O céu e o inferno de Carlos José Castilho

 

 

Recordista de jogos pelo Fluminense, 696 partidas, titular absoluto na posição por quase 20 anos (de 1947 a 1965)

 

 

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Foto de abre – crédito Revista O Cruzeiro

 

 

Campeonato Carioca de 1958. Fla x Flu. Em determinado momento do jogo, Castilho estava caído na pequena área Tricolor. Correndo ao seu encontro vinha o rubro-negro Henrique, louco para aproveitar o “descuido” do goleiro. Só que não era qualquer um, era Carlos Castilho. E ele defendeu o chute sentado.

Nelson Rodrigues que assistia ao jogo comentou aquela defesa inesquecível e a vitória do Fluminense por 3 x 1 em sua crônica na “Manchete Esportiva”.

 

 

“...Porque Castilho não jogava sozinho. Além de uma zaga com o calibre de Píndaro e Pinheiro, havia uma parceria quase sobrenatural com as traves...”

 

 

Isso sem deixar de comentar sobre um jogo contra o América, no mesmo ano, onde quatro bolas bateram em sequência na trave.

 

 

C:\Users\Carla\Desktop\Blog MULHERES EM CAMPO\Idolos Inesquecíveis\Castilho Reproduçao Gazeta Esportiva.jpg

Foto reprodução Gazeta Esportiva

 

 

Por defesas fantásticas como esta, ele ganhou o apelido de “Leiteria”. O codinome ganhou notoriedade, pois na época um entregador de leite do bairro das Laranjeiras ganhou na loteria duas vezes. Cabe ressaltar que nosso goleiro nasceu nas Laranjeiras. Mais Tricolor impossível.

Outro jornalista esportivo, João Máximo também ficava bastante impressionado com o desempenho acima da média do jogador. Em depoimento reproduzido no livro “Os 11 maiores goleiros do futebol brasileiro”, de Luís Augusto Símon, ele comentou:

 

 

“Era impressionante. Havia jogos em que três, quatro bolas batiam na trave. Mas tinha muito a ver com colocação. E trabalho. Ele trabalhava muito”.

 

 

A torcida foi ao delírio quando o Fluminense ganhou o Campeonato Carioca de 1951. Como a diretoria do clube não tinha dinheiro para fazer grandes contratações decidiu apostar nos juvenis e em seu arqueiro. A torcida ficava extasiada pelos verdadeiros “milagres” que “São Castilho” fazia em campo. Sempre bem colocado, ele passava extrema confiança ao time de meninos e era o terror dos adversários.

 

 

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Lance do segundo jogo do Carioca de 1951 entre Fluminense x Bangu

Foto de José Eustáquio

 

 

O amor pelo futebol veio de menino e ele jogou como ponta-esquerda nos times de várzea onde sua família morou quando era moleque. Primeiro em São Cristóvão, depois em Olaria. A vida do menino não foi nada fácil e ele teve que começar a trabalhar aos doze anos em uma carvoaria para ajudar na renda doméstica. Ele perdeu a mãe aos quinze anos e, apesar de ter que trabalhar mais ainda, ele nunca abandonou o futebol. Dois anos depois seu pai, o senhor Ademir de Menezes decidiu levar seu filho ao Olaria e na sequência para o Fluminense. Começava aí uma grande história de amor.

Ele percebeu que precisava treinar muito e manter o foco nos mínimos detalhes do rival. Muito observador analisava as características dos atacantes, assim como as falhas de sua zaga, para poder dar conselhos aos companheiros.

Uma particularidade de Castilho, que ele temeu revelar, é que era daltônico, uma anomalia na visão. Mais ele tratou de usar a doença a seu favor. Era mais fácil para ele ver as bolas alaranjadas usadas nos anos 50. Ele também enxergava a bola com muita nitidez quando os jogos eram noturnos.

Costumava dizer que “goleiro tem que ser como um bom tenista e estar sempre com olho na bola, nunca desviar o olhar dela para nada. Ela é nossa pior inimiga”.

 

 

 

C:\Users\Carla\Desktop\Blog MULHERES EM CAMPO\Idolos Inesquecíveis\Fluminense de 1956 Clóvis, Jair Santana, Cacá, Castilho, Paulo e Pinheiro, Telê Santana, Léo Briglia, Waldo, Jair Francisco e Escurinho. Foto de José Eustáquio.jpg

Time de 1956: Em pé Clóvis, Jair Santana, Cacá, Castilho, Paulo e Píndaro. Agachados: Telê Santana, Léo Briglia, Waldo, Jair Francisco e Escurinho.

Foto de José Eustáquio

 

 

 

A grande prova de amor ao Fluminense

 

No ano de 1957 ele fez uma escolha, que a maioria discordou. Depois de várias tentativas e do médico dizer a ele que precisaria se afastar por dois meses, para novo tratamento, Castilho disse em alto e bom tom: “amputem meu dedo”. Tinha uma Copa do Mundo pela frente.

A decisão, considerada extrema pelo departamento médico do clube, causou um verdadeiro alvoroço. Os dirigentes tentaram remover essa ideia, sua mulher, Dona Vilma, mais ele estava inflexível. Em entrevista reproduzida no livro “Castilho Eternizado”, de Antônio Carlos Teixeira Rocha ele disse:

 

 

“De um lado, minha convicção de que só a amputação resolveria o problema. O dedo mínimo não tem a menor interferência na segurança de qualquer goleiro. Do outro lado, a minha senhora e os médicos não concordavam. Telefonei para o Dr. Paes Barreto e fui franco: se não houver operação, não poderei mais continuar jogando, assim não confio mais em mim. No dia seguinte dei entrada na Casa de Saúde. Eram 8h, Paes Barreto já me esperava. Antes da anestesia, ainda ouvi a última frase: “Você é louco”. Eu lhe disse “Goleiro tem que ser louco”.

