Devolvam o meu orgulho em torcer

Nasci em ano de Copa do Mundo. 1998. Até hoje ouço histórias sobre essa Copa e sobre como foi pra minha família, sempre muito fã de futebol, assistir ao mundial com uma criança recém-nascida em casa. Minha mãe diz que eu assistia aos jogos no colo do meu tio com os olhos vidrados na televisão.

A lembrança mais antiga que tenho, já “me entendendo por gente” é da Copa do Mundo de 2002. Aos quatro anos, lembro perfeitamente do dia em que toda a vizinhança do meu bairro se uniu para pintar a rua de verde e amarelo, espalhar bandeirinhas pelos postes de luz e esperar os jogos da Seleção Brasileira. A Copa era na Ásia e todos os jogos eram muito cedo. Meu pai me carregava no colo, meio dormindo e meio acordada, pra acompanha-los para ver os jogos e a festa era enorme.

Seleção do Penta - 2002 (GazetaPress)

Quando o Brasil, enfim, conquistou o Penta, parecia que a paz mundial havia sido conquistada. Carros pelas ruas com bandeiras do Brasil, todo mundo se abraçando e comemorando, casas abertas com festas acontecendo, pessoas alegres. Lembro até que nesse dia eu pude brincar na calçada de casa porque o Brasil tinha sido Penta. Não entendi direito o motivo de tudo aquilo, mas na minha cabeça de criança, por todo o clima e a energia sentida naquele dia, o Brasil poderia ser campeão todos os dias.

Minha segunda Copa do Mundo, dessa vez já entendendo e começando a maturar minha paixão por futebol, a preparação foi tão grande quanto da anterior. Bandana verde e amarela, cornetas, bandeiras, clima de festa. Até saí mais cedo da escola em um dia que haveria jogo. Aquilo era incrível. Lembro perfeitamente daquele Brasil x França de 4 de julho de 2006 porque foi a primeira vez que vi meu pai reclamar da Seleção Brasileira. Lembro do Roberto Carlos ajeitando a meia e do gol do Henry. Apesar da tristeza e decepção causadas pela eliminação, todo mundo ainda amava aquele time e admirava aqueles jogadores.

Nomes como Dida, Cafu, Lúcio, Juan, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Gilberto Silva e o inesquecível ataque formado por Ronaldo, Adriano e Robinho. Era impossível dizer quem era o melhor ou quem era a estrela. Cresci tendo-os como ídolos e com a plena certeza de que, com a amarelinha no corpo, aqueles jogadores eram quase super-heróis. Aprendi a amar, admirar e ter o futebol como parte da minha vida, os vendo jogar.

Ronaldo, Kaká, Adriano e Robinho, ídolos da Amarelinha (GazetaPress)

Hoje, dez anos depois, o Brasil sofre outra eliminação. Dessa vez, em uma Copa América, para o Peru. O símbolo na camisa e as cores ainda são os mesmos, mas o sentimento é outro. Hoje não tem decepção, não tem tristeza. Tudo que se ouve falar sobre são comentários como: “Eu avisei...”, “A geração é ruim”, “Não, a geração não é ruim, só é mal treinada”, “A geração é ruim e mal treinada”, “Falta vontade”, “Ninguém tem mais orgulho de torcer por essa Seleção” e isso, sim, é triste. Em 2006 nos decepcionamos porque sabíamos do que a nossa equipe era capaz, hoje não nos decepcionamos porque acompanhamos a partida com o péssimo sentimento de “o que vier é lucro”.

Não sei se é possível apontar um único culpado. Dunga é mal preparado, jogadores são mal entrosados, mas não estão onde estão por conta própria. Em 2014, os pontos eram os mesmos e a impressão que fica é que tudo mudou, mas nada está diferente. O placar de 7x1, tão simbólico para o Brasil, certamente é pequeno perto do placar de erros versus acertos da atual administração da entidade que cuida do nosso futebol.

O Brasileiro precisa recuperar o orgulho de torcer por sua seleção e, acima de tudo, nossas crianças precisam voltar a crescer com ídolos nacionais. Jogar com o Brasil no FIFA, antes era apelação, hoje é humilhação.

Devolvam nosso bom futebol, devolvam nosso espírito de equipe, devolvam nossa Seleção, devolvam nosso orgulho em torcer.

A seleção brasileira respira por aparelhos.

Por Victória Monteiro