O mais Fiel dos Cariocas, o mais brasileiro dos Ronaldos

Definição de Fenômeno de acordo com o dicionário: 1 Qualquer manifestação ou aparição material ou espiritual. 2 Tudo o que pode ser percebido pelos sentidos ou pela consciência. 3 Fato de natureza moral ou social regido por leis especiais. 4 Tudo o que é raro e surpreendente. 5 Maravilha. 6 Pessoa que se distingue por algum dote extraordinário.

A base

Vindo de origem humilde como a maioria dos jogadores brasileiros, nascia em 22 de setembro de 1976, no bairro de Bento Ribeiro, mais um carioca. Caçula dos três filhos de seu Nélio e dona Sônia, desde criança foi muito apaixonado por futebol. Durante a pré-adolescencia e inicio da adolescência, Ronaldo Luis Nazario de Lima jogava futsal nas quadras de pequenos clubes da cidade, entre eles o Clube Social Ramos. 

Muito admirado pelo jogo rápido e o controle de bola, logo mudou do futsal para o futebol de campo, tendo sua primeira oportunidade nas categorias de base do São Cristóvão. Durante o tempo em que passou no pequeno clube do Rio de Janeiro, Ronaldo tentou treinar no Flamengo, mas por não ter dinheiro para se locomover até o centro de treinamento da base, não pôde iniciar sua trajetória no clube.

 

Foto:stadionblog.blogspot.com

Já agenciado por grandes empresários, outros dois grandes clubes perderam a chance de ter o jogador em seu elenco por desacertos contratuais: Botafogo e São Paulo.

Não demorou muito para que a habilidade do menino fosse, finalmente, ser mostrada em um dos grandes do Brasil: Jairzinho, ex-jogador do Botafogo e da Seleção Brasileira, pagou cerca de dez mil dólares ao São Cristóvão e revendeu o jovem ao Cruzeiro.

 

As estrelas e o primeiro passo

Vendido ao Cruzeiro por Jairzinho, Ronaldo fez sua estreia como profissional aos 16 anos. Tratado como estrela, mesmo sendo estreante em um time profissional, foi o primeiro atleta amador da história da Raposa a vivenciar a rotina de um jogador profissional.

Foto: Reprodução Internet

Na disputa de seu primeiro Campeonato Brasileiro, o jovem foi destaque: Marcou 12 gols em 14 partidas e se tornou o terceiro artilheiro da competição naquele ano. Um de seus principais jogos foi a goleada por 6x1 sobre o Bahia, quando marcou impressionantes 5 gols.

Os feitos do menino não pararam por aí. Ainda em 1993, foi artilheiro da Supercopa Libertadores, marcando 8 gols e teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira sub-17. O próximo desafio foi a Recopa Sulamericana, contra o São Paulo. Como nem tudo são flores, Ronaldo teve seu primeiro desprazer da carreira: Em uma decisão por pênaltis, Zetti defendeu a cobrança do então cruzeirense e deu o titulo ao clube tricolor.

Em 1994, dando sequencia à boa fase, sagrou-se artilheiro do campeonato mineiro com 22 gols e logo chamou a atenção de clubes europeus. Nessas alturas, o passe de Ronaldo já valia cerca de 10 milhões de dólares, cem vezes mais do que o valor pelo qual foi comprado do São Cristóvão pouco tempo antes.

Destaque também na Seleção de Base, teve o primeiro grande momento de sua carreira: Em seus últimos momentos no Cruzeiro, Ronaldo foi convocado para disputar a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.

Apesar da convocação, pareceu não agradar muito o técnico Parreira nos treinamentos e, apesar dos pedidos encarecidos da torcida para ver o garoto de 17 anos em ação, acabou não sendo utilizado em nenhuma partida. Sagrou-se campeão daquele ano sem jogar nem um misero minuto.

 

A Europa

Pouco antes da Copa do Mundo de 1994, Ronaldo foi negociado por cerca de 6 milhões de dólares com o PSV Eindhoven, dos Países Baixos. Terminou seu ciclo no Cruzeiro com a incrível marca de 44 gols em 46 partidas.

Mesmo em outro continente, o destino não poderia ser outro: Artilharia. Marcou 54 gols em 57 partidas e foi artilheiro do campeonato Neerlandes com 30 gols, mesmo com uma enorme dificuldade de adaptação ao ambiente e ao idioma.

