pai da colunista da Macaca, Aline Zancheta.

 

CÉLIO ZANQUETA, torcedor e apaixonado pela Ponte Preta.



por Aline Zancheta e Mariana Alves