Até quando?

Aconteceu de novo. Mais um nome na incontável lista. Mais um coração que para de bater pelo time amado, mais um manto ensanguentado, mais uma bandeira que deixa de tremular no estádio pra cobrir um caixão, mais uma voz que as arquibancadas não mais ouvirão, mais uma mãe que chora o irreparável enquanto diz “eu falei pra ele não se meter com isso de torcida”.

Torcer além do sofá, hoje no Brasil, é questão de resistência e uma prova de amor sem tamanho. No entorno dos estádios vemos cada vez mais tropas de choque e menos crianças. Idosos? Só os mais corajosos. Mulheres, vez ou outra são barradas pelos colegas de torcida por saberem do risco que determinadas partidas oferecem. O clima de festa, muitas vezes se transforma em clima de guerra. Adversários se tornam inimigos pelo simples prazer de diminuir o outro ser. Dentro de campo pouco importa, o que importa é fazer o outro perder – Se não for a partida, que seja a vida.

Somos todos iguais. Humanos movidos por uma paixão. A cor do pavilhão pode até ser diferente, mas o sentimento que bate em cada coração é o mesmo. Lados opostos do campo, propósito parelho. O sincero “vai com Deus, meu filho” que sua mãe te diz na Zona Oeste quando você sai para ir ao estádio é o mesmo que a mãe do seu adversário diz pra ele lá na Zona Leste quando ele, assim como você, veste o manto e sai de casa pra sede da organizada preparar tudo pra mais um jogo. Cores diferentes, propósitos, vidas, paixões, sentimentos, abstenções iguais. Quando um coração torcedor, seja de qual time for, para de bater, todos os outros param um pouco também.

Quantas mais vozes terão que se calar até que tudo isso se torne um passado do qual a gente não se orgulha em falar? Quantas mais medidas falhas terão que ser tomadas até perceberem que o futebol é o menor dos culpados? Quantos mais bandidos disfarçados de torcedores ficarão impunes enquanto torcedores de verdade morrem a troco de nada?

Fiquemos de luto e lutemos. Luto por cada um que se foi e pra que os próximos não se vão. Lutemos para que clássicos, torcidas organizadas e futebol sejam sinônimo só de festa e não de tragédia. Luto e lutemos pra que torcer seja amor e nunca mais ódio, para que mantos sejam molhados só de lágrimas de felicidade e nunca mais de sangue, para que o coração apertado de cada mãe seja só pelo resultado do jogo e não pela incerteza se o filho volta pra casa. Fiquemos de luto e lutemos todos juntos pra que não tenhamos mais que lutar e nem ficar de luto, só torcer e amar cada vez mais aquele que nos faz entregar corpo e alma pela paixão de torcer.

Por Victória Monteiro