Muito prazer Boca Juniors, Fluminense

 

 

 

“Disseram que eu fiquei sozinho no meio do gramado. Se tem uma coisa que eu não estava ali era sozinho.”

Renato Gaúcho

 

 

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Foto emblemática de Renato Gaúcho no final da partida

Foto: O Globo

 

 

Desde menina queria ser jornalista e cultivei o hábito de anotar minhas experiências rotineiras em agendas ou bloquinhos e usava pastinhas para colocar os rascunhos. Na adolescência comecei a escrever cadernos, sempre preparando uma capa personalizada, com temas que amava, como o Fluminense e o futebol. Para que contar tudo isso, meu caro leitor? Para dizer que esta crônica foi baseada em várias páginas de um destes meus cadernos. E em nossa retranca “Jogos Inesquecíveis”, volto ao dia 4 de junho do ano de 2008, mais precisamente ao Maracanã. Foi no templo do futebol que assisti a uma das partidas mais representativas de toda a minha vida, a semifinal da Taça Libertadores entre Fluminense x Boca Juniors.  

Nosso time de Guerreiros entraria em campo para disputar a tão sonhada vaga para disputar a final da competição. E naquela manhã acordei elétrica e contando as horas para sair de casa rumo ao estádio ao lado de minha filha Lara, a melhor parceira de jogo. Ela também estava bastante agitada e parecia uma estrela de tão radiante, com aquele brilho no olhar e o sorriso farto. Para um evento tão importante escolhemos envergar a tradicional camisa tricolor. E depois de muitos minutos contados, lá estávamos no Maracanã para fazer parte da festa grandiosa que a nossa torcida preparou.

 

 

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Foto: Agência O Globo

 

 

Foi com emoção que entrei na galeria que desemboca nas arquibancadas e meu coração bateu forte quando vi o gramado. Foi um deslumbramento ver todas aquelas bandeiras, com as três cores que traduzem tradição, perfiladas e sendo agitadas no ar. Eram 80 mil a gritar e cantar. Uma sensação única que fez minha pele arrepiar e, confesso, chorei pela primeira vez. Escolhemos nossos lugares e esperamos o juiz dar o apito inicial.

 

PRIMEIRO TEMPO

 

Começo do primeiro tempo. O Fluminense jogava com raça e determinação. Destaque para as atuações de Júnior César, Cícero, Conca, Fernando Henrique (se não colocar Lara me esgana, pois ele era o amor da vida dela nessa época) e os Thiagos Silva e Neves. Atacamos, marcamos e pressionamos o adversário. Um conjunto que conseguiu desarmar as jogadas, principalmente as aéreas, e dificultamos a chegada dos “hermanos”.

Ponto Fraco: marcação do Arouca em cima de Riquelme. Renato Gaúcho berrava com os jogadores da beiradinha do campo. E termina o primeiro tempo. Na saída, o capitão Luís Alberto disse que o time voltaria mais agressivo, que era fundamental jogar mais pesado. E ele estava certo.

 

SEGUNDO TEMPO

 

E logo no começo do segundo tempo, a torcida argentina criou tumulto e confusões em alguns pontos do estádio e a Polícia Militar caiu em cima. Cenas lamentáveis em uma tentativa de estragar a beleza do espetáculo de futebol. Nervosinhos. Não sabe beber? Bebe leite. O grande problema deles é a marra. Para completar, torcedores vascaínos, rubro-negros e alvinegros estavam infiltrados entre os argentinos para apoiar o time deles contra o Tricolor.

E o primeiro lance de perigo do Fluminense veio dos pés de Cícero que deu um belo chute a gol que passou com perigo pelo canto esquerdo de Migliore. A torcida se levantou e começou a cantar o mais forte que pôde.

No entanto, o time argentino voltou disposto a marcar e pressionou muito o Tricolor que errava os passes. Até que, aos 12 minutos o pior aconteceu. Datolo driblou Ygor pela esquerda e cruzou. Palermo cabeceou sem pular no canto esquerdo. A bola passou entre a trave e Fernando Henrique. O Boca Juniors abria o placar.

Minha respiração parou. Tudo ao meu redor parou quando aquela bola entrou. Bateu aquela onda de tristeza, afinal dificultaria as coisas. Só que ali era o Fluminense e nada era impossível. Nossos Guerreiros dariam um jeito, pensava. E nossa Torcida não se abateu. Continuou a cantar e tocar suas baterias vibrantes para ajudar a embalar o coro da galera.

