Agora nós somos milhões em um só

 

Começou ali, naquela barriga pesada que subia a pé uma Abrahão Caram cheia de alvinegros. Eu já sentia a atmosfera de quem vive o futebol como se a vida dependesse disso. Eu já sentia os batimentos acelerados do coração de quem ansiava por mais uma vitória nos gramados. Foram poucos anos até que, com minhas próprias pernas, subi as escadas de um Mineirão – aquele de arquibancada, que chegava a tremer - e enxerguei o palco das minhas maiores realizações. Comigo foi assim, o amor nascia ali. Eu e o futebol, agora, éramos um só.

 

 

E teve também aquele garotinho, que vestiu a camisa verde amarela no campo de terra do subúrbio e cansou de chutar aquela garrafinha vazia por entre as traves improvisadas de chinelos. Hoje ele passa pelo corredor que liga o vestiário ao tapete verde, ouve seu nome entoado por uma torcida inteira e se consagra no momento maior desse esporte: o gol. Agora, ele e o futebol são um só.

Mas você já ouviu falar da história daquele roupeiro? E daquele massagista que trabalha a 40 anos como fiel escudeiro de uma só equipe? Aqueles funcionários que se orgulham tanto em deixar tudo pronto para que o espetáculo seja perfeito, tudo na mais correta sintonia. Agora, o futebol e eles também são um só.

Os milhões de apaixonados pelo futebol?  os milhões de fiéis seguidores que vestem a camisa, transpassam sua alma das cores que escolheram carregar? Aqueles que nas boas comemoram e nas más, amam ainda mais. Aqueles que depositam em um esporte a esperança de um final de semana bem-humorado, de um coração mais aliviado, de um momento de descontração.

Hoje, nós e o futebol, somos milhões em um só. Somos a angústia em uma disputa de pênaltis, somos a raiva passageira depois de uma derrota, somos a bandeira que balança na arquibancada, somos o hino cantado pela voz da alma. Nós e o futebol somos a mística de uma paixão que pouco se explica, mas muito se sente. E se sente com bravura. Seja por mim, ainda na barriga da minha mãe ou ali no estádio a cada novo jogo; seja por você, que transformou em realidade o sonho de se tornar jogador; seja por cada funcionário que faz o futebol existir; seja pelo sapateiro da esquina, a professora da faculdade, o padeiro e o dono da banca.

O futebol somos todos nós, amantes fiéis e inseparáveis, capazes de entender a loucura do outro, porque sabemos bem que, isso tudo, não é só um jogo de futebol.

 


por Júlia Campos