Ninguém vai calar a nossa voz: ser mulher não me faz menos torcedora que você!

 


 

Tem coisas que são únicas na vida e que se sobrepõe a muitas outras. Por elas fazemos o possível e o impossível, colocamos esse amor a frente de tudo e de todos. Desde sempre, esse sentimento foi escrito por mim, com 11 letras, muita luta e muita devoção! Na minha vida esse amor é o Corinthians.

Não sei dizer quando eu e o Corinthians nos encontramos, mas sei, que não lembro de uma Mariana sem o Corinthians. Sempre digo, que foi paixão ao primeiro sofrimento, carregado de fanatismo e de um amor incondicional.

Não sou corinthiana por status, por títulos, ou para agradar alguém. Sou corinthiana, porque não sei ser outra coisa, porque é meu pavilhão alvinegro, que transforma meu dia em uma fração de segundos, que me acalma em momentos nebulosos, e que proporciona as melhores lembranças de toda uma vida.

Criada em meio a homens, sofri como outras tantas meninas para o direito de torcer, de jogar bola ou fazer qualquer outra atividade considerada de “menino”. Quantas vezes mandaram eu me calar, porque mulher não entende de futebol ou ainda disseram que eu não poderia jogar porque iria me machucar? Tenham a certeza de que perdi as contas!

Mesmo com tudo contra, o Corinthianismo ardente, me move. Como não torcer para um time de uma Nação tão ensandecida? Como não soltar aquele libertador “VAI CORINTHIANS”, ou cantar a plenos pulmões: eu nunca vou te abandonar?  O Corinthians é isso mesmo: Loucura, paixão...religião! É como canta a Fiel: ninguém vai calar a nossa voz! Mas ainda existem pessoas que acham que torcedoras devem se calar...

Vivemos como se estivessemos num constante teste, tendo de provar algo a alguém. Além da tradicional e ridícula questão “o que é impedimento”, ainda nos deparamos com perguntas do tipo: sabe a escalação do time campeão no quarto centenário? Quanto calça Marcelinho Carioca? Quem foi Baltazar? E se sabemos responder, ainda dizem que usamos plataformas de buscas, ou algo do tipo.

 

 

Não precisa ser corinthiana para partilhar do mesmo sentimento pelo futebol. Sei que por todo o Brasil, milhões de mulheres, alvinegras, alviverdes, alvirrubras, bicolores, esmeraldinas, tricolores, celestes, grenás, rubro-negras, rubro-anis,  sofrem e lutam contra o machismo todos os dias.

O número de mulheres nas arquibancadas, tem crescido ano após ano, mas seguindo a lógica machista somos torcedoras por causa do namorado, ou do paquera; vamos ao estádio para tirar fotos, ou para ter status; ou porque somos fãs de algum jogador bonito, mas nunca porque gostamos de futebol. Chegamos ao absurdo de  homens ridicularizarem nossos comentários em debates de futebol,  mas concordarem com outro homem que havia falado exatamente a mesma coisa que nós.  

Mesmo com o grande número de jornalistas, são raras as vezes que mulheres aparecem como comentaristas, debatendo o esporte. A mídia muitas vezes expõe a mulher em folhetins esportivos apenas como o rostinho bonito, tendo sua enorme parcela de culpa, e contribuído para a manutenção de comentários e piadas de cunho preconceituoso.  Como não lembrar do programa “Os Donos da Bola” de Goiás e suas perguntas de duplo sentido? Ou de reportagens que quando colocam em pauta torcedoras, usam mulheres seminuas como símbolo?

O preconceito mascarado no futebol, comentários carregados de machismo, ou de ironia simplesmente por se tratar de uma mulher, nunca fizeram e nunca me farão menos torcedora. Não deixarei de ir ao estádio, de cantar, de vibrar e de debater futebol, porque isso de alguma forma incomoda alguém. É como dizem: os incomodados que se retirem!

Ser mulher e torcedora é uma árdua guerra contra a sociedade e seus arcaicos paradigmas. É ter de explicar porque prefere ver um simples jogo amistoso, ao final da novela, ou porque gastou todas as economias com camisas, ao invés de comprar tudo de sapatos ou maquiagem. É conviver com a desconfiança dos outros sobre seus conhecimentos, e viver todo dia tendo de se sobressair!


 

Por Mariana Alves: A razão deste texto é simples: troquei o conselho de assistir Jornal da Globo, pra falar de atitudes como a sua!