Foto:design.com.br

No ano de 1995, o jogador teve sua primeira experiência com as lesões: Passou por sua primeira cirurgia no joelho direito, após uma ressonância constatar algumas inflamações.

Sendo pouco utilizado pelo treinador Dick Advocaat após sua recuperação, Ronaldo se irritou com a situação e na metade do ano de 1996, se transferiu para o Barcelona por cerca de 20 milhões de dólares.

 

Em dez meses de Barcelona, foram 34 gols em 37 jogos e títulos como a Copa do Rei, a Supercopa da Espanha e a Recopa da Europa.

Os gols, os títulos e a incrível habilidade agora admirada também pelos Europeus trouxeram ao jovem o sonho de qualquer garoto: “Ronaldinho” (apelido herdado quando criança por conta do físico magro) foi eleito Melhor do Mundo do ano de 1996.

 

Admirado pelas conquistas de Ronaldo no PSV e no Barcelona, Massimo Moratti, presidente da Inter de Milão, sonhava em ter o brasileiro em seu elenco. Sem medir esforços, pagou ao Barcelona os cerca de 48 milhões de liras da multa rescisória e recebeu com festa o atacante em seu time.

A primeira temporada de Ronaldo na Inter foi extraordinária. Entre agosto e dezembro foram 14 gols em 19 jogos, marca que lhe rendeu, pelo segundo ano consecutivo o prêmio de Melhor Jogador do Mundo.

Foto:camisasnove.blogspot.com/2012_09_01_archive.html

Extasiados pelo talento do brasileiro, os torcedores italianos não acreditavam como um atacante fazia grandes zagueiros sumirem em campo. Foi então que surgiu o apelido que o consagrou: “Ronaldo Fenômeno”.

A temporada seguiu com mais shows de Ronaldo. Foram 25 gols em 32 jogos, sendo vice-artilheiro do campeonato italiano, perdendo por dois gols para o alemão Bierhoff. Sem ganhar um título desde 1994, a chegada de Ronaldo trouxe à Inter o terceiro título da Copa UEFA em 1998.

Foto:generalseveriano.wordpress.com

Após a brilhante temporada, Ronaldo voltaria a sofrer mais uma vez com problemas clínicos: O primeiro episódio foram as famosas convulsões na Copa da França, ainda em 1998 e em seguida duas graves lesões no joelho.

A temporada 1999/2000 foi ainda pior para o craque, que entrou em campo apenas 8 vezes. Foram diversas lesões, cada vez mais complicadas, que só desesperavam mais o jogador e os torcedores. A pior delas, com recuperação prevista para ser de oito meses, acabou tomando quinze meses do tempo de Ronaldo que passou a ser vítima de diversas duvidas por parte da imprensa. Será que o jogador teria condições de voltar a atuar em alto nível?

Ronaldo retornaria aos gramados no final de 2001, sendo utilizado esporadicamente. Foram 16 partidas na temporada e, ao final do campeonato, o Fenômeno voltou a ser decisivo: Seus 7 gols em 10 jogos fizeram a Inter disputar ponto a ponto o scudetto de 2002 com Juventus e Roma.

Após não conquistar o scudetto e alguns problemas com o técnico da Inter, Ronaldo chegou a se oferecer para sua ex-equipe, Barcelona, mas o clube passava por uma crise financeira e não poderia pagar a multa para te-lo de volta. Foi então que, em 31 de agosto de 2002, por 39 milhões de Euros, Ronaldo acertou com o maior rival do Barça: O Real Madrid.

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Sua estreia no clube Merengue foi contra o Alavés em uma vitória por 4x2, marcando dois gols. Apesar de muito criticado e até vaiado pela torcida do Real Madrid pela frequência mediana de gols e por ser muito substituído durante as partidas, Ronaldo foi eleito pela terceira vez Melhor do Mundo no ano de 2002.Naquele ano, Ronaldo vencia seu primeiro campeonato espanhol.

Nos anos seguintes, o time espanhol deu uma esfriada. Passou por um jejum de títulos e Ronaldo voltou a ser criticado, dessa vez por um certo ganho de peso.

