O DONO DA CAMISA 23

Sinônimo de sucesso, Grafite fez história por onde passou. Desde sua formação já tardia no futebol, aos 20 anos, na Matonense, o atacante correu o mundo mas jamais esqueceu seu clube do coração, o Santa Cruz.

 

 

Grafite em seu retorno ao Brasil para jogar pelo Santa Cruz em 2015 (Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press)

(Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)

 

Edinaldo Batista Libânio, o G23, nascido em 02/04/1979, começou sua carreira no futebol por pressão de familiares e amigos. Profissionalizou-se aos 20 anos, na Matonense, e disputava a 3ª divisão do estadual paulista pela Ferroviária de Araraquara quando sua história e a do Santa Cruz se cruzaram pela primeira vez.

Com somente 22 anos, começava a sua trajetória pelo Santinha. Em 7 de julho de 2001, Grafite chegou ao tricolor. O momento não era dos melhores, o clube estava passando por uma forte crise financeira e acabou caindo naquele ano, e nosso atacante vendido ao Grêmio por uma bolada. Em sua primeira passagem, marcou somente 5 gols e, como desperdiçava muitas boas chances e não rendia o esperado, foi duramente criticado pela torcida.

Não demorou para que o atleta pudesse recuperar a confiança dos corais. De volta ao Arruda no ano seguinte, emprestado pelo Grêmio, o atacante marcou 11 gols em 15 partidas e o retorno à série A não veio por pouco, escapou no hexagonal final.

Deixando saudades em Recife, o atleta deu vez ao Goiás, e fez história com o time de Cuca em 2003, na série A. Foi peça fundamental do segundo turno avassalador do técnico e brilhou com a camisa esmeraldina, marcando 12 gols em 20 jogos.

Em 2004, Cuca foi contratado pelo São Paulo e levou Grafite com ele, realizando o sonho de infância do atacante. A passagem pelo São Paulo foi um divisor de águas em sua carreira, conquistou o estadual, Libertadores e Mundial.

 

Grafite atuando contra o Liverpool, na final do Mundial de Clubes de 2005 (Foto: Reuters)

Final do Mundial de Clubes, em 2005, contra o Liverpool.

(Foto: Reuters)

 

Lamentavelmente, o G23 sofreu um escancarado caso de racismo em uma partida da Libertadores, contra o Quilmes. Após uma dividida na linha lateral entre Grafite e Arano, Desábato xingou o atacante de “negro de merda”, que revidou, empurrando a cabeça do zagueiro argentino, mas o brasileiro acabou sendo expulso da partida.

 

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São Paulo x Quilmes

(Foto: Uol Esportes)

 

O delegado conhecido como Dr. Nico estava presente no estádio, acompanhou tudo e procurou Grafite ainda no vestiário e disse que prenderia o atleta racista ainda dentro de campo, e assim o fez. Antes de chegar ao túnel de acesso, o zagueiro foi detido e foi liberado somente 43h após o ocorrido, mediante pagamento de fiança.

O episódio tomou proporções que incomodou o dono da camisa 23. Passado o calor do acontecido, o atacante se viu sozinho e constantemente questionado sobre o crime sofrido, o que se tornou um verdadeiro espetáculo. Buscando dar um fim a toda àquela festa midiática, o atacante retirou a queixa meses depois.

Saindo vitorioso do clube São-Paulino, Grafite foi para a França, atuou pelo Rennes. Ficou por lá duas temporadas, e deixou 14 gols em 45 jogos. Foi a calmaria que antecedeu a estrondosa passagem pelo Wolfsburg.

O atacante conseguiu o inédito título da Bundesliga na temporada 2008/2009, marcando 28 gols, e se fez essencial na conquista, sagrou-se artilheiro da competição. Conquistou a idolatria dos alemães com o feito, ainda mais depois de marcar o gol do título pra cima do Bayern de Munique, na goleada por 5x1, uma verdadeira pintura, indicada ao Prêmio Puskas.

 

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Arte em forma de gol.

