Não sou capaz de definir um TÍTULO!

Já se passaram mais de 48 horas. Preciso escrever um texto sobre o que aconteceu na última quarta-feira, dia 07 de dezembro de 2016. Que dia estranho! Estranho porque tive a sensação de que entre a hora que cheguei ao trabalho até a hora de que lá saí existiu um intervalo de 77 horas. Como foi difícil trabalhar nesse dia. Por inúmeras vezes o Grêmio já ocupou meu pensamento entre uma tarefa e outra. Mas nesse dia em especial algo estava diferente... Muito diferente!

Eu vinha de duas semanas intensas no que diz respeito ao futebol. Quatorze dias antes, vi meu time protagonizar uma atuação de luxo em pleno Mineirão na primeira partida da final da Copa do Brasil de 2016. A vantagem de 3 a 1 era tão inacreditável quanto incrível. Na semana seguinte, mais precisamente na véspera do dia que seria a grande decisão Tricolor dos últimos anos, acordei com a notícia que mais me abalou no futebol em toda a minha vida. Um acidente, uma tragédia, uma lástima, o fim de um sonho. Nunca será possível definir a queda do avião na Colômbia com apenas um termo diante do turbilhão de sentimentos que vieram à tona com a fatalidade que aconteceu com a exemplar Chapecoense.

A dúvida era: seria possível encarar novamente o futebol depois daquilo? Pensar em ser um campeão parecia não fazer mais tanto sentido. O que significava uma derrota ou um triunfo diante da perda de dezenas de profissionais que estavam em busca do seu objetivo? Era incomparável. A sensação era de que o futebol continuaria, porém com uma cicatriz enorme causada por essa tragédia. Os dias foram passando, mais precisamente oito dias, e estava na hora de encarar o campo novamente. Grêmio e Atlético-MG seriam os responsáveis por trazer de volta o futebol de forma oficial ao público brasileiro. Antes de exercerem futebol, fizeram parte de mais uma homenagem à Chape que ficará marcada nesse país.

Era chegado o momento. A decisão que tanto aguardamos. A partida que poderia nos trazer o título com o qual por muito (muito tempo mesmo!) sonhamos. Noventa minutos nos separavam do fim do doloroso jejum de 15 anos sem títulos de expressão. Havia noventa minutos! E se algo desse errado? E se o Galo surpreendesse? Seria possível mais de 55 mil gremistas irem embora decepcionados? Quando a expectativa saía de cena, vinha a apreensão, que logo em seguida dava lugar à euforia, que por vezes quase deu chance ao pânico, que logo era substituído pela esperança cada vez maior da conquista do Penta.

Fonte: Richard Ducker / Site Ducker.com.br

Lembro que aos cinco minutos de jogo mentalizei: “Faltam só 85”. O Grêmio parecia não fazer questão de ficar com a bola. Primeiros minutos de jogo e o Atlético apresentava gritantes 66% de posse de bola. O Galo tinha Robinho, Lucas Pratto, Luan. E se algum deles resolvesse desencantar em plena Arena? Grêmio, pega essa bola!!! De repente, um lance magistral de Douglas, o nosso maestro. Um passe de calcanhar para Éverton ficar livre diante de Victor... Nada de gol. Sem maiores chances ou perigos, vi meu Grêmio ir para o intervalo. Os 90 minutos viraram 45. Não podia nem pensar que já somos campeões. Ainda faltavam longos 45 minutos.

Boca seca, barriga congelada, mãos trêmulas que não paravam de bagunçar o cabelo ou agarrar o escudo do meu clube do coração na camisa. Aguenta Grêmio! Administra. Nós precisamos tanto dessa conquista... Veio a volta do intervalo e mudança no time visitante. E se o Galo enfim conseguisse ir atrás do resultado que tanto precisava? Felizmente, não foi isso que aconteceu. As melhores chances de gol foram do Tricolor. Os quarenta e tantos minutos mais longos dos últimos tempos passaram à medida que a torcida pelo Rio Grande se inflamava cada vez mais e fogos de artifício traziam sons cada vez mais constantes.

