Lugar de mulher é...

 

 

Confesso! Eu era uma mulher que sentia medo/vergonha de ir ao estádio sozinha!

Medo por ver muitas cenas de violência em tantos clássicos Brasil a fora. Vergonha pelo fato de ser mulher, gostar de futebol e também pelo o que os outros poderiam pensar. Preconceito existe?

Sim! Infelizmente ainda somos obrigadas a dar explicações sobre nosso amor pelo futebol, pelo nosso time. Ainda ouvimos questionamentos como: "você sabe o que é impedimento?", "gosta de futebol?! É mulher mesmo?"... Entre outros tão absurdos quanto!

Graças a Deus muitas barreiras já foram transpostas e eu pude me libertar das correntes do machismo oculto (aquele que nasci e aprendi a alimentar). Como e quando isso aconteceu? Bem, tentarei resumir meu amor pelo Tricolor da Vila.

Conheci a Vila Capanema ainda na infância, ao acompanhar meu pai nos treinos do meu irmão nas categorias de base. Aos 7 anos achava tudo muito gigantesco e mágico. Não me lembro de ver mulheres lá, talvez mães de atletas, mas também eram raras.

Após deixar o futebol por problemas de saúde, meu irmão se afastou desse ambiente, juntamente com meu pai e consequentemente eu!

 

A Vila Capanema se tornou minha morada. Foto: Arquivo pessoal.

 

Passados pouco mais de 20 anos, me considerava neutra! Sem levantar a bandeira de nenhum time específico. Mas sempre acompanhando jogos de todos pela televisão.

Era um elo com meu pai e principalmente meu irmão. Um momento nosso de sentar, assistir e comentar! Eles não sabem, mas foi assim que aprendi a gostar, "ter paciência" como minha mãe acha que tenho de acompanhar tantos jogos! Da minha família, acredito ser a única mulher a realmente gostar de futebol.

E onde entra o Paraná Clube nessa história?

Eu nunca havia assistido a um jogo profissional num estádio, até um amigo resolver aceitar meus pedidos e me levar (lembrem que antes eu tinha medo de ir sozinha). Um misto de ansiedade e curiosidade tomavam conta do meu peito!

Paraná x Jacupiense.

Derrota do Paraná e eu ganhei o curioso apelido de "jacu" , por dar sorte ao adversário!

Fiquei chateada com a derrota, mas estava feliz por (re)conhecer a Vila do Povo. Me senti bem ali, acolhida! Queria logo voltar! Mas esse amigo, muito supersticioso (assim prefiro acreditar), não quis mais minha companhia nos jogos. Relutei em voltar sem ninguém, passei a acompanhar de longe o time. Após um tratamento complicado de saúde e de conseguir vencer essa batalha, decidi que nada mais poderia me segurar em casa, vendo pela tv o que poderia e gostaria de prestigiar ao vivo!

O Paraná me deu o empurrão que faltava: Promoção pelo dia Internacional da Mulher, chamada de "Mulher no estádio" onde 8 mulheres foram sorteadas para acompanhar uma partida,  com direito a camarote, comidinhas, brindes e muita alegria!

 

A promoção do Paraná foi o empurrão para a volta ao estádio. Foto: Arquivo pessoal

 

Pronto! Nascia ali uma nova Carla! Uma Carla sem medo, sem vergonha, sem motivo pra não ir! Passei a frequentar a Vila sozinha e tempos depois levei minha filha que, para a felicidade da mãe, adorou a experiência e literalmente "vestiu a camisa", aprendeu as músicas da torcida e vive cantarolando por aí.

Recebi críticas por levá-la, de pessoas que pensam como eu pensava: por acreditar que aquele universo não era pra nós mulheres, muito menos com crianças!

Mas a Vila não! A Vila é do Povo e esse povo é composto por homens, mulheres, idosos e crianças! Todos unidos por nosso time, que nem sempre nos agrada, nos traz alegria, mas que "apoiamos não importa a maneira". Nem que neve, que chova, que faça -5°C ou o sol resolva "torrar"... Estamos lá torcendo, cantando, xingando, chorando, sorrindo, sofrendo e apoiando! Participamos como figurantes de gravações que duram o dia todo, só para que nosso time realize o maior evento já visto dentro do clube. Enfrentamos a distância, a falta de dinheiro, tudo pelo nosso Tricolor! Vestimos a camisa e a tratamos como um manto!

Unhas não são suficientes para cada penalidade não convertida; cabelos não param: prende, solta, enrola; a cada bola perdida. Mãos inquietas a cada escanteio. E o grito de "gooool!" ecoa tão alto quanto o ninho da gralha azul, símbolo no nosso estandarte. E depois é só cantar: "Tricolor da Vila nós gostamos de você! Tricolor da Vila, faz mais um pra gente ver!"

Ainda somos muito criticados por permanecer na série B. Ouvimos piadinhas tão antigas sobre nossa torcida toda caber numa kombi. Mas só quem já esteve na Vila Capanema e sentiu o coração acompanhar a batida da bateria da nossa torcida Fúria Independente, sabe o real tamanho disso, a real dimensão do que é ser Paranista! É muito mais que ir ao estádio, muito mais que futebol: é amor!

 

O amor pelo clube falou mais alto! Foto: Arquivo Pessoal

 

E hoje posso dizer com muito orgulho, sem o medo ou a vergonha antes presentes: Eu sou MULHER, MÃE, GUERREIRA, PARANISTA E LOUCA POR FUTEBOL! Vou sozinha ao estádio, sim! Ou muito bem acompanhada pela minha Princesa!

Disso tudo, fica uma lição: lugar de mulher é onde ela quiser e eu vou para o estádio, vou Pra Vila!

Não é fácil quebrar paradigmas, mas é libertador poder ser quem você deseja!



 

#VemPRaVila

#Mulhernoestádio

#VilaCapanema

#ParanáClube

#Teapoionãoimportaamaneira

#Curitiba #Paraná #Brasil

 

por Carla Eloiza Aguiar.