Com o tento, Renato olhou para o banco e mandou Dodô aquecer. E este craque mudaria os rumos da partida com sua entrada em campo no lugar de Ygor. E com cinco minutos no gramado, ele cavou uma falta perigosa perto da pequena área. Meu Deus faz essa bola entrar, pedia eu em silêncio, abraçada com minha filha, enrolada em nossa bandeira. Quando todos pensavam que Thiago Neves cobraria, Washington bateu e fez a bola entrar.

Washington é matador.. Coração Valente, guerreiro Tricolor”, cantou a torcida enquanto nosso artilheiro comemorou com os braços levantados para o céu e batendo sua mão no coração. Emoção. Amor. Contentamento. Paixão. Arrebatamento. Sou Tricolor. Sou Tricolor de Coração.

 

 

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Coração Valente comemora levantando as mãos para o céu

Foto: O Globo

 

 

O empate deixou o Boca Juniors enlouquecido e fez o time pressionar para anular a vantagem. Só que João de Deus estava conosco e não decepcionaria aquela torcida. Aos 25, Dodô roubou a bola no meio-campo e deu um passe para Conca. O meia argentino tentou cruzar para a área, mas a bola bateu em Ibarra e foi para o gol. Era o segundo gol tricolor.

 

 

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O argentino Conca marcou o dele

Foto: O Globo

 

 

Viramos o jogo. Desabei em lágrimas agarrada na Lara, que pulava sem parar e gritava o nome do argentino. Estava embriagada, arrebatada, inebriada de amor. E sem conseguir parar de chorar continuei a assistir o show do meu Tricolor.

Aos 27 minutos, Fernando Henrique fez dois milagres. Primeiro no chute de Bataglia. Depois, na cabeçada de Palermo. Tiago Silva salvou um chute cruzado de Datolo. O jogo era eletrizante. Meu coração descompassado.

O Boca Juniors seguiu tentando. E o time de Guerreiros segurou na marcação bem feita. Eu contava os segundos para a partida acabar. E como foi maravilhosa aquela sensação que misturava agonia e contentamento, afinal eu estava a minutos de colocar meu pé na final da Copa Libertadores, um sonho a se realizar.

O juiz deu acréscimos e eu pirei, afinal seriam mais alguns minutos que pareceriam uma eternidade. Só que eu não sabia, até então, que o árbitro acabaria por nos ajudar. Aos 47, Dodô aproveitou uma bobeada na saída de bola do time argentino e chutou forte para marcar o terceiro gol e sepultar de vez o Boca em sua casa. Foi um golaço.

 

 

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Dodô no chute para o terceiro gol

Foto: O Globo

 

E quando o juiz apitou o fim da segunda etapa, a torcida foi ao delírio. Vi muito marmanjo chorar, gente que nunca vi na vida a me abraçar, todos unidos por uma emoção mais do que intensa. Foi avassalador.

 

 

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Foto: Agência O Globo

 

 

No campo, os jogadores se abraçavam e foram cumprimentar a torcida. E o Renato? Ele sentou-se em campo e ficou ali num transe, imerso em seus pensamentos. Ele conseguiu.

Meu grande Amor estava na final da Libertadores. Meu Fluminense destronou o time argentino assim como a marra de Riquelme, Palermo, Palacio e Battaglia. Uma equipe que não era eliminada nas semifinais desde 1991.

Um verdadeiro apogeu do meu Tricolor e eu estava lá. Para sempre serei grata aos queridos Fernando Henrique, Gabriel, Thiago Silva, Luiz Alberto, Junior César, Ygor, Dodô, Arouca, Conca, Thiago Neves, Maurício, Cícero, Washington, Roger e Renato Gaúcho.

E poderei contar essa história aos meus netos, que também serão tricolores. Poderei dizer a eles do imenso privilégio que tive ao presenciar nosso time alcançar a classificação inédita e histórica para a final da Libertadores da América. Eterno Amor.

 

 

E eu dedico este texto para a minha filha Lara Andrade, que herdou de mim esse amor incondicional. Te amo meu amorzinho.

 

 

Carla Andrade