O GOLEIRO DE TODAS AS SÉRIES


 

 

Você, torcedor alviverde, quando te perguntam sobre os ídolos que fazem parte da história a Associação Chapecoense de Futebol, quem é a primeira pessoa que vem a sua mente? – sem contar todos os nossos eternos campeões que nos deixaram em 2016. Exatamente, José Nivaldo Martins Constante, ou melhor, Nivaldo, nosso eterno goleiro de todas as séries.

Nascido e criado no interior do município de Torres no RS, Nivaldo é o caçula de 8 irmãos (são dois irmãos mais velhos, seguidos de 5 irmãs e o atleta da família).

Como de costume o sonho da maioria dos garotos é se tornar jogador de futebol e o sonho de Nivaldo não era diferente; desde criança sempre quis ser goleiro, mesmo com um dos irmãos mais velhos sendo contra - ele bem que tentou desencorajar o irmão caçula chutando bolas fortes pra ver se ficava com medo, mas ao contrário, o garoto passou a gostar mais ainda da posição que escolheu para atuar. Na escola, ele era o melhor, sempre o escolhido para defender o time.

 

 

Nivaldo Chapecoense (Foto: Cleberson Silva/Chapecoense)

(Foto: Cleberson Silva/Chapecoense)

 

 

O tempo passou, Nivaldo cresceu e o sonho foi crescendo cada vez mais. Porém, nem tudo vem fácil, Nivaldo até tentou alguns testes nos times gaúchos de maior prestígio no Rio Grande do Sul, dupla GRENAL, mas como nunca havia feito um treinamento específico acabou ficando para trás.

Por nunca ter tido uma formação de base, a carreira profissional demorou um pouco para progredir; já tinha até pensado em desistir de ser jogador, até que surgiu a oportunidade para realizar um teste para o Araranguá Esporte Clube, um time de Santa Catarina. Nivaldo realizou o teste em uma peneira feita pelo clube e acabou agradando o treinador, foi convidado para treinar junto ao clube; assinou contrato com o Araranguá por 2 anos, de 1995 a 1997, inicialmente realizava os treinos com a equipe principal e jogava na equipe Júnior, e apenas no segundo ano que foi incorporado à equipe principal. Nivaldo teve o auxílio dos goleiros profissionais do clube, e foi ali que teve sua primeira evolução como profissional.

Após a temporada em Santa Catarina, o goleiro foi para o Grêmio Esportivo São José, time da cidade Cachoeira do Sul-RS e disputava a segunda divisão do campeonato gaúcho.

A passagem pelo clube foi rápida e em 1998 o goleiro já atuava pelo Esporte Clube Guarani, time da cidade de Venâncio Aires, também no Rio Grande do Sul.

Nivaldo passou duas temporadas no clube e teve uma breve trajetória pelo futebol nordestino. O goleiro teve passagens por clubes de Fortaleza no Ceará, Maceió em Alagoas e São Luis no Maranhão. Acabou retornando ao Rio Grande do Sul para jogar pelo Clube Esportivo Bento Gonçalves.

Já no Rio Grande do Sul novamente, Nivaldo ficou no Esportivo de 2000 a 2006, e junto com o clube conquistou a Copa FGF de 2004 e fez uma participação na Copa do Brasil de 2005. Segundo o goleiro, Bento Gonçalves, uma cidade da serra gaúcha e menor que a cidade de Chapecó, era um excelente lugar para se viver, um clima agradável, bons hábitos alimentares, uma boa convivência com o povo, porém não tão bom no futebol. Naquela época a cidade não pensava em investir no clube e não almejavam coisas maiores em relação ao futebol da cidade. Quando recebeu o convite para atuar na Chapecoense, o Esportivo já havia encerrado sua temporada no campeonato gaúcho, o que ajudou o goleiro a aceitar a proposta, apesar de os rumores sobre o novo clube não serem boas.

