EM NOME DO PAI.

 


O time do coração!

Tem coisa mais importante que o time do coração?

Por ele se torce, se grita, se briga, se mata...

O time do coração é mais que aquela flâmula pendurada na parede do quarto, que a camisa especial já surrada de tantos jogos, ele representa mais que o escudo tão adorado...

É o time do coração!

É por ele que o coração bate mais forte.

Mas o que pode parecer apenas uma devoção dominical, paixão desenfreada ou fanatismo, esconde aspectos psíquicos de origem inconsciente e que por isso mesmo, revelam aspectos do indivíduo e de sua história pregressa, que podem ser ou não conhecidos por ele.

Essa análise mostra interessantes aspectos das relações familiares, especialmente da relação parental.

Minha hipótese é a de que a escolha por um time de futebol pode envolver como ponto principal, afetos ligados aos pais. Afetos os mais variados e multifacetados, que influenciam diretamente no comportamento do indivíduo, sem que ele se dê conta no “acting out”, no momento mesmo do fazer.

Estamos no campo... sim... no campo edípico, por excelência.

Por uma questão cultural, essas identificações, que parecem estar na gênese dessa escolha apaixonada, recaem sob a figura daquele que desempenha a “função paterna”, geralmente o pai, avô ou um tio.

Quando uma pessoa ocupa o lugar privilegiado do investimento libidinal, ou seja, quando concentra uma intensidade de afetos, veste-se de uma importância tal, que ocupa um lugar de admiração.

Portanto, não é à toa que a expressão usada para o time escolhido é  “time do coração”, de fato a escolha é feita por a-cordes cheios de emoção!

Digressão fenomenológica interessante: “cordes”, que compõe a palavra acorde, e que designa elementos musicais, tem a mesma origem da palavra coração.

A escolha está nas entranhas! É visceral!

O sangue que corre nas veias e que faz a boca gritar “gol” pulsa de um coração para outro coração, como melodia!

É música entoada por a-cordes de uma história relacional, e que explica o motivo de torcer por esse e não por aquele time.

Agora já não é apenas a história paterna, mas torna-se a própria história do sujeito. Transfusão de sentidos!

Mas o que faz esse fenômeno ser tão intrigante, é que os afetos podem ser de toda ordem, o que significa que identificações negativas também podem operar, fazendo aparecer, o que chamo de “identificação às avessas”.

Quando esse mesmo pai, não está investido de sentimentos de amor, e ao contrário, constituiu-se na relação, como alguém que representa ausência, desamparo, e por vezes, agressividade, a identificação escolhida pelo ego, será a de oposição a qualquer elemento que represente essa figura.

O sujeito, não raramente, escolherá o time que se apresenta como oposto daquele que o pai tão odiado escolheu, e desta forma, inaugura uma relação de rivalidade através dessa escolha.

As manifestações de ódio explícito, que aparecem nos gritos de guerra entoados pelas torcidas, pode para alguns indivíduos, remontar a dinâmica vivida nas complexas relações parentais.

Portanto, seja por amor intenso ou ressentimento, nossas escolhas falam da relação com essa figura tão emblemática do mundo psíquico.

Ao contrário do que se imagina a paixão que envolve o tão amado time do coração, é bem mais pretensiosa e tem nome e sobrenome!

Alessandra Moitas