A volta de Ronaldo à Milão se deu em janeiro 2007, por 7,5 milhões de Euros, mas para um rival da Inter: O Milan. Acostumado com a camisa número 9,  que no Milan já pertencia a Filippo Inzaghi, acabou recebendo a de numero 99.

Impedido de jogar a Champions League naquela temporada por já ter atuado pelo Real Madrid, acabou assistindo das tribunas o Milan vencer o torneio.

No mesmo ano, graças à ótima estrutura médica do clube Rossonero, descobriu o motivo pelo qual havia ganhado peso nos últimos anos: Uma doença chamada hipotireoidismo. Em tratamento, iniciou a temporada 2007/2008 cerca de cinco quilos mais magro, formando então um trio com mais dois compatriotas: Kaká e Alexandre Pato, chamado de Ka-Pa-Ro.

A boa temporada em Milão acabou em 13 de fevereiro de 2008 em uma partida contra o Livorno. O Fênomeno acabou se lesionando em um de seus primeiros toques na bola após substituir Gilardino. A temporada acabou com o craque parado e desligado do Milan, que preferiu não renovar seu contrato.

A principal camisa: A Amarelinha

A brilhante trajetória de Ronaldo Fenômeno com a camisa da Seleção Brasileira teve início em 1993: Após ser artilheiro da sub-17 no sul-americano, foi uma aposta de Carlos Alberto Parreira para a Copa do Mundo 1994. Antes do Mundial, Ronaldo marcou seu primeiro gol com a camisa verde e amarela contra a Islândia, em um amistoso. 

Ainda com 17 anos, apenas assistiu a competição do banco de reservas. Um ano após a conquista do tetracampeonato mundial, o jogador esteve na Copa América. Em 1996, Ronaldo finalmente ganhou uma oportunidade na Copa América e voltou campeão. Na Copa das Confederações de 1997, ele participou do primeiro título brasileiro na competição.

A Copa do Mundo de 1998 tinha tudo para ser carimbada com o nome de Ronaldinho. Já com o título de melhor do mundo em duas oportunidades, o atacante era a principal estrela do time brasileiro. Ele marcou cinco gols na competição e sofreu uma convulsão horas antes da final com a França. Mesmo após o mau súbito, o jogador atuou como titular na finalíssima e teve uma atuação quase impercepitível - se não fosse por um choque com o goleiro Barthéz, ninguém teria notado sua presença em campo - e o Brasil perdeu o título mundial. 

Após ficar um bom período afastado da seleção devido às lesões, Ronaldinho foi convocado para a Copa do Mundo 2002, pelo treinador Luis Felipe Scolari. No retorno com a camisa verde e amarela, ele marcou em um amistoso contra a Malásia. Com um desempenho digno do apelido Fenômeno, o atacante marcou oito vezes - sendo duas na final contra a Alemanha - e foi o principal nome da conquista do pentacampeonato.

Foto: bleacherreport.com

Após a conquista no Japão e na Coréia, Ronaldo passou a ser nome certo nas convocações da Seleção Brasileira. Ao lado de Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano, ele compunha o 'Quadrado Mágico' do Mundial 2006. Mas após mostrar um futebol irreconhecível e uma forma física longe da ideal, o Brasil acabou eliminado precocemente da competição.

Mesmo assim, o Fenômeno marcou três vezes e se tornou o maior artilheiro de Copas do Mundo, com 15 gols. Com a eliminação, Ronaldo se despediu da Seleção Brasileira. 

 

O impossível tornou-se possível: Ronaldo e a Fiel

 

Tratada por muitos como impossível, foi no dia 9 de dezembro de 2008 que a Fiel torcida teve uma de suas maiores alegrias: Ronaldo Fenômeno voltava ao Brasil após 14 anos para jogar no Timão.

Foto:rodrigol12.blogspot.com/2011_02_01_archive.html

Os dois primeiros meses no clube foram de trabalhos físicos para recuperar o jogador. Aos poucos, foi recuperando sua forma física e enchendo os corações alvinegros de esperança. Desacreditado por muitos, Ronaldo fez sua reestreia no futebol brasileiro em uma partida contra o Itumbiara pela Copa do Brasil em 4 de março de 2009, jogando vinte e sete minutos do segundo tempo da partida.