Nivaldo recebeu o convite para atuar pela equipe Catarinense através de um treinador que havia trabalhado com ele no Esportivo, o técnico Guilherme Macuglia. Na época a Chapecoense passava por graves crises financeiras e apesar da má fase do clube, Nivaldo planejou realizar um bom trabalho na equipe para que pudesse ser visado por clubes maiores, como no caso de Avaí, Figueirense e Criciúma; pensou na possibilidade de que a Chapecoense pudesse servir como um trampolim para sua carreira.

 

 

Nivaldo Chapecoense (Foto: Cristiano Andujar/Agif/Estadão Conteúdo)

(Foto: Cristiano Andujar/Agif/Estadão Conteúdo)

 

 

A Chapecoense era considerada um clube pequeno, time do interior, que afundada em dívidas, quase fechou as portas. No primeiro ano de atuação do goleiro na equipe catarinense, o clube conseguiu formar um bom time, e apesar de todos os contras se consagrou campeão estadual de 2007, com isso a torcida que estava desacreditada começou a apoiar a equipe novamente. Nesta época, houve uma mudança na diretoria, novas pessoas entraram, o pensamento já era outro, de investir no trabalho e treinamentos durante o ano todo e não somente para o catarinense.

O clube conseguiu pagar suas dívidas e continuou firme. Nas palavras de Nivaldo, o time seguiu tendo uma estabilidade, tendo um ano bom e razoável em termos de conquistas, e aos poucos o clube cresceu, chegou na fase dos acessos no Campeonato Brasileiro, o que acabou surpreendendo muita gente e até mesmo a diretoria, que em pouco tempo se viu em uma série B, sem ter uma estrutura para tal feito.

Não havia um local apropriado para treinar, o estádio não era tão bom. Com o acesso à série B, a diretoria almejava permanecer ali por uns 2 a 3 anos para juntar investimentos suficientes e organizar tudo que fosse necessário, para a partir daí pensar em sonhar com uma série A. Porém, quis o destino que já em seu primeiro ano de série B, a Chapecoense alcançasse a série A do Campeonato Brasileiro, conquista que nem mesmo o mais otimista e fanático torcedor alviverde poderia prever. E novamente estávamos dentro de uma competição nacional sem ter uma estrutura mínima para isso. Na época houve uma conversa entre o clube, a prefeitura e o governo do Estado, para investimentos e ampliação do estádio; temos hoje a Arena Condá, que ainda passará por algumas transformações ao longo do tempo.

Em uma conversa com o ex-goleiro da Associação Chapecoense de Futebol, Nivaldo declarou:

 

 

“Na Chapecoense aconteceu tudo tão rápido. Fazem 12 anos que estou aqui, mas se for analisar dentro do futebol o que aconteceu com o clube da Chapecoense, não sei se aconteceu com outros clubes, em tão pouco tempo, renascer das cinzas e permanecer num grupo tão difícil de futebol que é o Campeonato Brasileiro, entre os 20 maiores clubes do Brasil. E lá se vão 5 anos.”

 

 

“Eu peguei desde o início até hoje. O ponto mais alto do nosso time, foi realmente quando a gente chegou na Sul Americana pelo segundo ano consecutivo, já tínhamos um time formado, um time característico, um time mais reforçado; todo ano contratavam poucos atletas, mas o que vinham eram de qualidade, somando. Foi nosso melhor momento, quando aconteceu o acidente. O time estava no auge, disputando uma final inédita.”

 

 

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(Foto: Eduardo Guimarães)

 

 

Nivaldo é um dos poucos atletas no país que disputou todas as séries do Campeonato Brasileiro pelo mesmo clube de futebol. O goleiro participou de todos os maus momentos por qual o clube passou ao longo dos anos, mas também fez parte de sua história nos momentos bons e conquistas inéditas. O atleta que planejou uma carreira maior possivelmente em um clube rival, viu o tempo passar e as coisas darem certo, ao ponto que se passaram 12 anos e ele continua aqui, sendo peça fundamental de todas as conquistas que o clube já teve.

