NÃO ANTECIPARÁS

O Palmeiras vence mais uma e quase se consagra Campeão Brasileiro. Mas na história Alviverde, a emoção tem que ser vivida até o último minuto.

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Fonte: www.palmeiras.com                

 

Quase.

Aquele grito preso na garganta, quase ecoou ontem no Allianz Parque. Um grito engasgado na alma. Que tem sabor de lágrimas, decepções, sonhos frustrados e o peso de vinte e dois anos. O torcedor palmeirense não vê a hora de libertá-lo e fazer o mundo ouvir: “É campeão! É campeão!”.

Mas time que tem Divino, Santo, Jesus e o Profeta, tem os seus próprios mandamentos. Um dos mais contundentes fala da emoção à flor da pele, que só quem é Alviverde sabe dizer. Da loucura apaixonada em cada jogo e que se multiplica nas horas de decisão. Ansiedade, desespero, choro, unhas roídas, coração disparado, mãos frias...

Ser Palmeirense é padecer desses sintomas. Porque a torcida que canta e vibra, não é apenas espectadora, ela está lá, dentro do campo, dentro de cada jogador. O torcedor joga junto, empurra a bola, bate falta e fecha o gol. É doloroso. Sofrido. Intenso. Sem alívio.

Não dá para suavizar, quem é, sabe que não é fácil ser. É estilo de vida. Uma sociedade, diferente de tudo. Uma família. Não se trata apenas de um time. E não é só futebol. É Sociedade Esportiva Palmeiras por todos os poros.

“Não anteciparás”, ouve-se dos corredores da nossa história... Essa história banhada de luta, muita luta. O destino de todo aquele que escolhe o Verde, o Branco e o Vermelho, é viver tudo, absolutamente tudo, no limite. E até o fim.

Quando o Palmeiras pisou no campo da sua casa, ontem pela 36º rodada do campeonato Brasileiro, para enfrentar o Botafogo, havia a possibilidade de ser campeão. Isso porque, se vencesse o alvinegro carioca e o vice-líder Santos, que jogava no mesmo horário, perdesse para o Cruzeiro em Minas, a soma de pontos daria o título antecipado ao Verdão. Os torcedores lotaram a nossa casa, com festa e grande expectativa. Podiam sair de lá, campeões brasileiros.

O jogo começou muito disputado, com as duas equipes marcando bem. Cuca deslocou a dupla dinâmica Moisés-Tchê Tchê para blindar a defesa e CX10, atuou como meia clássico. A proposta ofensiva fez com que o time tivesse a posse de bola, mas faltava uma finalização efetiva. O Botafogo por sua vez, foi para cima do líder, sem medo e conseguia armar contra-ataques perigosos.

Aos dez minutos, susto e preocupação. O zagueiro Mina, que retornava ao time, após se recuperar de uma lesão, sentiu novamente e teve que dar lugar à Thiago Martins.

Aos 14 minutos, o capitão Dudu bateu uma falta, que encontrou Moisés bem posicionado. Ele cabeceou para o gol, mas a bola bateu no goleiro. O adversário mantinha a mesma pressão e passou a crescer em volume de jogo, chegando com perigo.

Aos 27 minutos, o nosso xerife da zaga, atacou de ladrão. Vitor Hugo roubou uma bola, que foi passada para Dudu e dele para Moisés. Roger Guedes chegava pela direita e ao receber o cruzamento perfeito do profeta, preferiu não chutar à gol e lançou Gabriel Jesus, mas o garoto abençoado, estava impedido.

Medo de errar ou preciosismo, hein Guedes?

Dudu quase abriu o placar aos 29, quando recebeu um bom lançamento de Moisés. Entrou na área todo abusado e bateu forte, mas o goleiro Sidão defendeu, salvando a pátria botafoguense.

