Ainda precisamos evoluir muito no quesito representatividade feminina!

 

Na semana em que a primeira mulher a trabalhar com jornalismo esportivo faleceu, abre-se espaço para tal discussão

 

Há mais de 50 anos, há mulheres lutando para que tenhamos espaço no jornalismo esportivo

(Foto: Reprodução Internet)

 

Na última semana, a primeira mulher a cobrir jornalismo esportivo faleceu. Marilene Dabus, 80 anos, foi mais uma vítima do câncer. Lutando contra o machismo desde os anos 60, ela foi figura importantíssima na luta em prol da representatividade. E esse será o tema central deste texto.

Em 1969, Marilene era setorista do Flamengo na TV Tupi. Esbanjando conhecimento e, mesmo sem precisar, provando que era merecedora daquele espaço, a carioca sofria com comentários machistas. 

Cerca de 50 anos depois, tal preconceito ainda tem cadeira cativa dentro e fora do jornalismo. Mas essa é uma discussão antiga. Desde a infância, as crianças são tratadas como diferentes: meninas brincam de boneca e meninos ganham bolas. Afinal, eles que serão jogadores de futebol no futuro, certo? Errado!

Com a evolução dos seres humanos, vemos que alguns pais — finalmente — estão percebendo que não devem fazer diferenciação na criação das mesmas. Isso, por menor que seja, tem um significado enorme no contexto geral. Especialmente, para que os meninos entendam, desde o início, que não são superiores às meninas. Aproveito para deixar uma dica importante: assista aos vídeos e prestigie o material produzido pela ONG Plan International Brasil. Todo o conteúdo é preciosíssimo quando falamos sobre igualdade de gêneros.  

A discussão é tão necessária que será tema do meu trabalho de conclusão de curso. Sendo assim, com a pesquisa em andamento, conversei com algumas jornalistas gaúchas sobre o preconceito enfrentado para seguir carreira. Das 11 entrevistas, nove relataram já ter sofrido com o machismo. 

Tal preconceito está enraizado na nossa cultura. Creio que, nos anos 60, quando Marilene iniciou na área, as proporções deveriam ser bem maiores. Mas isso não quer dizer que tenhamos chegado a igualdade, ao respeito almejado por todos que compreendem o feminismo — nota importante: se você acha que mulheres e homens são e merecem o mesmo reconhecimento pelo seu trabalho: parabéns, você é adepto do feminismo. Não confunda, o feminismo não é o antônimo de machismo. Nós não queremos ser superiores, queremos apenas o mesmo respeito. 

Conversando com as jornalistas gaúchas me deparei com o pensamento de Renata de Medeiros, a Renatinha da Rádio Gaúcha. Talvez, a voz feminina, e esportiva, mais conhecida e com mais força dentro do nosso Estado. Muito atenciosa, quando questionei sobre ingressar em narrações, afinal, este é o tema da minha monografia, ela disse: 

— Pior que nunca pensei. Eu acho que isso tem muito a ver com a faculdade, que foi quando eu percebi o que realmente eu queria fazer dentro do jornalismo esportivo. À época não tinha nenhuma narrando que eu pudesse me inspirar. Então, nem passava pela minha cabeça que aquilo era uma função que eu poderia exercer. Que bizarro isso, né?! Acho que a nossa cabeça funciona meio que assim “oh, não tenho nenhuma mulher fazendo aquilo então fora de cogitação”, mas hoje em dia não me imagino narrando.

Entramos, novamente, no quesito representatividade. Com o passar dos anos, as gurias foram ganhando mais espaço dentro dos meios de comunicação. No Rio Grande do Sul, temos a carismática Alice Bastos Neves à frente do Globo Esporte local. Sem falar do Sportv, repleto de ótimas jornalistas, sempre precisas e coerentes. 

Entretanto, ainda não atingimos o mundo ideal. Quando a inteligentíssima Ana Thaís Matos faz algum comentário que os internautas discordam, os xingamentos, em suas redes sociais, não são acerca do seu posicionamento. Mas sobre o gênero: “tinha que ser mulher”. O que vai ao encontro da situação sofrida pela jornalista Tamires Hanke, da Rádio Progresso, de Ijuí:

— Já fui vítima de machismo. O fato ocorreu quando eu emiti uma opinião no ar, relacionada a música. Um ouvinte ligou e me ofendeu. Inclusive, registrei boletim de ocorrência. Na oportunidade outros colegas (homens) concordaram comigo, porém eu fui a atingida e, com toda certeza, por ser mulher.

Acontece que boa parte da sociedade julga o interlocutor. Se é uma mulher proferindo tal comentário, não importa se eu concordo ou não, a minha masculinidade me impede de compactuar. No entanto, se for um homem falando absurdos que, por vezes, eles discordam, morre ali. Não vêem necessidade de expor a opinião divergente. Por quê? Não sei, mas me esforço para compreender. Sem sucesso. 

Por fim, a pergunta que fica é: daqui a quantos anos o machismo será dizimado da nossa realidade? Espero que em pouco tempo possamos ter igualdade e respeito por parte de toda a sociedade. É o mínimo que merecemos!

 

Por: Carol Freitas,

pelas mulheres

e pelo futebol do interior