FEMINICÍDIO, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E BRUNO: O QUE ISSO TEM A VER COM FUTEBOL?

É senso comum que o futebol é um esporte completamente passional, que mexe com o mais profundo e visceral sentimento das pessoas, sejam elas torcedoras ou profissionais. É dentro do estádio que o torcedor consegue explodir e sentir emoções que jamais sentiria em nenhum lugar. Esse amor carrega junto um sentimento de devoção, tal qual uma religião onde você segue todos os princípios, vai para a igreja todo domingo e, vez ou outra reza para um santo que realiza milagres. Essa comparação faz ainda mais sentido se pensarmos na posição mais conhecida por operar milagres dentro do esporte, a de goleiro. Apesar disso, sabemos que não existem santos - não dentro do futebol, e homem nenhum é tão imaculado a ponto de não ser passível de pagar por seus erros. 

 

Na semana onde se inicia agosto, conhecido como “mês dos pais”, em meio à uma polêmica envolvendo uma marca de cosméticos e perfumaria e seus conservadores consumidores que repudiaram a contratação de um pai transsexual para estampar uma campanha, outro progenitor ganhava holofotes por motivos opostos. Bruno Fernandes de Souza, de 35 anos, condenado a uma pena de 22 anos e 3 meses pela morte de Eliza Samudio, mãe de seu filho, foi premiado pelo Rio Branco, time do estado do Acre, com um contrato de retorno aos campos. 

 

A equipe acreana não foi a primeira a tentar contratar Bruno. Antes dela, em anos anteriores, clubes como Tupi, Fluminense de Feira de Santana e Operário Várzeagrandense ganharam nome nacionalmente por fazerem propostas ao ex-arqueiro do Flamengo. Dentre tantas apostas, em 2017, o Boa Esporte, equipe que disputava a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, contratou oficialmente Bruno, que disputou cerca de 5 partidas pelo clube, sendo impedido judicialmente de continuar em campo durante uma delas. Uma das fotos mais simbólicas da insistente tentativa de Bruno a voltar aos gramados foi tirada no centro de treinamento do Boa Esporte, a 337 km de onde a polícia acredita que Eliza Samudio foi assassinada, e mostra o atleta condenado distribuindo autógrafos à crianças.

 

Foto por Marcos Alves/Agência O Globo

 

Movida por uma justificável revolta diante do novo “reforço” da equipe da capital acreana, Rose Costa, treinadora da equipe feminina do clube, anunciou pelas redes sociais sua demissão em uma carta onde repudia a contratação. “Como você vai trabalhar a formação de atleta e cidadão em um clube que contrata um goleiro que é feminicida? Eu me nego a fazer parte disso”, declarou Rose no dia em que Bruno chegou no estado muito bem recebido pelo presidente e por torcedores de sua nova equipe.

 

A ressocialização de pessoas que cometeram crimes e pagaram por eles é algo justo. Todo mundo tem o direito de pagar por seus erros e ter uma segunda chance. Mas se tratando de um esporte onde absolutamente tudo envolve paixão, no sentido mais semântico da palavra, qual o limite? Até onde é possível deixar ir sem ferir a honra de outras pessoas? O futebol e o esporte em geral são ótimas ferramentas de transformação, mas cabe a um condenado por um crime tão brutal o posto de ídolo de um clube, seja ele de qual divisão for?

 

Vivemos em um país onde a cada 60 segundos uma mulher é agredida. No ano de 2019, dados oficiais dos estados brasileiros mostraram um aumento de 7,3% nos casos de feminicídio, trazendo o assustador número de 1.314 mulheres mortas por serem mulheres, uma a cada 7 horas. Um inquérito sobre feminicídio é aberto a cada 3 horas. Esses números refletem um machismo arraigado na nossa sociedade e coloca corpos femininos em situação de completa vulnerabilidade, tratados como objetos descartáveis e sem qualquer valor. 

 

Reprodução/Ponte Jornalismo

 

Para além de casos extremos como o de Bruno, temos ídolos do esporte envolvidos em declarações polêmicas, violência doméstica e em casos de estupro. Há poucas semanas, o ex-treinador da Seleção Brasileira Feminina, Renê Simões, fez a seguinte declaração em um programa da Sportv “Eu tenho amigos aqui que já se separaram, outros já bateram na mulher, outros batem nos filhos, estão enlouquecendo. Então se colocar futebol, pode ser que ajude em alguma coisa” - A fala, além de demonstrar um extremo machismo, mostra que a violência contra a mulher é tão banalizada, que faz um homem falar abertamente sobre isso e um programa de televisão, como se estivesse contando um causo rotineiro de trânsito. Dias depois, o atacante Dudu, ídolo do Palmeiras, fechava repentinamente um contrato milionário com uma equipe do Qatar, um dos países mais machistas do mundo, após ser acusado de agressão por sua ex-mulher.

 

Afinal, quanto vale uma vida feminina? Quantas mais precisarão morrer para que absurdos parem de ser normalizados? Essas perguntas parecem completamente vagas, especialmente dentro do futebol. 

 

Ter ídolos no esporte é normal, é saudável e faz parte da magia que envolve o futebol, mas é preciso reconhecer também o papel social desses ídolos fora de campo. Exemplos não devem ser pauta apenas para barrar beijos homoafetivos em novelas. Um condenado a 22 anos de prisão por mandar assassinar a mãe do próprio filho e sequer dar à ela a chance de um enterro digno, não é merecedor de qualquer idolatria. Um jogador que agride a mulher e foge para outro país não é merecedor de idolatria. Um ex-treinador que normaliza violência doméstica não é merecedor de idolatria. Qualquer homem que ouse interferir no livre-arbítrio ou invada de qualquer forma o corpo de uma mulher não é merecedor de idolatria. A vida é feita de escolhas e homens privilegiados com acesso à informação matam, agridem e estupram por escolha própria e por acharem que o poder os isentará de qualquer culpa. 

 

Premiar Bruno com um contrato com status de ídolo é dizer à ele e qualquer outro que sim, o crime compensa. É fazer ser ainda mais em vão a morte de Eliza Samudio e de tantas outras que morrem a troco de nada nas mãos de homens criminosos. 

 

Ser um grande atleta não faz um grande homem, mas ser um grande homem com certeza faz um grande atleta. Admire grandes homens. 

 

Por Victória Monteiro

 

*O conteúdo trazido nesta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Blog Mulheres em Campo