Divino e São Marcos: os incomparáveis ídolos do Verdão!

 

E em todo coração alviverde um altar, onde moram lembranças de milagres e perfeição! De onde se ouve um hino cantado em uma só voz: Te amo tanto meu Palmeiras, minha fé e religião...

 
 
O ano era 1961 e mudou a história da Sociedade Esportiva Palmeiras para sempre!
O garoto ruivo e magro, jogador do Bangu-RJ, chegava a São Paulo para vestir as cores Alviverdes. 
Nas veias, corria sangue de jogador, filho de Domingos da Guia, zagueiro brasileiro, Ademir da Guia parecia estar predestinado para os campos.
A empatia com os colegas de elenco foi imediata, sua personalidade serena e afável, criava um clima de amizade e respeito.
Mas apesar do talento, o jovem craque, demorou muito para entrar em campo, na época, o Palmeiras vivia uma excelente fase, com bons jogadores, oriundos de investimentos financeiros bem sucedidos. Ademir suportou o banco de reservas por onze meses.
Mas o destino lhe reservava uma grande estreia! 
Noite quente, 22 de Fevereiro de 1962, Pacaembu lotado, Torneio Rio-SP, Derby! O meia Hélio Burini, precisou ser substituído, enfim, o seu momento havia chegado! Quando o técnico Maurício Cardoso disse: "É com você, Da Guia", uma história gloriosa começava a ser escrita!
Naquela noite o Palmeiras destruiu o seu maior rival, com o placar de 3 x 0 e o nosso Ademir entrou para o elenco principal, de onde nunca saiu.
Era impressionante vê-lo jogar! Uma maestria incrível, com passes tão precisos, que pareciam pinturas! Ele tinha um verdadeiro caso de amor com a bola, fazia o que queria com ela, e essa lhe retribuía apaixonada, em forma de gols, e que gols! Inesquecíveis gols! Era elegante e versátil. Em alguns momentos, parecia bailar em campo, fazendo o jogo lembrar uma sinfonia!
 
foto: globoesporte
 
 
Diante de tanta perfeição, não havia adjetivos que pudessem descrevê-lo! Ademir fez, com as palavras, o que fazia com os adversários, elas se calavam diante de tanto talento!
A torcida mais linda do mundo, não demorou em incorporar o apelido dado a ele, por Djalma Santos. E não poderia ter sido mais bem descrito! O garoto, dono de um talento indescritível, passou a ser o maior de todos, passou a ser o nosso DIVINO!  
Felizmente, no futebol, ninguém joga sozinho, nem mesmo uma divindade! A magia está justamente no conceito de equipe, na formação de um elenco onde o melhor de cada um, está presente em cada lance! 
Ademir da Guia representou isso para o Palmeiras, sua habilidade não se esgotava nele, não tinha estrelismo. Sua postura em campo trazia ao time, entrosamento e identidade.
Mas o destino operaria mais uma vez! E mais uma vez, a nosso favor!
Em 1964, o Palmeiras contratava um jogador da Ferroviária. Seu nome? Olegário Tolói de Oliveira, mais conhecido como Dudu. O que já era bom virou a "Academia de Futebol", nome que foi dado ao Palmeiras, pela excelência do seu futebol, que misturava, ao mesmo tempo, técnica, beleza e imponência. Para os especialistas da área, aquele time ensinava os outros times, como se jogava bola!
Com Dudu, parceiro perfeito de Ademir, formava-se o meio de campo mais vitorioso do Brasil. A dupla tem marcas impressionantes: cinco vezes campeões paulistas, cinco vezes campeões brasileiros, 901 jogos disputados e 153 gols marcados, entre outros tantos títulos.
No meio das taças colecionadas e da parceria perfeita da dupla com o elenco, um detalhe especial, marcou ainda mais, a gloriosa história de amor entre o Divino e o Verdão... O Palmeiras de Ademir da Guia, era o único time que fazia frente ao Santos de Pelé!
E isso não era pouca coisa! Naquela época, o time praiano dominava o cenário futebolístico. Pelé era adorado, não só pela sua torcida, era ídolo de todos os brasileiros, já que era também, titular absoluto com a camisa canarinha.
Mas quando o assunto era o clássico com o Palmeiras, era outra história. Pelé, Santos, a impressa e todos os brasileiros tinham que se render aos fatos, o Palmeiras era superior, com direito a cenas inesquecíveis, como aquela em que Divino dá uma “caneta” pra cima de Pelé. 
São 132 vitórias, contra 100 do adversário e 540 gols marcados, contra 456 do alvinegro praiano, um repórter certa vez escreveu: “... e não fosse o Palmeiras, o Santos teria sido campeão paulista onze vezes seguidas..." 
É... Se não fosse o Palmeiras! E se não fosse Ademir da Guia, o Divino!
O início dos anos 70 foi marcado pela “Segunda Academia”, que foi formada com a chegada de grandes nomes, o goleiro Leão, Luís Pereira, Zeca, Edu Bala, César Maluco e Leivinha... O time perfeito, orquestrado por Da Guia, continuava derrotando os adversários e conquistando títulos.
Mesmo com tantas glórias e um verdadeiro dom, Ademir só foi convocado uma vez para fazer parte da seleção brasileira, uma injustiça que até os maiores rivais concordam, jogou apenas um jogo, quando já não havia mais chances para o Brasil. Mas para ele, isso pouco importava, sempre dizia que a sua seleção, era o Palmeiras. 
Para a tristeza da torcida, que não imaginava o time sem ele, Divino teve que se despedir, precocemente, em 1975, após sofrer uma crise respiratória dentro de uma partida. Apesar de todos os tratamentos tentados e uma cirurgia, a doença não cedeu. 
 
