Danilo, da glória para a eternidade

 

 

 

“Que o Índio Condá fique lá embaixo da trave agora... Que o espírito de Condá esteja junto com você agora Danilo. Olha o lançamento, a bola chegou, pintou o gol... Danilo! Danilo! Danilo! Foi o Condá, foi o espírito de Condá que salvou essa aí. Danilo, o espírito de Condá estava com você agora, Danilo! Meu Deus! Reveja a jogada do herói Danilo com o pé direito, para salvar o time como já salvou em outras oportunidades. Vai acabar o jogo! Não foi agora, não vai ser mais! 49, pode acabar seu juiz. Acaaaaabou! Como é rica a história da Chapecoense!”

 

Deva Pascovicci – Fox Sports

 

 

Friedemann Vogel/Getty Images

 

 

 

Um confronto com dimensões inimagináveis em Santa Catarina. A Arena Condá pulsava a cada lance. Embaixo das traves Danilo - ou São Danilo - apelido carinhoso que recebeu dos torcedores. No último instante e com muita bravura, fez uma defesa antológica com os pés, garantindo a equipe catarinense na disputa por um título inédito. Depois de encerrada a partida, o goleiro se ajoelhou no gramado levantando as mãos ao céu. O arqueiro acabava de protagonizar um lance magnífico, que certamente será lembrado para sempre. Aliás, as numerosas defesas feitas por ele asseguravam o bom momento vivido pela equipe catarinense. Durante toda a competição, a estrela de Danilo resplandeceu: Em uma noite memorável, ainda nas oitavas de final, o goleiro segurou quatro de oito penalidades cobradas pelo Independiente, garantindo a equipe na próxima fase da Sul-Americana. Até chegar à decisão, o time liderado por Danilo foi desbancando seus adversários, um a um: Cuiabá, Junior Barranquilla (COL), Independiente (ARG) e San Lorenzo (ARG) conheceram de perto o poder do Índio Condá e de sua torcida.

Faltava apenas um passo rumo ao auge, mas o final dessa história acabou de maneira trágica e infelizmente, as duas finais diante do Atlético Nacional nunca mais puderam acontecer.

 

 

A HISTÓRIA DE DANILO

Filho de Laíde Celine e de Eunício, Marcos Danilo Padilha nasceu no dia 31 de julho de 1985, no interior do Paraná. Danilo viu a carreira como goleiro profissional tomar forma no Cianorte, clube atuante em sua cidade natal, ao se profissionalizar na equipe em 2004. Além disso, o arqueiro teve passagens por outras equipes do interior paranaense. Entre elas, Engenheiro Beltrão, Nacional Atlético Clube de Rolândia, Paranavaí e Operário de Ponta Grossa.

Em 2010, foi apresentado no Arapongas, clube pelo qual se destacou. Lá, Danilo atuou pelo Campeonato Paranaense Série Prata (segunda divisão do estadual). Na equipe, conquistou o acesso à elite do futebol paranaense, sofrendo apenas seis gols em dez jogos e tendo sido destaque por ser o goleiro menos vazado da competição. No ano seguinte, Danilo continuou vestindo as cores do clube no paranaense e deu trabalho às grandes equipes da elite estadual. O clube pelo qual defendia, não conquistou nada naquele campeonato e sem ter o que disputar no segundo semestre, Danilo acabou se transferindo para o Londrina.

 

 

 

Robson Vilela/ Redação em Campo

 

 

 

Na época, o clube Alviceleste disputara a segunda divisão do estadual. Defendendo a equipe, Danilo e seus companheiros obtiveram a melhor campanha do primeiro turno. Foram seis vitórias, dois empates e apenas uma derrota, além de contar com o melhor ataque e a melhor defesa durante o período. No returno, a equipe ficou com a segunda melhor campanha, perdendo sua posição anterior para o Toledo, clube que acabou enfrentando na final da competição. Após vencer a decisão pelo placar mínimo de 1 a 0, o goleiro, destaque da equipe, conquistava mais um acesso e se tornava campeão pela primeira vez em sua carreira profissional. Aliás, Danilo, que tanto brilhou em gramados paranaenses, passou a ser chamado de ‘Rei do Acesso’.

Danilo seguiu no Londrina e em 2013 conquistou o título de Campeão do Interior pela equipe e também o direito de disputar a quarta divisão do Campeonato Brasileiro, a Série D. Defendendo as cores azul e branca, acabou vendo o time pelo qual defendia ser desclassificado no campeonato nacional, após perder nas oitavas de final para o Juventude, equipe da Serra Gaúcha. Após a eliminação, Danilo acabou sendo emprestado para a Chapecoense, que passava por uma crise com vários goleiros lesionados.

 

 

DANILO NA CHAPECOENSE

A primeira atuação de Danilo na Chapecoense aconteceu na Série B de 2013 diante do Icasa, pela 37ª rodada da competição. Naquele ano, o Verdão do Oeste garantiu o acesso para a elite do futebol nacional pela primeira vez. Danilo foi aprovado no empréstimo e acabou contratado em 2014.

A reação do torcedor de Condá não foi uma das melhores, afinal de contas, Danilo chegou ao clube catarinense para disputar uma posição com o experiente Nivaldo, goleiro ídolo em Chapecó. A desconfiança rondava a torcida que nas primeiras atuações de Danilo, não o pouparam de cobranças e duras críticas.

Aos poucos, entre boas defesas e excelentes campanhas, Danilo foi ganhando a confiança de seu torcedor, se firmou ainda mais na posição de camisa 1 e recebeu o apelido carinhoso de ‘São Danilo’.