 

 

C:\Users\Carla\Desktop\Blog MULHERES EM CAMPO\Idolos Inesquecíveis\Crédito revista Esporte Ilustrado número 515 – 19 de fevereiro de 1948..png

Nosso arqueiro inesquecível

Foto Revista Esporte Ilustrado

 

 

A operação ocorreu e ele rapidamente se habituou a usar luvas com um enchimento com algodão e esparadrapo para substituir o pedaço amputado. Foi assim disputar duas Copas do Mundo e ser bicampeão mundial em 1958 e 1962 mesmo que na reserva de Gilmar.

Castilho deixou o Fluminense em 1965 e passou um ano no Paysandu, onde encerrou a carreira no ano seguinte para se tornar técnico de futebol. Foi um ótimo treinador, tendo como maiores méritos o feito de levar o Operário de Campo Grande (MS) ao terceiro lugar do Campeonato Brasileiro de 1977 e ser campeão paulista com o Santos, em 1984. 

 

 

O melhor amigo e a depressão

 

 

Castilho e Telê Santana eram inseparáveis dentro e fora de campo. Tinham uma sintonia fina nos jogos e na vida pessoal. Contam que durante o processo de produção de sua biografia, “Fio de Esperança”, da Cia dos Livros, ele chorou ao relembrar o final trágico do amigo que se suicidou no dia 2 de fevereiro de 1987. Telê entrou em depressão, pelo afastamento forçado do futebol e entrou em depressão profunda, logo no início de seu tratamento e quando ainda estava sob o efeito de antidepressivos, lembrava-se constantemente de Castilho. 

 

 

 

C:\Users\Carla\Desktop\Blog MULHERES EM CAMPO\Idolos Inesquecíveis\Castilho e Telê Santana   Foto Reproduçao Gazeta Esportiva.jpg

 

 

 

 

Telê Santana disse: “Se o Fluminense tivesse de homenagear um profissional, teria que levantar o busto de Castilho na frente da sua sede. Ele carregou o time nas costas. Foi o melhor goleiro que já vi.”
Nunca ficou clara a decisão dele em tirar a própria vida. Alguns disseram que ele tinha transtorno bipolar e crises depressivas que ninguém percebeu. Eu fico com a versão romântica de que ele se atirou do prédio por ter se desentendido com sua mulher. O arqueiro morreu de amor.

E foi amor também que nossa maravilhosa torcida ofereceu a ele no primeiro jogo do Fluminense, depois de seu sepultamento. Na hora em que o árbitro ordenou o “minuto de silêncio”, ele não aconteceu. Cada Tricolor presente naquele jogo aplaudiu de pé nosso eterno ídolo.

 

 

 
 

Depoimentos

 

Como não tive o prazer de ver Castilho jogar, procurei amigos tricolores que tiveram esse privilégio para que cada um me falasse um pouco sobre esse gigante.

A história de amor entre meu amigo Jose Luiz Azevedo e o Fluminense começou antes mesmo do clube existir. Foi através de seu pai José Gabriel, nascido no ano de 1091, e que viveu por noventa anos amando o clube das três cores. Sua família paterna era toda tricolor e seus descendentes seguiram a tradição.

E no início da década de 50 foi levado pelas mãos de seu pai para conhecer o estádio das Laranjeiras. Imaginem um menino de apenas dez anos diante daquele deslumbre arquitetônico que é a nossa sede. Como ele diz: “um espetáculo para os olhos de um garoto. E era jogo mesmo, com aspirantes e profissionais”.

 

 

C:\Users\Carla\Desktop\Blog MULHERES EM CAMPO\Idolos Inesquecíveis\O goleiro Castilho e o zagueiro Pinheiro, que entraram para a história do Fluminense. Foto Reprodução A Gazeta Esportiva.jpg

Castilho e o grande zagueiro Pinheiro

Foto reprodução da Gazeta Esportiva

 

 

E sabe de onde ele assistia aos treinos? Sentado atrás de um dos gols admirando seus maiores ídolos: Castilho, Píndaro e Pinheiro. Era assim que Jose Luiz passava suas tardes, entre um picolé e outro, observado o trio mais famoso do nosso tricolor.  

 

 

“Que goleiro formidável, sempre entrava quicando a bola, uniforme azul, ora claro ora escuro, calção curto e joelheiras. A turma das arquibancadas o chamava de Frankenstein, talvez por suas grossas sobrancelhas e seus dentes de frente separados. Mas vê-lo operando aquelas defesas milagrosas era uma delícia enquanto a gente se fartava de picolés da Kibon. Castilho era um gênio da bola. Foram muitos os milagres que operava em defesas sensacionais, e quando, por acaso a bola passava, lá estavam as traves para devolvê-la a jogo”, conta emocionado.

 

 

Outro que conta seu momento com o ídolo com muito afeto é Paulo Márcio Ferreira.

 

 

“Eu vi! E o conheci pessoalmente no centro da cidade numa época de Natal. Meu pai o conhecia por ir a vários treinos naqueles anos. Tive o prazer de apertar a sua mão e lembro até hoje o carinho que me foi dispensado. Castilho, quando a bola passava por ele batia na trave. As duas traves e o travessão agarravam junto com ele”, recorda.

 

 

 

Fontes:

“Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1”, de Paulo Guilherme 

 

Site Tardes de Pacaembu

Site FFC

 

Carla Andrade