O primeiro gol do Fenômeno para a nação alvinegra não poderia ser melhor: Aconteceu na partida seguinte em um clássico contra o Palmeiras, aos 47 minutos do segundo tempo em uma cabeçada para o gol após cobrança de escanteio vinda dos pés de Douglas e protagonizou uma das cenas mais marcantes de sua carreira: O Alambrado.

Foto:audiocorinthiansdesativado.blogspot.com

Ronaldo foi essencial para o Corinthians naquela temporada, pois deu ao time (rebaixado para a série B dois anos antes) uma confiança que havia sido perdida. Além disso, permitiu ao clube uma visibilidade maior no futebol internacional.

Com a camisa alvinegra, venceu dois dos principais títulos que disputou: O campeonato Paulista e a Copa do Brasil do ano de 2009. Mesmo acima do peso e com todos os problemas, fez uma média de 23 gols em 38 jogos.

Foto:noticias.bol.uol.com.br

Nessas alturas do campeonato, Ronaldo já tinha conquistado e estava nos braços do principal elemento Corinthiano: A Fiel.

O ano de 2010 não foi tão bom para o craque. Entrando poucas vezes em campo por conta de seguidas lesões, Ronaldo viu do banco de reservas o ano do centenário alvinegro ir por àgua abaixo após uma trágica eliminação para o Flamengo na taça Libertadores. Foram 12 gols em 27 partidas.

 

A hora de virar lenda

Após mais uma trágica eliminação do Corinthians na taça Libertadores e um 2010 repleto de problemas físicos, Ronaldo decidiu que era a hora de parar. O dia escolhido para o anuncio foi 14 de fevereiro de 2011, em uma coletiva de imprensa no CT corinthiano.

O verdadeiro fim chegou alguns meses depois, dia 6 de junho do mesmo ano. Em um amistoso da Seleção Brasileira contra o time da Romênia, Ronaldo teve a oportunidade de vestir a camisa a qual o consagrou pela ultima vez no campo onde viveu seus últimos momentos como profissional: O Pacaembu. Em um jogo emocionante, mas sem gols do anfitrião, o Eterno Fenômeno mobilizou torcedores de todos os times e após a partida deu sua ultima e emocionada entrevista como jogador profissional:

“- Gente, vocês são demais. Desculpem, eu tive três chances e não consegui fazer um gol nos meus últimos quinze minutos, o que seria uma pequena retribuição a tudo que vocês fizeram por mim. Meu muito obrigado por tudo que vocês fizeram pela minha carreira, por me aceitarem do jeito que sou, por terem chorado quando chorei, por terem sorrido quando sorri. Só tenho a agradecer do fundo do meu coração. Muito obrigado e até breve, dessa vez fora dos campos “

 

Um ídolo eterno

Ter visto Ronaldo jogando é quase como já ter encontrado na vida um trevo de quatro folhas. Nunca haverá outro no mundo. Ronaldo foi único assim como seu legado. As próximas gerações conhecerão e saberão quem foi o homem que fazia qualquer zagueiro parecer ridículo, mas jamais sentirão a emoção de sentar em frente a uma televisão para ver um jogo da Seleção Brasileira e sentir os pelos do corpo arrepiarem ao ouvir Galvão Bueno gritar: “RRRRRRRRONALDOOOO” a cada gol.

Aos novos Corinthianos, então, meus eternos pesares, pois esses jamais saberão como foi sentir o peito explodir após vê-lo, já desacreditado, fazer um gol de cabeça no maior rival e subir no alambrado para se entregar aos braços da Fiel.

Em seu ultimo discurso como jogador, o Fenômeno se despediu agradecendo ao torcedor brasileiro por cada emoção vivida junto dele. Tremenda injustiça. Nós é que o agradecemos por cada aula de bom futebol. Foi um prazer para o amante do futebol poder comemorar cada conquista, chorar cada lágrima por lesão e vibrar em cada volta por cima. Ronaldo, acima de tudo, foi símbolo de superação. Se o apelido de Fenômeno não o caísse tão bem, poderia até ser trocado pelo nome de um símbolo mitológico: Fênix.

Se a Fiel e todos os torcedores brasileiros pudessem escolher uma frase para homenagea-lo, com certeza pediria licença ao hino Corinthiano para parafrasea-lo e dedicar uma das melhores frases: Assim como seu legado, sua história e seu futebol, o Fenômeno estará “Eternamente dentro de nossos corações”

por Victória Monteiro