7 segundos do mais puro silêncio...até a canonização de Cássio!

Se para o Corinthians, tudo é sofrido, tudo é na raça, não seria na Libertadores que teriamos vida fácil!

 

Quando recebi a árdua tarefa de escrever sobre um jogo marcante, me senti com aquele duro sentimento de estar entre a “cruz e a espada”. Digo isso, pois amando o Corinthians da forma que amo, um clube de partidas tão antológicas e de viradas inimagináveis, escolher um jogo em si, deixou por dias a dúvida pairando no ar.

 

Depois de muito estudar e rever cada lance, duas partidas se sobressaíram em minha mente: a contra o Grêmio, em 2007, que sacramentou nosso rebaixamento, e me fez chorar pela primeira vez pelo futebol, e a epopeia contra o Vasco, no Pacaembu em 2012, um dos nossos passos mais importantes rumo ao título da América. Bem singulares, não é mesmo? Dias de lutas e dias de Glórias…

 

Devo confessar, que mesmo iniciando este texto, ainda estou com a dúvida pesando o coração. É difícil... muitos escolheriam partidas que marcaram títulos, como me sugeriram muitos torcedores. Falar das incríveis goleadas contra os rivais por 7x1 e 6x1, são moleza, do jogo final contra o Boca no Paca é fácil, da vitória contra o Chelsea no Japão então, mais fácil ainda, mas falar de dias duros, de sufocos, como foi aquela magnífica vitória sobre o Santos no Morumbi, aos 48 do segundo tempo, com gol de Ricardinho em  2001, mexe com a alma, com o coração.

 

Escrever sobre 2007, traz a tona um turbilhão de emoções, sem dúvidas, aquela partida, contra o Grêmio será sempre uma das mais marcantes da minha vida, mas por decisão da torcida, relembrarei o dia que meu coração parou...parou por 7 segundos!

 

Mosaico,no lotado Pacaembu contra o Vasco. Fonte: Globo Esporte


 

O caminho até o Vasco


 

Quantas piadas ouvimos até o ano de 2012? Era sempre o velho papo do “Nunca serão”. Faltava uma taça em nossa galeria, o definitivo “engole o choro”.

 

Estavamos renascendo, 4 anos se passavam desde nossa volta a elite do futebol. Como prometido pelo então presidente Andrés Sanchez, o Corinthians calava um a um, dos críticos, com títulos atrás de títulos. Paulista, Copa do Brasil, Brasileiro, mas algo faltava, um lugar estava vago.

 

Tite havia sido mantido no cargo, após o fiasco contra o Tolima, que custou a cabeça de craques como Ronaldo e Roberto Carlos. Nosso título Brasileiro em 2011, carimbou nosso passaporte para a competição continental do ano seguinte.

 

No sorteio do grupo, ficamos no 6, tendo como adversários o Deportivo Táchira da Venezuela, o Cruz Azul do México e o Nacional do Paraguai. Nossa estreia, já era o sinal de que o caminho seria árduo até o título. Empatamos com o Deportivo Táchira, com um gol de Ralf aos 48 minutos do segundo tempo.

 

Em seguida vencemos, o Nacional no Pacaembu por 2x0, e empatamos com o Cruz Azul, no Estádio Azul, no México. Nas partidas de volta, derrotamos o Cruz Azul por 1x0, vencemos por 3x1 o Nacional e goleamos por 6x0 o Deportivo Táchira. Essa campanha nos garantiu a liderança do grupo, e nos credenciou as oitava de final. O adversário seria o Emelec.

 

No Estádio George Capwell, em Guayaquil no Equador, seguramos o empate em 0x0, com um jogador a menos. Aos sete minutos da segunda etapa, Jorge Henrique tinha sido expulso, e a decisão ficava para o Pacaembu.

 

Em casa, sim, na nossa Maloca, o papo foi outro. Fábio Santos, Paulinho e Alex, decretaram o 3x0 e o fim de um grande tabu. Desde 2000, o Corinthians não avançava em mata-mata na competição e 12 anos de jejum, caiam por terra. E assim, o Vasco surgia em nosso caminho...

 

 

O Milagre de São Cássio


 

A primeira partida foi disputada em São Januário, sob forte chuva. As duas equipes apostaram na marcação e não saíram do 0x0. O Vasco, ainda teve um gol anulado, de autoria de Alecsandro...chegava então o dia 23 de maio.

 

Como sempre, o estádio estava lotado. Quase 36 mil Fiéis, compareceram ao velho Paca, colorindo de preto e branco as arquibancadas. Os mosaicos, enfeitavam a noite, e mal sabiam os torcedores, que aquela, seria uma das noites mais dramáticas de nossa história.

 

A partida que dava vaga para semi-final, refletiu o equilíbrio da disputa. As duas equipes, deram aula de marcação e as melhores chances do Corinthians na primeira etapa, tinham sido de Paulinho e Emerson Sheik.

 

Aos 31 minutos, Paulinho subiu mais alto que a zaga, após cruzamento de Alex e fez Fernando Prass trabalhar...um lance parecido decretaria o classificado. Dos pés de Emerson Sheik, saiu o outro lance. Alessandro bateu o lateral, após bate rebate na área, a bola sobrou pro camisa 11, que encheu o pé, mas a bola desviou e foi pra fora. Pelo lado Vascaíno, a chance foi de  Nilton, que arriscou da intermediária, e a bola passou à direita do gol de Cássio.

