Dona Elisa, uma entre tantas de alma preta e branca

 

Quem conhece a história do Corinthians, certamente conhece a história de Elisa Alves do Nascimento, ou Dona Elisa como ficou conhecida não só no Parque São Jorge, mas por onde o Timão passava e ainda passa. Nascida no interior de SP, no mesmo ano da Fundação do clube alvinegro, foi uma criança peralta, que fugia para ir assistir jogos de futebol, se tornando amiga de um dos fundadores do Todo Poderoso.

Dona Elisa além de cozinheira e doméstica era corintiana apaixonada, estava sempre presente nos jogos, torneios, eventos e isso em uma época que o futebol era algo “quase” (ela era o quase) que exclusivo para homens, ela se fazia presente e representava todas as mulheres corinthianas. Elisa, sempre foi símbolo de força, garra, coragem, sempre foi símbolo de Corinthians!


(Fonte: globoesporte.com)

 

Nesta semana dedicada a luta das Mulheres, tenho a oportunidade de falar sobre Dona Elisa, e por me ver representada nesta Mulher, Negra, Corinthiana da periferia da Zona Leste, ingenuamente pensei que seria fácil. Ahhh que tolo engano, como é difícil falar de alguém a quem você admira e que te inspira como mulher, de se fazer presente nos gramados, na arquibancada, nos clubes, de "ser Mulher onde eu quiser"...

É difícil imaginar as dificuldades que ela passou. Mesmo sendo uma torcedora símbolo, o preconceito era escancarado, a retaliação constante, e mesmo assim ela esteve sempre presente num ato de resistência. Ela amava o Corinthians, tinha os jogadores como seus “meninos”, viajava para assistir os jogos, abençoava o time antes das partidas, apoiava os 90 minutos sempre com muito amor...  

Por toda a sua vida apoiou e amou o clube, não se tem conhecimento de críticas ou xingamentos da parte dela ao Corinthians, e olha que ela passou por grandes jejuns de títulos. Como muitos de nós, Elisa vivia de Corinthians, estando presente em vários momentos importantes para apoiar o time. Um dos mais marcantes é considerado o titulo mais importante no primeiro centenário do Corinthians: Dona Elisa desceu de helicóptero no Estádio do Morumbi, no segundo jogo da final de 1977, jogo em que o Corinthians ganhou o inesquecível Campeonato Paulista, com o gol de Basílio, nosso pé de anjo.

 


Foto: Reprodução

 

Além de estar presente nas arquibancadas, foi convidada e participou do filme “O Corintiano”, do inesquecível Mazzaropi que retrata a vida de Sr. Manuel, um barbeiro fanático pelo Corinthians Paulista, e mais uma vez podemos ver nossa Mulher de alma preta e branca nas arquibancadas do Pacaembu.

 


(Imagens do filme)

 

Elisa faleceu aos 77 anos, no dia 1º de agosto de 1987, horas antes de uma partida entre Corinthians e Santos. Muitos ouviram o seu nome ser gritado por todo um Morumbi lotado.

No Parque São Jorge, o clube reinaugurou o seu memorial no ano de 2016, e desde então é um dos pontos mais queridos na visita monitorada, uma singela homenagem a quem tanto se doou ao clube. E no memorial a frase "Será eternamente lembrada por toda a nação corintiana”!

 

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Memorial no Parque São Jorge (Arquivo Pessoal)

 

Sua luta começou em décadas passadas, e hoje em dia persistimos cada vez mais fortes e unidas, sendo presente na arquibancada, nas redações, nas transmissões, dentro de campo como jogadoras ou compondo a equipe técnica e a arbitragem. Claro que não é fácil ser mulher nos dias atuais, ir a caravanas, clássicos, participar ativamente, e para muitos se acompanhamos, respiramos futebol, tem que ser por causa de alguém, no caso um homem. Eles não aceitam que nosso fanatismo é movido por amor ao pavilhão.

Se estamos em uma roda de conversa e nos atrevemos debater somos taxadas, questionadas, para muitos nós nunca sabemos o suficiente, estamos querendo aparecer e não discutir sobre o que mais gostamos, não é fácil, mas para está guerreira foi muito pior, por isso sejamos fortes, vamos continuar a incomodar e ser presente sempre. Esse misto de gratidão e orgulho por fazer parte do Corinthians, por ter em nossa historia uma mulher como Dona Elisa, me inspira a desafiar todas as barreiras existentes não só no futebol, mas em nossa luta diária como mãe, filha, menina e mulher.

 

 


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