De vice-brasileiro e Barcelusa a série D: como entender o que aconteceu com a Portuguesa

A Associação Portuguesa de Desportos vive hoje o maior drama de sua história de 96 anos: o rebaixamento para série D.

 

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Fonte: reprodução da internet

 

O tradicional time da zona norte de São Paulo sofreu um duro golpe no último domingo (18). A Portuguesa perdeu por 2 a 0 para equipe Tombense em disputa pela série C do Campeonato Brasileiro e foi rebaixada para a série D. O retrospecto da equipe na disputa da série C foi péssimo, acumulou 14 pontos em 18 jogos disputados.

Aquela que é tida como a quinta maior potência do Estado de São Paulo sofreu o quarto rebaixamento em três anos. É desastroso ver o caminho que o barco da Lusa rumou. Há 20 anos, no Campeonato Brasileiro de 1996, a Lusa chegou a uma das maiores conquistas de sua história: tornou-se vice-campeã brasileira. Acontece que depois dessa conquista os rumos da Portuguesa começaram a se complicar.

 

Do vice-brasileiro ao primeiro rebaixamento

 

Após conquistar o vice campeonato brasileiro em 1996, a Portuguesa encontrou dificuldades em manter o mesmo nível de futebol.

Em 1998 a equipe foi eliminada nas semifinais do Campeonato Paulista, o que foi um duro golpe para equipe. Em 1999 a diretoria trouxe o tetracampeão Zagallo para comandar a Portuguesa de Desportos, mas não surtiu o efeito esperado, aliás, a equipe quase caiu da elite do campeonato nacional. Zagallo saiu antes do final do ano e a situação da Lusa foi se complicando. Em 2002 amargou o primeiro rebaixamento para série B do nacional.

 

Primeiro rebaixamento no campeonato Paulista

 

A história foi se complicando e em 2006 a equipe foi rebaixada para série A2 do Campeonato Paulista. Dias difíceis para a Lusa, a equipe, porém, não abaixou a cabeça. Disputou uma belíssima série A2 em 2007 e conquistou o título Paulista da série.  Em 27 jogos disputados ao todo, somou 16 vitórias, 8 empates e apenas 3 derrotas. Foi a melhor equipe da primeira fase do campeonato, com 38 pontos em 11 vitórias e apenas 3 derrotas. Na segunda fase, no Grupo A, composto por Portuguesa, Guarani, Bandeirante e São José, foi líder absoluta de forma invicta no grupo e garantiu a vaga na série A do Paulistão na 4ª rodada, após bater o Guarani por 1 a 0 e a vaga para a final na 5ª rodada, após um empate por 2 a 2 com o São José.

 

Surge a Barcelusa!

 

Barcelusa, equipe campeã da Série B em 2011. (Reprodução/posterdetimescampeoes.blogspot.com)Fonte:: Reprodução/posterdetimescampeoes.blogspot.com

 

Foto: Reprodução/Arena/Gustavo Epifânio

 

Depois de 2002 a Portuguesa amargou mais vezes o rebaixamento e a disputa na série B do Campeonato Nacional. Desde 2009 disputando a série B, a Lusa seguiu sem conseguir acesso a elite nacional. No ano de 2011, porém, criou time envolvente, de toque de bola ofensivo e recebeu o apelido de “Barcelusa” eu alusão ao Barcelona. A equipe conseguiu o título da série B e o acesso para a série A.

 

Fim da Barcelusa e rebaixamento duvidoso: onde tudo piorou

 

Após a excelente campanha da Barcelusa em 2011, a equipe foi com o mesmo espírito disputar os campeonatos em 2012. Só que muitos jogadores daquele elenco foram vendidos, a Lusa não manteve um projeto de longo prazo e teve um 2012 amargo. A equipe que era tida com uma das favoritas para o Paulistão de 2012 não correspondeu em campo e sofreu mais um rebaixamento no Paulista. No campeonato brasileiro não foi diferente, lutou até a última rodada para escapar do rebaixamento, por sorte, conseguiu.

Mas veio o ano de 2013, naquele ano sofrido para todos os lusitanos. A campanha no paulista foi boa e a equipe voltou ao acesso à elite. Mas logo depois a equipe foi eliminada na primeira rodada da Copa do Brasil e tudo começou a degringolar. O campeonato brasileiro da Lusa foi péssimo, marcado por confusões, protestos de torcedores e baixo futebol. A equipe fugiu do rebaixamento pela tabela, mas foi rebaixada com a perda de 4 pontos pelo STJD, em virtude de escalação irregular do meia Heverton na última rodada. O atleta estava suspenso por dois jogos por decisão do STJD e assim a Lusa foi penalizada. Benefício ao Fluminense que escapou do rebaixamento no lugar da Lusa.