 

O otimismo das arquibancadas, foi acompanhado por uma onda de nervosismo. Em campo um, jogo pegado, que terminou em 0x0 no primeiro tempo. As mãos suadas, se uniam em oração, o placar levava a disputa para os penaltis. A maior emoção estava por vir…

 

Logo no início da etapa final, nosso maestro foi expulso, após reclamar de uma falta não marcada em cima de Paulinho. Eram 11 minutos… e Tite, mostrou o seu diferencial. Ao invés de ir para as tribunas de honra do Pacaembu, Tite foi parar nos braços da Fiel, foi para a arquibancada. É impossível esquecer esta cena!

 

Tite instruiu os jogadores do alambrado. Fonte: Globo Esporte

 

Ali no alambrado, Tite sentiu de perto a vibração e o amor da Nação, sentiu-se como mais um do bando de loucos. Os jogadores dirigiam-se até o alambrado para receber os comandos de Tite e de toda a Fiel torcida. Os torcedores que tentavam dar pitacos, no trabalho do comandante, eram repreendidos pelos demais. Era a apoteose de Tite!

 

"Para mim isso é inesquecível. Tá louco! Teve um cara que gritou ‘tira fulano’, mas quando ele estava chegando na metade, voaram nele, falando ‘cala a boca’, ‘torce aí’, e outros 300 adjetivos que você pode imaginar. ‘Ajuda o time’!" -Tite

 

A torcida ditava o ritmo, cantando a plenos pulmões. O estádio pulsava, apreensivo, até os 17 minutos. O placar, insistia no 0x0, aumentando nossa angústia a cada segundo, mas a torcida cantava ainda mais forte, até a eternidade daqueles 7 segundos…

 

O Corinthians estava no ataque. Alex bateu falta e Prass, tirou o perigo com um soco, a bola sobrou para Alessandro, que tentou cruzar e errou. Diego Souza partia sozinho!

 

O camisa 8 do Vasco, atravessou todo o campo livre e Cássio se manteve firme, estático esperando a definição de Diego. A sensação do coração gelar, tomava o meu corpo...Lembro-me de toda a agonia, aqueles instantes que pareceram uma eternidade, toda nossa trajetória passando em um segundo, até a defesa do gigante Cássio. Ufaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

 

Como dizia o narrador Cléber Machado, naquele momento a torcida comemorava a defesa de Cássio como um gol e Cássio se eternizava como herói! Uma defesa na pontinha do dedo e o sonho ficava ainda mais vivo.

 

Fonte: Esportes Uol

 

No escanteio, Cássio que assustou a torcida ainda no primeiro tempo, quando bateu cabeça com Danilo e ameaçou deixar o campo, contou com a sorte, depois de cabeçada de Nilton, que raspou o travessão.

A sombra das penalidades máximas aumentava, os narradores, pontuavam o emocional dos jogadores e Tite resolveu mexer na equipe. Promoveu as entradas de Willian e Liédson, nos lugares de Jorge Henrique e Emerson Sheik. Antes de sair, Emerson aproveitou cruzamento e carimbou a trave direita de Fernando Prass.

Naquele momento, a Fiel enlouquecida, não parava de cantar, Tite ali no meio, inquieto, regia o time ao som da torcida. Até que aos 42 minutos do segundo tempo, Paulinho abriu o placar.

Após cobrança de escanteio, novamente Paulinho subiu mais que a zaga, mas desta vez sem chance para o arqueiro vascaíno. Gol! Gol com a marca Corinthiana!

 

Paulinho comemora o gol da classificação. Fonte: Reprodução Internet

 

Tite ia a loucura abraçado a Edu Gaspar e a vários torcedores. A vitória suada, as condições do jogo, eram a consolidação do maestro.

A Fiel ao delírio, agradecia ao céu! A emoção aflorava  e as lágrimas escorriam naturalmente. O estádio vivia um momento de perfeito caldeirão!

Alegria dos jogadores em campo, o hino que saia pelas caixas de som do estádio, recebia o coro da Fiel. Naquele dia, eu passei a acreditar no título, na conquista, porque se chegavamos a semi-final de maneira tão dramática, tão “raçuda”, nada nem ninguém poderia nos parar!

Depois deste dia, enfrentamos o Santos, com show de Emerson Sheik e a temida La Bombonera, com a frieza de Romarinho, culminando em mais uma partida decisiva de Emerson. Era a nossa emancipação, a América tinha dono e o preto e branco, imperava.


 

Ficha Técnica

 

Local: Estádio do Pacaembu, em São Paulo (SP)

Data: 23 de maio de 2012, quarta-feira

Horário: 22h (de Brasília)

Árbitro: Leandro Pedro Vuaden (Brasil)

Assistentes: Altemir Hausmann (Brasil) e Carlos Berkenbrock (Brasil)

CORINTHIANS: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Paulinho, Ralf, Danilo e Alex; Jorge Henrique e Emerson. Técnico: Tite

VASCO: Fernando Prass, Fagner, Renato silva, Rodolfo e Thiago Feltri; Nilton, Rômulo, Juninho Pernambucano e Diego Souza; Eder Luis e Alecsandro. Técnico: Cristóvão Borges


por Mariana Alves, pelo Corinthians, com muito Amor, até o Fim!