O ATLETICANO E A SÍNDROME DO NINHO VAZIO

 

(Foto: Jason Silva/AGIF)

 

Especialistas dizem que os principais sintomas da síndrome do ninho vazio são a tristeza e o desânimo que acometem os pais que se veem em uma ambígua situação de orgulho, pela realização do filho que deixa a casa, e ao mesmo tempo sentem um vazio que ultrapassa os limites da saudade e atinge o pico mais alto de uma suposta solidão.

 

Ainda não sou mãe, quanto mais de um filho com idade suficiente para sair de casa, mas os eventos recentes na história do Furacão me fizeram sentir na pele o que pais e mães sentem ao ver sua cria, tão bem tratada, deixar o ninho de suas casas para alcançar voos mais altos, e por sua própria conta.

 

Renan Lodi chegou ao Furacão com 14 anos, formado nas categorias de base do Atlético e integrado à equipe profissional em 2016.

Em 2018 participou de 11 jogos da campanha do Paranaense, integrava o “Time de Guerra” e já nos impressionava com suas explosões, habilidade e assistências na lateral esquerda. Era questão de tempo para que fosse integrado ao time principal, o que foi feito por Fernando Diniz, quando Sidcley foi emprestado ao Corinthians e Carleto ganhou a titularidade.

 

Porém há aproximadamente um ano, Carleto deixou o futebol brasileiro e abriu o caminho para o prata da casa selar sua história como titular absoluto, criando, desde aquele momento, uma “Lodidependência” tanto no time quanto nos torcedores atleticanos.

 

A partir dali foi assistência para lá, bola dominada com maestria para cá, e nem um pênalti perdido na decisão da Copa Sul-americana foi suficiente para apagar qualquer consideração e amor que a massa atleticana já sentia pelo piá. O choro depois do título, o abraço carinhoso dos companheiros, o reconhecimento de todos, a irmandade com Bruno Guimarães. Renan cresceu e mostrou-se amadurecido, porém não menos emotivo, como quando na saída do jogo contra o Boca Juniors, no início de maio, foi parado por repórteres e questionado sobre uma possível convocação para a Seleção. Caindo no choro, sem vergonha e sem deixar a humildade de lado, lembrando de tudo o que havia passado antes de chegar àquele momento, respondeu: “Vai ter muita coisa para mim aí ainda”. 

 

(Foto: Geraldo Bubniak/AGB)

 

E do alto de seus 20 anos Renan Lodi estava certo. Na reta final de sua estada no Furacão ainda deu tempo para um reconhecimento gigantesco e uma prova de fogo maior ainda: foi de fato convocado pela Seleção Brasileira olímpica dias antes da grande final da Recopa contra o River Plate. Que conquista, que orgulho! Mas com vistas a ter um dos principais jogadores na finalíssima do torneio o Athletico solicitou sua “desconvocação”, ficando sem resposta da CBF, e não escalando o jogador no jogos que se seguiram, por precaução. Nem mesmo um pedido ao STJD surtiu efeito e continuamos sem Lodi.

 

A essa altura, o nosso Atlético já havia rejeitado uma proposta do Atlético de Madrid que beirava os 66 milhões de reais. Na sequência o time russo Zenit, com 87 milhões de euros, também levou um grande “não”. A contar não só pelos valores envolvidos, sabíamos que era questão de tempo até ver nossa jóia, lapidada com tanto carinho, ser entregue ao mundo para brilhar em outras bandas.

 

A dor da partida já vinha sendo sentida desde então. A possibilidade de sequer vê-lo despedir-se era como uma faca atravessando o coração rubro-negro. Após o anúncio do pré-acordo e a divulgação do valor da operação (R$ 87,25 milhões), maior venda da história do Atlético, o coração apertou de vez, a garganta deu um nó, as despedidas começaram antecipadamente, surgiam “Viúvas de Lodi”, seguidores do “Lodismo” e condinomes “Lodistas” nas redes sociais.

 

Mas foi só neste domingo (07) - ao menos para mim -, que as lágrimas vieram e a ficha realmente caiu. Renan Lodi realizou os exames médicos da Universidad de Navarra, na Espanha e, devidamente aprovado foi integrado já nesta segunda-feira (08) ao elenco “rojiblanco”. O ninho rubro-negro ficava definitivamente vazio de Renan Lodi.

 

(Foto: Twitter @Atleti)

 

A síndrome do ninho vazio tem cura. Uma das principais dicas para superação dessa crise é a substituição do tempo ocioso por atividades que criem um novo vínculo da pessoa que sofre, com essas novas ocupações.

No futebol, o que ajudaria a curar essa ferida, seria a reposição da peça perdida por outras de igual ou ao menos média qualidade daquele que se foi. Mas não é o que vemos.

 

Há dois dias do retorno da temporada após a pausa para a Copa América, nenhum reforço à altura chegou no Atlético, nenhuma especulação e pior: nenhuma perspectiva. 

Ao que parece, continuaremos com nosso ninho vazio, até que outro passarinho venha e preencha esse espaço deixado por Lodi.

 

Voa, piá!

 

Por Daiane Lodista.