No ínterim de rebaixamento pelo STJD, muita confusão dentro da Lusa. O presidente na época, Manuel Lupa, foi acusado de recebimento de propinas. O sucessor dele, Ilídio Lico, acusou o Fluminense de ter envolvido dinheiro na decisão do STJD que rebaixou os paulistas. Nada nunca foi provado...

Daí pra frente ladeira abaixo. Em 2014 mais um rebaixamento no estadual e a disputa da série B do nacional, caindo para a série C. Em 2015 a equipe escapou por pouco de já cair mais uma divisão, mas se salvou de mais um degola e manteve-se na C. 2016 e nada mudou, pelo contrário piorou e rebaixou a lusa para última divisão do futebol nacional. Em 2016 a Lusa ficou 30 dias sem presidente, teve 45 atletas contratados ao todo (todos de maneira despreparada e na correria), os funcionários e atletas ficaram 3 meses sem receber, em menos de um ano, passaram por lá 5 treinadores diferentes.

Os resultados nos campeonatos são reflexos diretos da administração do clube. Possui uma folha salarial incompatível com a sua receita, tem diversos jogadores e funcionários que já acionaram a Lusa judicialmente, além de dívida de IPTU com a prefeitura. Estima-se que a dívida já gire em torno de R$ 200 milhões. Nem a venda de seu mais precioso bem, o estádio Canindé, que já tem leilão agendado, cobre o valor das dívidas, o lance inicial do estádio gira em torno de R$ 154 milhões.

Existe ainda uma tentativa de impedir que o Canindé seja derrubado. Essa semana foi protocolado pedido de tombamento do estádio ao CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. O Estádio na beira da Marginal Tietê pode se salvar de ser derrubado, pois com o tombamento não poderá ter sua estrutura alterada.

 

E o ano que vem?

 

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Fonte: Reprodução/Trivela

 

Os caixas da Lusa serão ainda menores em 2017. Em disputa da última série do campeonato nacional, não receberá bônus da CBF, mas apenas uma ajuda de custo para viagens e hospedagens. Receberá um bônus menor da Federação Paulista de Futebol pela disputa da A2 e não receberá cota mínima por estar há dois anos seguidos nesta fase.

Se a Lusa não subir para série C poderá ficar sem disputa para o campeonato nacional, pois os candidatos da série D surgem do rebaixamento da série C e do resultado dos estaduais.

O atual presidente da Lusa, José Luiz Ferreira de Almeida, disse que a Lusa não vai fechar. A situação é difícil para os lusitanos se recuperarem, há exemplos de sucesso de clubes que amargaram em suas dificuldades, mas superaram. Exemplo do Santa Cruz, que após 10 anos disputa a série A do nacional. Exemplos ruins também existem, está aí o Juventus que não nos deixa mentir e tornou-se praticamente uma equipe amadora.

O que aconteceu com a Lusa é reflexo de como o futebol é tratado em nosso país. A CBF e nossas federações estaduais sempre optam por privilegiar os clubes “grandes”, administrações dos clubes são imediatistas, tudo é feito pensando a curto prazo. Não existem projetos, não existe sequência e não existe respeito aos clubes de futebol pelos seus próprios dirigentes. A Lusa tem uma história gigante, é querida por todos no Estado de São Paulo, já viveu muitos dias de glória e hoje sofre pelas administrações que teve.

É difícil eleger um vilão. Para um clube do tamanho da Portuguesa chegar a esse ponto é evidente que não existiu um único culpado, mas sim sucessivos erros de sucessivos dirigentes.

Que a atual direção consiga sair dessa situação, conquistar o acesso à série C e continuar viva no nosso futebol.

O Audax, vice-campeão paulista, cogita formalizar proposta que poderá ajudar a Portuguesa. O acordo servirá para amortizar dívidas da Lusa e reformar o Canindé, na contrapartida o clube do Audax poderá usufruir da tradição da Lusa, cogitando até aliar os nomes dos clubes. Uma opção de salvamento? Quem sabe... Vamos aguardar os próximos capítulos da história lusitana.

A Lusa pode mais, a Lusa exige mais!

Por Marcela Permuy