Nivaldo tem uma história muito rica com a Chapecoense, e por estar a tanto tempo com o clube, possui alguns números surpreendentes. O goleiro possui a marca de 298 jogos com a camisa do Verdão, e o plano era o seguinte: Nivaldo iria com a Chape para São Paulo e entraria alguns minutos na partida contra o Palmeiras para registrar a partida de número 299, a última partida do atleta seria então na Arena Condá, no último jogo do Campeonato Brasileiro, contra a equipe do Atlético-MG, onde faria sua partida de número 300 e encerraria a carreira profissional como atleta. A diretoria havia confeccionado camisetas com o número 300 na intenção de homenagear o jogador durante a partida (fato que até então Nivaldo não tinha o conhecimento); porém, quis o destino que a história fosse outra. Após uma mudança nos planos de rota da Chapecoense, Nivaldo acabou sendo cortado do vôo para São Paulo, já que a equipe iria de lá, após a partida contra o Palmeiras, para a cidade de Medellín na Colômbia, onde disputaria o primeiro jogo da final da Sul Americana. Nivaldo ficou em Chapecó e a história seguinte todos nós conhecemos.

 

 

“Várias pessoas vieram até mim, para que eu continuasse treinando pra fazer aqueles dois jogos, mas falei que não tinha condições psicológicas, naquele time eu não tinha só colegas, eu também tinha irmãos, já estávamos trabalhando há muitos anos, atletas e principalmente os diretores. [...] Eu voltar a treinar pra fazer dois jogos pra dizer que eu fiz 300 jogos pelo clube, eu não via uma razão por isso. [...] Jogar eu não vou mais, porque eu fui até onde foi possível e eu não tenho condições psicológicas pra voltar a treinar e colocar uma luva nas mãos, pra fazer dois jogos e dizer que eu fiz 300 jogos pelo clube, acho que não tem necessidade disso. Até porque nunca foi meu objetivo chegar aqui e quebrar recordes, nunca tive isso de parâmetro para minha carreira.”

 

 

Nivaldo será convidado para fazer parte da diretoria

(Foto: Marcio Cunha/Mafalda Press/Gazeta Press)

 

 

Quando chegou na Chapecoense, Nivaldo já tinha em mente a ideia de parar de jogar futebol, na época ele já estava com 32 anos e apesar de almejar voos maiores, sabia das dificuldades que poderiam vir pela frente, mas a cada ano o atleta se superava, fazia boas partidas, treinava bem. O contrato foi se estendendo, até 2016, quando o goleiro decidiu que seria a hora de parar, realizar os 300 jogos e encerrar a carreira como um dos maiores nomes na Associação Chapecoense de Futebol.

Bem, a história que conhecemos agora é outra. Nivaldo havia informado a diretoria que encerraria a carreira naquele ano, que não renovaria o contrato como atleta, mas que estava aberto a receber alguma proposta para trabalhar e ajudar o clube de outra forma. O convite para Nivaldo ficar no clube havia sido feito, porém com a fatalidade da tragédia aérea do dia 29 de novembro, o apoio de Nivaldo foi requerido com certa urgência e sem tempo para uma preparação:

 

 

“Aconteceu tudo tão rápido, que de repente eu me peguei tendo que ajudar a formar uma equipe fora do campo sem ter nenhuma experiência, mas tive ajuda de dois colegas, Maringá e Rui Costa, que deram auxílio e eu pude ajudar da minha maneira. [...] As coisas andaram e conseguimos permanecer na série A, conquistamos até o estadual com um time formado em 20 dias. [...] Novamente as coisas aconteceram muito rápido, pela lógica era escapar do rebaixamento meio apertado, não ir tão bem no Estadual, mas foi o contrário e ainda conseguimos uma pré libertadores.”

 

 

“Em campo eu tinha uma preocupação única e exclusiva do jogo e aqui do lado de fora o parâmetro é muito maior, se perder tu fica preocupado, se ganhar tu fica preocupado até se empatar tu fica preocupado, tem que procurar sempre melhorar. Acaba o expediente tu vai pra casa e não consegue largar, diferente de quando é atleta e você sai do jogo e só volta a pensar no próximo treino, na próxima partida.”

