O ESPORTE PROIBIDO

Se há 42 anos nascia uma das maiores atletas do futebol feminino brasileiro, Miraildes Maciel Mota, a Formiga, somente há 40 anos, em meados de 1979 caia por terra um decreto que afirmava que não era permitido a prática do esporte por mulheres.

Em 14 de abril de 1941, durante a ditadura do Estado Novo, Getúlio Vargas assinou o artigo 54 do decreto-lei 3.199, que dizia que ”às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

 

(Fonte: HuffPost Brasil)

 

O argumento utilizado na época para tal proibição é de que, o esporte feria a “natureza feminina” e que esta por sua vez estava relacionada com ser esposa e mãe. A mulher sempre foi associada ao que é belo, delicado, maternal, no entanto nenhum desses adjetivos tem muito haver com o esporte. A mulher idealizada e a atleta, jogadora caminham em direções opostas.

A proibição que durou de 1941 á 1979, impediu deliberadamente que qualquer atleta conseguisse se profissionalizar na modalidade.

O futebol era um esporte bastante popularizado, inclusive entre as mulheres, já nas décadas de 30 e 40. O decreto por si, não fez com que o esporte deixasse de ser praticado, as mulheres seguiram desafiando sua “essência feminina”. Elas se juntavam em campos de várzea e nas periferias onde o Estado dificilmente chegava para seguirem praticando o esporte.

O decreto não impediu que partidas ocorressem, não fez com que dribles e passes tenham parado de deixar adversárias para trás, que gols parassem de atravessar pelas goleiras ou que não houvesse mais um time vencedor e um perdedor.

Até por volta de 1965, o decreto não nominava exatamente quais esportes eram proibidos de serem praticados, eles somente ficavam subentendidos, no entanto depois desta data; futebol, pólo aquático, halterofilismo e beisebol foram expressamente proibidos de serem praticados por mulheres, fazendo com que muitas atletas até mesmo fossem parar na prisão por desobedecerem e insistirem na prática.

A pesquisadora da FGV, Aria Bonfim conta que “Elas eram ridicularizadas, diminuídas. Dentro dessa lógica, começaram a surgir argumentos médicos para comprovar essa ideia, inclusive dizendo que as mulheres não poderiam jogar por que poderiam levar cotoveladas no útero ou nos seios, que ficariam inférteis e não poderiam amamentar”

O decreto só foi revogado em 1979, neste período a situação política do país vinha encaminhando a ditadura militar para o seu fim, mas não houve um desenvolvimento imediato do futebol feminino. 

O decreto, fez nascer, crescer e alimentar se uma ideia que foi enraizada culturalmente e perdura até hoje, a barreira criada de que não se pode ligar o esporte a mulheres. Essas cicatrizes englobam muito mais que dentro das quatro linhas propriamente falando, estendem se as mulheres como torcedoras, como técnicas, como jornalistas esportivas e as várias diretrizes que o esporte pode desenvolver.

As cicatrizes de uma ferida cultural que segue em um processo lento de cura.

Em 2019, a Copa do Mundo de Futebol Feminino chegou a sua 8ª edição, e a mesma que foi por anos “ignorada”, parece só ter sido descoberta pelas grandes mídias, nesta temporada. A Copa da França foi revolucionária, levou Formiga a fazer sua 7ª apresentação, levou Marta a superar recordes que até então eram carregados pelo masculino.

A Copa do Mundo da França gritou, gritou ao vivo em alto e bom som sendo televisionada para o mundo todo que “o futebol feminino não é comparável ao masculino. Martas, Formigas, Cristianes, Morgans, não são tão boas quanto Cristanos, Messis, Mbappes, elas são simplesmente quem são e fazem o seu futebol, com muita categoria, qualidade, técnica. Não precisam ser equivalentes a um jogador masculino para serem boas ou excepcionais, elas já são por si só. 

(Foto: Museu do Futebol)

 

Mas o decreto ajudou a construir e promulgar um ideia, ideia essa que mesmo hoje 40 anos depois deste ter deixado de ser válido ainda é constante.

 

Boa parte da geração atual desconhece esse nome: Sissi. Em 1996, nos jogos olímpicos de Atlanta, o desempenho foi além do esperado. 

O time feminino, após vencer o Japão e empatar com a Noruega, atual campeã mundial, só precisariam empatar com a Alemanha para passar de fase. Sissi, que era a craque do time brasileiro, antecedeu Marta na camisa 10, empatou o jogo contra as alemãs e o Brasil se classificou para as semifinais. 

No entanto, a CBF não contava com a boa campanha das mulheres nas olimpíadas e teve de embarcar a seleção feminina junto com a masculina, que também havia sido eliminada na semifinal. Isso porque a CBF já tinha reservado o voo da seleção feminina para depois da fase de grupos, pois não acreditavam que elas chegariam tão longe, o descrédito no trabalho da equipe feminina fez com que a confederação tivesse que mudar seus planos. 

O fato ocorreu, pois a primeira participação da seleção feminina foi em 1988, quando os homens já eram tricampeões mundiais e tinham disputado 13 copas do mundo. 

(Fonte: Blog Dibradoras)

 

Hoje, a maior estrela do futebol feminino nos anos 90, está como técnica de um time feminino de base nos Estados Unidos. Sisleide do Amor Lima, a Sissi, terminou a carreira com pouco reconhecimento. 

Ao começar a gostar de futebol, ela conta que era impedida pelo pai e pelo irmão, mas citou sua resistência em entrevista concedida ao Globo Esporte em 2019: 

“Peguei minha boneca e arranquei a cabeça. Foi assim que comecei a dar meus primeiros pontapés. Porque futebol feminino era proibido. Foram vários sacrifícios. Mas sempre fui persistente.”

 

Sobre o cabelo curto na época, ela ainda conta que chamou a atenção porque a jogadora havia deixado implícito o motivo da mudança, sendo assim, ela foi alvo de críticas por parte do mundo do futebol, até sendo vetada de jogar num campeonato em São Paulo, por este motivo. A ex-jogadora também conta que o motivo foi homenagear uma criança de 9 anos com câncer vítima de bullying.

(Fonte: Blog Dibradoras)

 

Sissi, para quem a viu jogar foi uma das mentes geniais do futebol, porém, ela é mais do que isso, pois quebrou barreiras do preconceito e é por Sissi, Marta, Formiga, entre outras que hoje posso escrever esse texto sobre futebol. Mais do que flores (ou bonecas), necessitamos de reconhecimento.

 

Por: Jessica Salini, torcedora do Sport Club Internacional e Rannyelle Barbalho, torcedora do Sport Club do Recife.

 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Mulheres em Campo.