foto: globoesporte
 
 
Havia um Ademir no meio do caminho, no meio do caminho, havia um Ademir... Minha versão do poema de Drummond foi realidade dentro de todos os campos em que ele jogou, e enquanto ele jogou o Palmeiras não tomou conhecimento de nenhum adversário. Nem mesmo o chamado Rei. Pois, o que é um Rei diante do Divino? Ninguém era páreo para o time de verde e branco, comandado pela força divina de Ademir da Guia.
Dezesseis anos. Ele escolheu vestir apenas uma camisa e honrar apenas o manto sagrado do Glorioso Alviverde Imponente.
Deixou muita saudade e um legado que ainda não foi substituído!
Trinta e um anos depois e com direito a incríveis coincidências, a Sociedade Esportiva Palmeiras, conhece outro grande amor, que também mudaria a sua história para sempre.
Em 1992, o também franzino garoto, vindo da pequena cidade de Oriente, no interior de São Paulo, era a aposta do Palmeiras para a nova temporada. Tinha atuado apenas nas categorias de base do Lençoense, time de Lençóis Paulista.
Sua estreia, no amistoso contra o Guaratinguetá, foi pouco glamorosa, mesmo defendendo um pênalti, ele também amargou o banco de reservas, por muito tempo, chegando a ser o terceiro goleiro. 
Voltou a campo apenas em 1996, agora como reserva de Velloso, goleiro titular, mas ainda sem grandes chances, por conta do talento do colega de campo.
Os céus às vezes demoram um pouco mais, mas a determinação do garoto Marcos Roberto Silveira Reis, era tanta, que aquilo que parecia impossível aconteceu. Na quinta rodada, de uma das competições mais importantes do mundo, a Libertadores da América, o goleiro palmeirense sofreu uma séria contusão e precisou ser substituído, Velloso não sabia, mas naquele momento estava dando adeus ao seu lugar para sempre. E a torcida do Palmeiras conheceria o seu mais novo grande ídolo.
 
foto:vinhetaalviverde
 
Mas ao contrário da ascensão rápida, Marcos apresentou, no início, um desempenho questionável, num dos primeiros desafios de sua carreira como titular, o torneio Rio-SP, seu gol foi vazado doze vezes em três jogos, o que fez com que a torcida duvidasse de seu talento.
Mas a consagração estava mais perto do que ele esperava e veio em cima do arquirrival, outra feliz coincidência que marca os nossos ídolos. 
Libertadores da América, 1999, foram dois árduos duelos, já que o time adversário também apresentava um bom futebol. No primeiro jogo, o Palmeiras venceu por 2x0, com uma das melhores atuações de Marcos com a camisa do Verdão. No jogo de volta, o Corinthians conseguiu fazer o mesmo placar, vencendo por 2x0, resultado que levaria o jogo para as penalidades máximas.
 