 

 

 

Reprodução da Internet

 

 

 

Entre inúmeras competições, campeonatos estaduais, Copa do Brasil e a permanência constante na elite do futebol nacional, eis que a Chape chegou a uma competição internacional pela primeira vez: a Copa Sul-Americana em 2015. Neste ano, apesar de grandes feitos, a equipe acabou desclassificada nas quartas de final, diante do River Plate.

Mal sabia Danilo, que o ano de 2016 marcaria o auge de sua carreira e o ápice na história do clube pelo qual defendia. A primeira conquista veio com o título do Campeonato Catarinense. Já na Copa do Brasil, a equipe foi parada ainda na terceira fase. Mas era na Copa Sul-Americana que estava reservada a sua maior glória.

Depois de passar pelo Cuiabá na fase prévia, o Verdão do Oeste chegou às oitavas de final da competição e a partir dali, com muita raça, começou a escrever uma bonita história. Se a Chapecoense garantiu a vaga na próxima fase, muito precisou que a estrela de Danilo brilhasse. O goleiro defendeu nada mais, nada menos, do que quatro penalidades cobradas pelo Independiente (ARG).

 

 

 

AFP

 

 

 

Quanto mais a Chapecoense avançava, mais Danilo ia se tornando um herói. O goleiro fez a defesa mais importante da sua carreira nas semifinais, diante do San Lorenzo (ARG): no último minuto de jogo, um chute venenoso que veio dos pés de Marcos Angeleri, há menos de três metros do gol e tinha endereço certo. Danilo se esticou e com o pé direito, mandou a bola para bem longe. Poucos instantes depois, o juiz apitou o final da partida. Danilo se ajoelhou, ergueu as mãos para o céu e agradeceu. A Chapecoense estava na final da competição.

 

 

 

Fox Sports

 

 

 

A TRAGÉDIA AÉREA

Em 28 de novembro de 2016, o goleiro embarcou com a delegação da Chapecoense e jornalistas da mídia nacional rumo à Colômbia, para disputar o primeiro jogo da final contra o Atlético Nacional. O avião da LaMia 2933, que transportava 77 pessoas acabou caindo na madrugada do dia 29, próximo à Cerro El Gordo, poucos quilômetros do Aeroporto de Rionegro, em Medellín (COL). O acontecimento chocou o país. Uma série de notícias desencontradas foram repassadas para torcedores e familiares. As primeiras informações davam conta de que Danilo havia sido encontrado com vida. Inclusive, o goleiro aparecia na lista de sobreviventes, divulgada pela Agência Nacional de Aviação da Colômbia. Pouco tempo depois, a entidade mudou a informação, alegando que ele havia falecido. Já a Cruz Vermelha, que antes informava que o arqueiro não havia sido encontrado com vida, alterou sua versão, alegando que Danilo estava vivo e o listava entre os sobreviventes. As sequências de informações divergentes deixavam familiares, esposa e amigos de Danilo desolados, mas despertavam a esperança. Esperança essa que perdurou naquela manhã inteira e foi na tarde daquele dia 29, que seus pais Laíde e Eunício, a irmã Daniele e a esposa Letícia, receberam a confirmação da morte do atleta.

Rodrigo Capelo, escritor no blog Época Esporte Clube, usou em seu texto ‘Danilo Padilha: o herói da Chape’, palavras emocionantes, que descrevem a raça de Danilo, até mesmo no momento da tragédia: ‘Ele defendeu pênaltis, se negou a tomar gol no último minuto, resistiu à queda do avião. Só sucumbiu no hospital. O espírito de luta estava com Danilo.’

 

 

A FORÇA DA MÃE

Mesmo em meio à perda, a mãe de Danilo comoveu o mundo. Em uma entrevista dada ao repórter Guido Nunes do SporTV, Laíde falou sobre a tragédia, mas não deixou de se solidarizar com o profissional, que também havia perdido companheiros do meio jornalístico no acidente.

 

Laíde: Posso fazer uma pergunta?

Guido Nunes: Pode.

Laíde: Como vocês da imprensa estão se sentindo tendo perdido tantos amigos queridos lá? Você pode me responder?

Guido Nunes com a voz embargada responde: Não

 

 

É aí que a mãe de Danilo pede se pode abraçar o profissional, que em meio às lágrimas aceita o conforto.

 

 

 

Reprodução da Internet

 

 

 

Um ano depois da perda, a mãe do goleiro Danilo - segundo informações do texto escrito por Adriano Wilkson e Marcelo Ferraz e publicado no UOL - criou um grupo de apoio, em Cianorte no Paraná, para mães que também choram a perda de seus filhos. Elas se reúnem uma vez por semana para dividir suas histórias e ser suporte uma para a outra.

 

 

"Ver essas mulheres saindo do fundo do poço é a maior alegria da minha vida".

 

 

 

Adriano Wilkson

 

 

 

Danilo deixou o vazio. A tragédia deixou cicatrizes e o destino foi cruel ao tirar a oportunidade de tantas coisas serem vividas. Danilo deixa saudades, deixa Letícia, deixa seu filho Lorenzo. Danilo deixa a lembrança de dias cheios de glórias.

 

 

 

Ricardo Chicarelli

 

 

 

Segue presente nos pensamentos da mãe e nas recordações do pai. Está tatuado na pele da irmã Daniele e eternizado no coração de milhares de brasileiros.

 


 

Francielle Fabro