Estava acontecendo! E, durante a reflexão do “estava acontecendo!” eis que surge um contra-ataque do Grêmio. Na zaga, nosso monstro Geromel transforma um desarme em um lançamento certeiro para Bolaños no campo de ataque. A bola é tocada para Luan, que encontra Éverton aberto na esquerda. Éverton clareou o lance, lançou para o meio da pequena área... Sobrou para Miller novamente... Gol do Grêmio. Meu Deus. Gol do Grêmio!!! Enquanto o equatoriano era alvo da comemoração insana do seu grupo, essa torcedora viajava para um verdadeiro flash back do meu Tricolor nessa Copa do Brasil.

Esse Grêmio era o mesmo que teve que encarar uma disputa de pênaltis ainda nas oitavas de final diante do Atlético-PR. Decorei as intermináveis dezesseis cobranças, mas só algumas vieram na minha mente naquele momento. E o desafio de encarar o forte Palmeiras em plenas quartas de final. Da desconfiança, fomos à vitória em casa e ao empate salvador em São Paulo. Depois dali, o pensamento foi para a vitória empolgante no Mineirão lotado de cruzeirenses, vitória essa que fez com que o 0 a 0 em nossa casa fosse mais que suficiente para nos tornar os triunfantes daquela semifinal.

O que me tirou do meu devaneio foi o golaço marcado por Cazares. Sem comentários, uma pintura, um gol histórico para valorizar ainda mais a final. Mas não adiantava. O sentimento já era de vitória, de Penta Campeonato!!! Um ciclo de 15 anos estava sendo encerrado naquele momento. A vontade era de chorar, mas, no lugar das lágrimas, um sorriso e gritos de comemoração que saíam incontrolavelmente.

Fonte: Richard Ducker / Site Ducker.com.br

Essa explosão de sentimentos é o verdadeiro significado de conquistar um Título? Não sei determinar se é somente isso. Ver ruas tomadas de gremistas descontrolados em suas comemorações é a verdadeira essência de um Título? Sentir como se um dever estivesse cumprido depois de tantos anos de espera seria capaz de definir um Título? Não sei. Não sou capaz de definir o que é um Título. O que posso afirmar é que o sentimento do gremista sempre esteve presente, inclusive durante essa seca desgraçada que nos acometeu. Porém, na última quarta-feira, esse sentimento tomou forma diferente, impulsionado pela alegria da conquista e da alma lavada após anos de chacota e humilhações vindas dos rivais.

Obrigada Marcelo Grohe, Edílson, Geromel, Kannemann, Marcelo Oliveira, Walace, Maicon, Ramiro, Douglas, Éverton, Luan, Bolaños, Jaílson e Fred. Vocês são os nomes que, de fato, entraram em campo na decisão fatídica. Mas estendo meu agradecimento àqueles que estiveram do lado de fora, entre eles Pedro Rocha, o nome do primeiro jogo em Minas. Obrigada Roger, é impossível não reconhecer a capacidade que tu tiveste de encorpar esse grupo e fazê-lo jogar bem enquanto esteve ao teu alcance.

Porém, meu último e mais emocionado agradecimento vai para Renato, o nosso Homem-Gol. O protagonista artilheiro do nosso maior título, o comandante do time que acabou com o maldito jejum. Pode falar o que tu quer Renato! Que muitos não vão gostar das tuas declarações todos nós sabemos. Mas continua falando! Inclusive se for para cobrar outra vez a tua estátua na casa do nosso Tricolor!

O Grêmio saiu campeão! FINALMENTE!!! A quinta conquista da Copa do Brasil foi um marco porque foi o primeiro título na Arena, porque foi o primeiro título visto por uma legião de jovens gremistas, porque deixou ainda mais forte uma chama de amor a esse clube que nunca se apagou, mas que pode ter enfraquecido em alguns corações ao longo dos últimos anos.

Obrigada por 2016 Grêmio. Por favor, reserve um 2017 ainda melhor para a tua nação. Agora que sentimos novamente na pele a satisfação da conquista, estaremos junto contigo na busca pela permanência dessa sensação. Sim, estaremos com o Grêmio, onde o Grêmio estiver.