Mais do que Rainha da Beleza, Rainha do apito: Posso ser o que eu quiser!

 

 

Ser mulher nos dias de hoje, na sociedade machista que vivemos, ainda é difícil, todos sabem. Agora imagine ser uma menina, de pouco mais de 7 anos que ama jogar futebol, em um país que tem um Decreto que proíbe, mulheres de jogarem futebol, ou de  praticarem esportes que “não condizem com a sua natureza”. Imaginou?

Agora imagine ser uma jovem que ganha mais de 6 concursos de beleza e não está satisfeita com isso, quer mais...

Imagine no Brasil dos anos 60/70, ser uma jovem que cursa jornalismo e prefere se dedicar ao segmento esportivo e além disso, se forma em educação física e faz um curso de formação de árbitros (fora o Boxe). Que ousadia não é mesmo?

Esses são alguns dos feitos de Asaléa de Campos Micheli Medina, mais conhecida como Léa Campos. Uma mineira de Abaeté, que enfrentou o preconceito da família, que dizia que Léa estava atrás de um jogador rico e que o lugar dela era em casa, cozinhando e lavando, que lutou contra o governo, na época da ditadura, sendo presa várias vezes por “terrorismo” e “subversão “, apenas por querer jogar bola e o machismo para realizar seu sonho: Ser a primeira árbitra de futebol do mundo.

Nascida em 1945, Léa Campos descobriu seu amor pelo futebol muito cedo, ainda na escola primária, chegando a atuar como centroavante na escola secundária, de um time clandestino já que existia um Decreto Lei 3199, de 14 de Abril de 1941, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas que proibia as mulheres de jogarem futebol.

Durante sua juventude, Léa ganhou vários concursos de beleza em Belo Horizonte, se formou em jornalismo trabalhando em rádios locais, na área do jornalismo esportivo e como relações públicas do time do Cruzeiro.

 

Em cima, à esquerda: em partida no Rio Grande do Sul; à direita, quando venceu concurso de Miss Fotogênica. Abaixo, à esquerda: como jornalista na Rádio Nacional. À esquerda: como Rainha do Carnaval de MG (Fotos: Arquivo Pessoal) (legenda: Globo Esporte)

 

Em 1967 aos 22 anos, deu o primeiro passo para realizar seu sonho: Se formou em Educação Física, pela UNB (Universidade de Brasília ) e durante 8 meses, fez o curso de formação, na Escola de Árbitros do Departamento de Futebol Amador da Federação Mineira de Futebol.

Apenas em 1971, Léa teve seu diploma de árbitra validado pela FIFA e isso só aconteceu depois de muita briga, com pessoas e instituições como a CBD (Confederação Brasileira de Desportos, precursora da CBF) e João Havelange, que não permitia que ela desempenhasse essa função:

“Enquanto eu for presidente da CBD, nenhuma mulher joga ou apita futebol. Sabe por quê? Porque não quero”, disse Havelange a Asaléa em uma de suas idas ao Rio de Janeiro, em busca de permissão para apitar. Ela então começou a buscar apoio de todas as formas possíveis, até que conseguiu ser recebida pelo então presidente do país Emílio Garrastazu Médici, que assinou uma carta autorizando-a a apitar.

 

“A maior surpresa foi ver um presidente do governo militar me dar a oportunidade de alcançar minha meta. Nunca esperei isso, ainda mais porque era o Médici”, afirmou em entrevista ao Portal da Band, em 08/03/2016.

Mesmo depois desse reconhecimento, ainda enfrentou forte machismo, como nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul por exemplo,  em que chegou a ser convocada mas foi impedida de apitar.

 

Trechos dos jornais Diário da Tarde, de 10/12/71 e 15/02/73, e do Diário da Noite, de 6/05/72 e 5/04/71

(Foto: infoesporte)

 

Sua primeira partida como árbitra foi um jogo entre Itália e Uruguai, no México. A Cruzeirense teve uma notável carreira como árbitra e afirma que sempre soube separar a paixão pela Raposa e seu profissionalismo em campo. Léa apitou centenas de jogos em quase todos os estados do país, na Europa, em toda a América e participou da Copa Mundial de Futebol Feminino. Nunca teve reclamações sobre o seu trabalho.

A carreira de Asaléa foi interrompida tragicamente em 1974, quando o ônibus que estava sofreu um acidente chocando-se com a traseira de um caminhão, chegando na cidade de Três Corações-MG. Léa ficou presa nas ferragens e a perna esquerda precisou ser reimplantada através de procedimentos cirúrgicos. Esse acidente a deixou na cadeira de rodas durante dois anos e ela teve que passar por 101 cirurgias.

Em 2010, Léa publicou em seu Blog oficial que na época do acidente levou o caso à justiça, mas perdeu nos tribunais quando as provas sumiram misteriosamente...

O acidente ocorreu em 1974, ano em que João Havelange assumiu a presidência da FIFA e curiosamente, o ônibus pertencia a uma companhia de Havelange. Léa viajava com destino a São Paulo, em um assento proibido por lei de ser comercializado, localizado ao lado do motorista, que segundo ela cochilou na estrada e o acidente aconteceu por volta das 2h da manhã.

Em 1976, mudou-se para os EUA para fazer tratamentos médicos e vive lá até hoje, com seu marido o colombiano Eduardo Medina, que é jornalista, publicitário e escritor. Aos 71 anos, Léa dá aulas de futebol para mulheres, participa de eventos esportivos e é colunista nos jornais “Gol Internacional “, “Noticiero Colombiano de Nova York” e “Brazilian Express”.

 

Léa no Mineirão em 2014. Foto revista oficial do Cruzeiro


 

“Quero ver o futebol feminino crescer no Brasil, assim como nos Estados Unidos. Acredito que quando as mulheres se propõe a fazer alguma coisa, elas conseguem. Nada é impossível quando há luta. E a mulher brasileira é guerreira.” (Portal da Band 08/03/2016).


Por Mariana Paiva