 

 

Nivaldo conta que hoje se sente mais preparado, mais confiante para trabalhar fora das quatro linhas. Durante a conversa relatou também sobre as cobranças em relação ao time, que muitas vezes é ainda maior do que com os próprios atletas em campo.

 

 

“A gente cresceu e não pode fugir da responsabilidade. A cobrança vai ser maior pra fazer com que o clube permaneça na série A.”

 

 

Durante o ano de 2017, Nivaldo exerceu o cargo de gerente de futebol na Chapecoense, cargo atual ocupado por Maringá. Mas, basicamente a função do ex goleiro da Chapecoense era chegar em cada atleta que pisava em solo verde e branco, contar a história do clube, mostrar a eles como chegamos até onde estávamos, dizer o quão importante era a presença do atleta ali, o seu papel na reconstrução do clube, dizer a cada atleta, que estavam ali para jogar pela camisa e amor ao clube e representar as pessoas que estavam naquele avião. Nivaldo teve o papel mais importante naquele ano, mostrar aos novos atletas o porquê de tudo aquilo, contar a história da Chapecoense e despertar a chama alviverde no coração de cada um que estava ali, e ninguém melhor do que o cara que fez parte de toda essa história para realizar tal missão, que fora cumprida com sucesso.

 

 

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(Foto: arquivo pessoal)

 

 

Atualmente Nivaldo atua como Coordenador da base com o profissional, é ele quem faz o caminho entre os garotos da categoria de base e a equipe principal da Chapecoense, já que nas últimas temporadas a base do time parecia estar um tanto distante do profissional, e portanto precisava de uma reaproximação.

Sobre o tempo e a permanência na Chapecoense, Nivaldo relata:

 

 

“Uma vez um repórter me questionou e eu já estava a uns seis anos na Chapecoense, estávamos disputando a série C, e eu já tava pra parar; olha se eu parar de jogar, se eu sair da Chapecoense e deixar na série B, eu já fico muito feliz. Eu não só deixei na B, como deixei na A e ainda joguei 3 anos. [...] Novamente aconteceu tudo tão rápido, lógico que não foi só por causa de mim, mas eu ajudei, eu participei de todos os acessos, tive em todos os momentos, do melhores aos piores.”

 

 

Nivaldo foi atleta profissional por 22 anos, sendo 10 deles pela Chapecoense:

 

 

“O time do meu coração é a Chape, pelo fato de tudo que aconteceu aqui, pelo fato de tudo que vivi, pelo fato do clube abrir as portas pra mim, mesmo sendo um clube que estava a beira da falência.  [...] Se algum dia eu sair daqui vou continuar torcendo pra Chapecoense, posso contar pra todos que ajudei a construir essa equipe.”

 

 

O ex atleta e goleiro da Chapecoense possui uma história de longa data com o clube, não há como o torcedor falar da história do time sem lembrar e comentar sobre o nosso goleiro de todas as séries. Atualmente Nivaldo ocupa um cargo administrativo no clube e como futebol também é imprevisível, não quis arriscar dizer por quanto tempo mais poderá permanecer. Mas de uma coisa tem certeza, adotou Chapecó como sua cidade e sua agora primeira casa, já que passou e passa mais tempo aqui do que com o restante de sua família.

 

 

 


 

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(Foto: arquivo pessoal)

 

 

Tudo o que aconteceu com a Chapecoense marcou bastante a trajetória de Nivaldo, assim como o goleiro marcou bastante a história do time. Nivaldo diz sentir orgulho em falar da Chapecoense e contar sobre seus feitos e agradece por todos os momentos bons e oportunidades que o clube lhe deu, porém mais do que isso, é o torcedor alviverde quem agradece. Agradece a esse atleta por todo tempo, empenho e dedicação que tem desempenhado para defender as cores de nossa camisa, por todo amor e carinho que sente pela Chapecoense e por ter nos dado tanto orgulho durante todos esses anos. Por esses motivos, Nivaldo sempre será um de nossos ídolos eternos.

 



 

Somos mais que 11... Somos #CHAPE

Ana Carolina Teixeira