foto:abril
 
E foi justamente aí que a estrela alviverde brilhou! Marcos defendeu o pênalti batido por Vampeta, o Palmeiras eliminava o rival e garantia a classificação para a outra fase da Libertadores.
Depois desse jogo, o ainda estreante, ganhou enfim, a confiança da torcida e o apelido carinhoso de São Marcos, o operador de milagres!
O River Plate, adversário seguinte, foi vencido facilmente pelo Verdão, num jogo onde Marcos fez defesas inesquecíveis. O Palmeiras estava na final, conduzido por seu grande elenco e abençoado por São Marcos.
A grande final seria contra o Deportivo Cali, dentro no Parque Antártica. A legião de torcedores alucinados vê apreensiva, o que seria difícil de acreditar, por conta da superioridade do elenco do Palmeiras: o jogo estava indo novamente para os pênaltis. E o pior, viu de cara, o craque Zinho perder a primeira cobrança. Mas santo que é santo, se não defende com as próprias mãos, fecha o gol! Zapata, põe a bola pra fora e o Palmeiras é o campeão da Libertadores da América de 1999.
Em 2000, o Palmeiras está novamente na Libertadores e novamente diante do maior rival. A história parece brincar com a torcida alviverde, uma brincadeira de mau gosto, diga-se de passagem: o jogo seguia mais uma vez para os pênaltis. Naquela noite, a torcida, cruzou as mãos nervosas no peito e faz suas orações... Era muita provação para um time só! Mas o Palmeiras tinha nada mais, nada menos que São Marcos, defendendo o seu gol.
Tudo empate nas cobranças quando Marcelinho Carioca posiciona-se para bater. A torcida, que já não tinha mais voz de tanto cantar e gritar sentiu a boca seca, o coração bater descompassado e os olhos se encherem de lágrimas. A espera foi torturante, e pareceu uma eternidade! Ele tomou distância e bateu! O corpo preciso e cheio de garra de Marcos caiu na posição exata e impediu que aquela fatídica bola entrasse! Ele defendeu mais uma vez! A estrela de São Marcos brilhou ofuscante novamente! A torcida gritava ensandecida: "É campeão, É campeão...”. Uma cena que nunca será esquecida.
A carreira do nosso Santo teve direito a mais títulos e uma passagem vitoriosa na seleção brasileira em 2002, sob o comando de Felipão.
Mas o futebol também é feito de momentos duros e de amargas derrotas! Às vezes, "santo de casa, não opera milagres", foi o que aconteceu quando o Palmeiras perdeu o tão sonhado bi mundial, num jogo emocionante contra o Manchester United. E também, quando levou o seu maior golpe: a queda para série B. 
Com o ego ferido e perdendo jogadores, o Palmeiras mergulhava numa crise sem precedentes. Nosso craque foi sondado pelo Arsenal da Inglaterra, e respondeu com a frase que todos os torcedores do Verdão, guardam na memória e no coração: "Jogador que pula de time em time faz seu pé-de-meia, mas aquele que fica por mais tempo vai ser sempre lembrado. Quando falarem do Marcos do Palmeiras, todos vão saber que sou eu. Eu nunca vou me arrepender disso e seria legal se os jogadores de hoje em dia pensassem assim”.
Que santos fazem milagres, todos já sabiam, mas que podem demonstrar um amor incondicional assim, Marcos nos ensinou.
Ele viveu na pele as humilhações de estar na segunda divisão.
Felizmente, viveu também o retorno à série A, a conquista do título paulista de 2008 e outras participações na Libertadores da América, sempre apresentando defesas inesquecíveis. Continuou sendo o maior craque, mesmo no “quase lá” de algumas disputas que marcaram a história do clube. Sempre esteve presente, amando o Palmeiras por inteiro. 
Em 2011, Marcos jogou pela última vez com a camisa, que será dele para sempre. A camisa de número 12 foi eternizada e carrega o peso de uma história gloriosa.
A Sociedade Esportiva Palmeiras nasceu quando quatro amigos, imigrantes italianos, acreditaram que era possível criar um time diferente, um time que fugisse do óbvio, da massa homogeneizante que era o futebol brasileiro da época. Acreditaram que esse time podia sair da mesmice e ter a sua própria identidade, um time que tivesse em sua postura, a simplicidade e a humildade, de quem trabalha duro, mas sem o estereótipo que essa ideia traz.
O Palmeiras foi concebido, da crença inabalável de que é possível amar e torcer por um time, mesmo quando ele não está ganhando.
Fé e Paixão estão no nosso DNA. Força e capacidade de ressurgir correm nas nossas veias. O nosso sangue tem gosto de luta e superação.
Um time assim, só podia ter na sua história ídolos que evocam não apenas fãs, mas verdadeiros devotos, que guardam no altar da memória cada jogo, cada lance, cada pequeno momento dessa história!
 
foto:portalternurafm
 
Obrigada por tudo Divino e São Marcos! Vocês são eternos! Amém!
 
Alê Moitas