Jailson trabalhou muito bem aos 39 minutos, quando os cariocas chegaram com perigo, num chute de Neilton. Foi uma defesa espetacular. Quando o juiz avisou que estava na hora do intervalo, nenhum palmeirense tinha mais unha e sobrava ansiedade.

Mesmo sabendo que o Cruzeiro estava botando os peixinhos para nadar sem água, todo mundo sabia que não dava para depender desse resultado, era preciso ganhar a partida. O Palmeiras tinha que fazer, o que fez durante todo a sua trajetória até aqui: ganhar por seus próprios méritos.

O time de Cuca voltou disposto a incendiar e vencer. E mostrou isso no primeiro minuto, quando Jean cruzou para Dudu e ele chutou com endereço certo. O goleiro Sidão fez outra boa defesa.

Em seguida foi a vez do Botafogo assustar e do nosso goleirão salvar a pele Alviverde, defendendo outro bom chute de Neilton.

O que ninguém esperava, era que o nosso adversário crescesse tanto. Eram contra-ataques em cima de contra-ataques, que fizeram o torcedor morder os dedos, já que as unhas já não existiam. A facilidade com que o ataque do Botafogo chegava livre à nossa área, era impressionante. Foi um sufoco. Para nossa sorte, o time de Jair Ventura, faltou na aula de pontaria.

A torcida que não cansava de olhar o relógio, se perguntava: onde está o gol? O nosso gol, o gol da vitória. Esse sim, era mais importante que qualquer gol que pudesse acontecer em Minas.

Dizem que um time, realmente bom, tem que surpreender no momento em que mais precisar. Foi exatamente o que aconteceu com o Verdão na marca dos 20 minutos. Quando o Botafogo mandava no jogo e qualquer bola parecia que ia entrar à qualquer momento, o líder absoluto do campeonato, mostrou a sua cara.

Dudu, arrancou como um foguete na lateral e enxergou o menino Jesus. Ele cruzou, mas o dono da camisa trinta e três não conseguiu dominar. Não dominou, mas conseguiu alcançar a sobra e jogar a redonda para dentro da área, que achou o seu lançador. Dudu estava lá. Bem posicionado. Predestinado. Cabeceou sem titubear, para balançar a rede e as estruturas do Allianz Parque. Dudu para Jesus. Jesus para Dudu. Dudu para o gol. Ficou até parecendo música do Chico.

Explosão de alegria também fora do estádio, fora de São Paulo, fora do Brasil. Palmeirenses espalhados pelo mundo, cantavam em uma só voz: “Olêee Porco! Olêeee Porco!”

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Fonte: www.palmeiras.com

 

Cuca inteligente e vendo que apesar do gol, o adversário não se intimidaria e estava indo para o tudo ou nada, colocou Gabriel no lugar de Tchê Tchê. À partir daí, o Palmeiras conseguiu administrar o jogo e se defender melhor das investidas do Botafogo. E não faltaram chances de tentar o segundo gol. O profeta, que ontem estava divino, recebeu uma bola de Dudu e soltou uma bomba no canto direito. Essa passou raspando.

Quase no final, quando foi anunciado o empate em Minas, a torcida comemorou com gritos que provocavam o adversário direto ao título. Mas aquele grito, que está bem ali, amordaçado pelo tempo... Esse ainda não pôde ser dado... Ainda não.

Parece teima do destino ou brincadeira dos deuses do futebol, que às vezes tem um senso de humor inesperado. Parece final de filme de suspense que não acaba nunca.

Mas esse grito especial e esperado, não pode ser antecipado. De tão desejado e sonhado, ele tem hora certa para chegar.

“Não anteciparás”... Sob pena de castigo ou punição.

É preciso viver tudo que está reservado para nós. Intensamente. Mais um pouco, só mais alguns passos, mais três pontinhos. Para que o grito saia ainda mais forte e mais alto. E que ele traga com ele, lágrimas, muitas lágrimas que hão de lavar o coração de Porco, cansado de esperar...

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Fonte: www.palmeiras.com

 

Por Alê Moitas