O LÍDER NO DIVÃ

Ansiedade, nervosismo e afobação atrapalharam o bom futebol e o Palmeiras empatou em casa, deixando escapar a chance de se isolar na liderança.

 

Ansiedade. Essa é a palavra que descreve o Palmeiras que jogou ontem (14). A partida válida pela vigésima rodada do Nacional era esperada pelos jogadores, torcedores, Deus e todo mundo. Durante toda a semana só se falou disso. E o clima de "jogo decisivo", pilhado pela mídia, invadiu as ruas. Parecia um dia de final de campeonato.

A torcida do Verdão, protagonizou cenas emocionantes e como sempre impressionou, transformando os arredores do Allianz Parque, num verdadeiro formigueiro alviverde. Iluminadores, fogos, batucadas e gritos de apoio, eram ouvidos por todo o bairro.

O "corredor verde", que ficou famoso na final da Copa do Brasil, recepcionou o ônibus dos jogadores na chegada ao estádio. Uma festa de encher os olhos!

Dentro do estádio não foi diferente. Os torcedores quase fizeram a casa cair, cantando e pulando sem parar. Tudo lindo. Tudo perfeito. Mas o que se viu em campo, deixou a desejar.

O time de Cuca, já começou sufocado pelo adversário, que marcava muito, propondo o jogo. No primeiro minuto, já saiu para o ataque, criando uma ótima chance de gol. O Flamengo não deixava o Palmeiras respirar.

Aos os poucos o time começou a ganhar espaço e tentar o toque de bola, mas o primeiro lance de perigo, só aconteceu aos vinte e um minutos, quando o menino Jesus deu o primeiro chute a gol de fora da área.

A defesa do time carioca estava muito bem posicionada e isso impedia a criação de jogadas ofensivas. Aos vinte e oito minutos, o Verdão saiu em contra-ataque rápido pela lateral, Moisés bateu, resvalou em Mina e Zé Roberto chutou, mas a bola saiu em linha de fundo.

O jogo passou a ficar truncado e fragmentado pelo excesso de paralisações para a marcação de faltas. Um típico jogo "pegado", feio, onde a bola não rola e sobram pés, mãos e catimba.

O ex-palmeirense Márcio Araújo, que perseguiu Jesus com faltas duras, já tinha tomado um cartão amarelo, quando fez outra entrada perigosa no camisa trinta e três e acabou sendo expulso. Com um a mais, o Palmeiras tentou esboçar uma saída mais rápida, mas os cariocas continuavam pressionando muito e muito bem posicionados.

No final do primeiro tempo, a torcida palmeirense quase foi à loucura, quando o juiz não marcou, o que para todo mundo era um pênalti, em Roger Guedes. O colombiano Cuella esqueceu a bola e chegou atropelando o garoto prodígio dentro da área. Só o juizão não viu.

A quantidade de passes errados e baixo rendimento criativo era claramente fruto da ansiedade dos jogadores em resolver a partida. A esperança, que a torcida alimentou no intervalo, era que Cuca pudesse corrigir os erros tão gritantes da etapa inicial.

E de fato o comandante começou com uma substituição que visava dar um caráter mais ofensivo ao time, Barrios entrou no lugar de Gabriel Girotto e desta forma Dudu seria deslocado para o meio para fazer o que todo mundo gosta de vê-lo fazer: servir aquelas bolas deliciosas com cheiro de gol.

Funcionou. O time passou a mandar na partida e conseguia chegar com mais fluidez à área adversária.

Aos sete minutos, Dudu fez um passe perfeito para Gabriel Jesus na entrada da área, ele girou e bateu forte para o gol de Muralha, mas o goleiro rubro negro fez boa defesa. Aos onze minutos, Tchê Tchê saiu com a bola dominada e comandou o ataque abrindo para Dudu e dele, para Jesus. O menino iluminado se enfiou pelo meio e bateu cruzado, mas a bola subiu muito.

A segunda substituição ficou por conta de Cleiton Xavier no lugar de Roger Guedes. Mudança significativa. O Palmeiras passou a pressionar os adversários, botando fogo no jogo. Agora era só caprichar na finalização e encaixar a bola no funda da rede.

Mas todo mundo conhece a máxima “futebol é uma caixinha de surpresas”, certo? O que ninguém lembra, é que surpresa pode ser boa ou ruim.

E ninguém pareceu notar que Alan Patrick, que acabava de entrar no lugar de Gabriel, estava totalmente livre de marcação na lateral direita. Ao receber um lançamento da esquerda, ele ficou cara a cara com Jailson. E Zé Roberto, mal posicionado, não conseguiu impedir o chute batido de forma consciente. A bola ainda bateu na parte de cima da trave e entrou no gol.

Gol de ex. É... Não é à toa que se diz: se fosse bom, não era ex. O Flamengo abriu o placar.

O Palmeiras que estava crescendo no jogo e mostrava poder ofensivo, deu lugar a um time dominado pela ansiedade. E a ansiedade é inimiga da criatividade. O time ficou tão bloqueado, que não conseguia fazer uma jogada efetiva.

 

Foto: yahoo

Aos vinte e um, quase toma o segundo, de novo Alan Patrick. Ele aproveita num erro primário de Tchê Tchê e bate para susto da torcida alviverde.

Àquelas alturas, o professor não tinha nada a perder e foi para as cabeças, para tentar pelo menos faturar um pontinho. Na última substituição, Rafael Marques substituiu Tchê Tchê.

Aos trinta e seis minutos, as preces da torcida angustiada, foram atendidas por Jesus. E das mãos do seu profeta veio o gol da salvação. O camisa vinte e oito, batedor oficial da lateral, lançou a bola na área para a cabeça do grande Mina. Ele desvia, a zaga flamenguista afasta, mas a redonda sempre busca os craques. Ela encontrou Jesus na entrada da área, que chuta forte e rasteiro. A bola ainda faz suspense e bate na trave. Mas entra e estoura rede e liberta o grito do gol preso na garganta.

Depois de marcar, como esperado, o Verdão cresceu e fez um final de jogo bom, pressionando para tentar o gol da virada. Mas o empate estava selado.

Empate indigesto. Ninguém satisfeito. Um resultado que nos dá apenas um mísero ponto, mas que parece ter escancarado a necessidade de preparo emocional.

O time de Cuca ainda terá desafios muito duros pela frente e precisa, além de técnica e tática, aperfeiçoar a capacidade de lidar com o seu maior adversário: ele mesmo!

Para deitar e rolar em campo, o líder vai precisar deitar no divã e procurar o equilíbrio para a reta final!

 

por Alê Moitas