(Foto: Ghanasoccernet.com)

 

Toda a visibilidade adquirida pela incontestável atuação na Alemanha teve como retorno a famigerada COPA DO MUNDO! Qual jogador desse mundo não tem como sonho majoritário disputar uma Copa do Mundo? Grafite realizou! E viveu a maior emoção da sua vida com a convocação.

Desbancou Adriano Imperador, que vivia ótima fase, e conquistou a vaga. Mas na mais importante competição de futebol não teve a merecida oportunidade, foi reserva de Luís Fabiano e atuou em apenas uma partida, contra a equipe de Portugal.

Pondo fim as quatro vitoriosas temporadas na Alemanha, Grafite atuou pelo Al-Ahli, nos Emirados Árabes e, como de costume, fez história. Passou, também, 4 temporadas no clube, conquistou a liga local e fez impressionantes 72 gols em 98 partidas.

 

Grafite em ação pelo Al Ahli (Foto: Divulgação)

G23 jogando pelo Al-Ahli

(Foto: Divulgação)

 

Teve ainda uma tímida passagem pelo Al-Sadd, no Catar, onde jogou em apenas 9 oportunidades, com 1 gol na conta.

Grafite saiu de Santa Cruz mas o Santa Cruz nunca saiu dele. O jogador confessa: virou torcedor! Sempre mantendo contato e buscando informações a respeito do clube, Grafite estava sempre às voltas com Recife, cidade natal de sua esposa.

E em 2015 ele voltou. Voltou como astro, ídolo absoluto, com direito a helicóptero e calorosa recepção da torcida no estádio do Arruda. A alegria era vista a olho nu, os olhinhos brilhavam e o atacante não parava de sorrir. Era a volta para casa.

Dentro de campo não decepcionou. Foi um dos responsáveis pelo retorno do clube à elite do futebol nacional, a série A. Com um primeiro semestre perfeito, conquistou o bicampeonato pernambucano, em plena Ilha do Retiro, em cima do nosso maior rival, e a inédita Copa do Nordeste.

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A conquista da Copa do Nordeste

(Foto: Mercado do Futebol)

 

“Com certeza para mim é o maior título, porque eu imaginava voltar um dia, dar um título para o Santa Cruz, ainda mais um título que o Santa Cruz nunca conquistou, que talvez tenha sido o maior da história do clube. Eu estou muito grato a Deus pela oportunidade e queria agradecer à minha família, aos meus companheiros por esse momento que é uma das maiores alegrias da minha vida”, declarou Grafite, emocionado, logo após a conquista da Lampions League.

Mas o segundo semestre do clube foi um fiasco. O tricolor afundou em uma nova grave crise financeira, com absurdos atrasos salariais, o que obviamente se refletiu em campo. No ano seguinte ao acesso, caímos.

Nesta passagem, Graffa fez 31 gols em 71 partidas, além dos dois títulos (estadual e CNE) e o acesso.

Da Cobra Coral para o Furacão: o atacante teve uma atuação apagada e era muito criticado pela torcida, quando rescindiu seu contrato e decidiu novamente voltar para casa.

Mas o Santa Cruz ainda agonizava na mesma grave crise financeira que nos devolveu à segundona e o atacante não fez boa atuação, ninguém conseguia trabalhar naquele ambiente. Ouviam-se muitas promessas, mas nada era feito na realidade.

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(Foto: Adelson Carneiro/Pernambuco Press)

 

O clube definhou e amargamos uma nova queda. O atacante chegou a renovar para disputa da 3ª divisão, mas rescindiu no início do ano, aposentando-se do futebol, aos 38 anos, no Santa Cruz, o clube que escolheu para amar.

Está fora das quatro linhas, mas tem cadeira cativa no coração de cada torcedor que, através da sua arte, foi à loucura com cada conquista que contribuiu.

 

Sua arte o fez o imortal na história. Vida longa ao dono da camisa 23!

 

Por Mara Lima, torcedora do Santa Cruz.