O Menino da Vila que virou Rei: Vossa Majestade pede passagem!

"A maioria dos torcedores de hoje não viram Pelé jogar, mas, de alguma forma, sentem que ele faz parte de suas vidas. Ele conseguiu fazer a transição de superestrela para figura mítica por toda a eternidade." (Henry Kissinger)

Em 23 de outubro de 1940, na cidade de Três Corações-MG, nascia Edson Arantes do Nascimento, filho de dona Celeste e de João, um simples jogador de futebol de Minas Gerais que não imaginava que seu filho seguiria seus passos, e além disso, se tornaria referência mundial no esporte.

Edson, mais conhecido como “Pelé”, ganhou este apelido aos 3 anos de idade, quando frequentava jogos do time do seu pai e comemorava as defesas do goleiro da equipe dizendo: “Defende, Bilé!”. Algumas pessoas próximas ao menino passaram a chamá-lo de “Bilé” em homenagem ao goleiro. Mas, as crianças entendiam que o apelido era “Pelé” e o chamavam desta forma. Então, o apelido ficou marcado.

Se mudou ainda quando criança para Bauru com seus pais e desde cedo, o menino já apresentava talento com a bola nos pés, parecia que já estava predestinado para o esporte. Em 1951, aos 11 anos, o garoto foi descoberto por Waldemar de Brito e levado para jogar no Bauru Atlético Clube, onde deu seus primeiros passos como jogador de futebol, conquistando títulos em duas oportunidades consecutivas (1954-1955).

O mesmo Waldemar de Brito que o levou para o Bauru, trouxe-o para fazer testes no Santos Futebol Clube. Mal sabia Pelé que sua vida a partir daquele momento mudaria para sempre.

(Divulgação/ASSECOM Santos Futebol Clube)

“Gasolina”, como era chamado logo quando chegou no Santos, aos 15 anos já assinava seu contrato com a equipe praiana, iniciando no juvenil, mas rapidamente ganhando espaço no time principal. Estreiando no dia 7 de setembro de 1956, em um jogo amistoso contra o Corinthians de Santo André, marcou seu primeiro gols dos mais de mil que fez com a camisa alvinegra.

Era apenas o início de uma trajetória gloriosa do Menino da Vila que virou rei.

O INÍCIO DO REINADO

No ano seguinte, 1957, de fato se deu início a "era Pelé". Titular absoluto na equipe santista, o atacante começou a chamar a atenção ao se tornar artilheiro do estadual daquele ano, algo que se repetiu por mais ONZE vezes, sendo 9 delas consecutivas. O que fez com que o jogador fosse convocado para a Seleção da época que era comandada por Pirilo.

Sua estreia na seleção foi no dia 7 de julho em uma partida contra a Argentina, no Maracanã, palco de momentos muito importantes na carreira do atleta. Naquela partida, apesar da derrota para os "Hermanos" por 2x1, Pelé marcou seu primeiro gol com a camisa amarelinha.

Na Copa da Suécia em 1958, Pelé foi convocado para defender a Seleção junto com seus companheiros de time, Zito e Pepe. Aos 17 anos, o atacante santista já fazia história por ser o jogador mais jovem a disputar e vencer uma Copa do Mundo.

Por suas jogadas incríveis, a maneira de driblar facilmente, ter um raciocínio rápido para fazer as jogadas, fazer gols incríveis, conseguir perder gols lindos e possuir um equilíbrio gigante que nenhum adversário conseguia deixá-lo no chão, Pelé, a partir de então, foi passado a ser chamando pela imprensa de "Rei do Futebol". Afinal, o que ele fazia com a bola nos pés era algo absurdo!

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(Foto: Futeboteco)

"Uma história marcante..."

Continuando com os feitos incríveis, além de conquistar a Copa daquele ano, Pelé foi campeão estadual, após no ano anterior ter sido vice. E novamente foi artilheiro, mas, dessa vez, o atacante fez 58 gols. Um recorde que até hoje não foi batido.

Em 1959, a Europa se rendeu ao futebol alvinegro e o time santista fez sua primeira excursão para terras européias, onde naquela oportunidade, voltou com duas taças na mala e Pelé ia fazendo o seu nome na história do futebol mundial.

Neste mesmo ano, Pelé marcou o considerado por muitos "o gol mais bonito de sua carreira". Marcado na partida contra o Juventus, na rua Javari. O último gol da vitória santista por 4 a 0 aconteceu na jogada na qual Coutinho passou a bola para Pelé, que driblou o zagueiro, chapelou TRÊS jogadores juventinos e cabeceando a bola para o fundo das redes antes que ela tocasse no chão. Um gol digno de placa!

Aliás, a expressão "gol de placa" é muito utilizada no futebol, mas será que todos sabem que ela passou a existir após um gol de Pelé? E este gol, foi marcado no Maracanã, na partida entre Fluminense e Santos em 1961. Para deixar o gol eternamente marcado, Pelé ganhou uma placa em homenagem ao seu feito.

"Até a bola do jogo pedia autógrafo a Pelé." (Armando Nogueira)

Os anos 60, sem dúvidas foi a década mais importante na história do time santista e, consequentemente, da carreira de Pelé. O time santista liderado pelo Rei, enchia os olhos de qualquer um que acompanhasse futebol, bem-aventurados sejam os que puderam ter a honra de acompanhar este período e dizer "Eu vi Pelé jogar!". Todos os feitos adquiridos neste período fez com que décadas depois, a FIFA considerasse o Santos como o "melhor do século nas Américas" e Pelé como "o atleta do século".

Uma enxurrada de títulos nacionais e internacionais foram conquistados ao longo desta década pelo Santos do camisa 10. Entre eles, 2 mundiais e 2 Libertadores da América, além de mais um título mundial pela Seleção Brasileira. Na Copa de 62, Pelé se machucou, mas contribuiu para a conquista da segunda taça mundial brasileira.

No final da década de 60, dois fatos históricos aconteceram: o dia que o Santos parou uma guerra e o milésimo gol de Pelé.

Parar uma guerra? Algo que aparentemente parece ser impossível atualmente, mas aquele time do Santos Futebol Clube foi capaz disso. Em fevereiro de 1969, durante viagem a Nigéria, uma guerra civil que já durava 2 anos entre nigerianos e separatistas do leste africano foi interrompida durante a passagem da delegação santista no local. Decretaram feriado durante aquela tarde, e a ponte que ficava interditada foi aberta para que qualquer pessoa pudesse ter a oportunidade de acompanhar as partidas. Algo que nenhum outro time no mundo foi capaz de fazer.

"...Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, mil gols! Só Pelé! Só Pelé, que jogou no meu Santos!"

Já o milésimo gol, foi marcado no dia 19 de novembro de 1969, em uma cobrança de pênalti, no Maracanã com mais de 65 mil pessoas, em partida válida pela Taça Prata entre Santos e Vasco.

 

 

(Foto: Agência Estado)

"Foi um momento muito especial. Quando olhei para trás, na hora de bater o pênalti, vi todos os jogadores do Santos abraçados no meio-campo. Putz, pensei... Se eu errar não vai ter ninguém para pegar o rebote... O Maracanã todo gritava 'Pelé, Pelé'... Minhas pernas tremeram. Eu não podia perder aquele gol...". - disse Pelé em entrevista ao Estação, relembrando o momento.

E Pelé não perdeu! O milésimo gol não era apenas esperado por ele, mas por toda a mídia nacional, internacional e todos aqueles que acompanhavam o atleta. O gol foi comemorado como um título, com direito até a volta olímpica. Na mensagem do milésimo gol, Pelé disse: "Pensem no Natal, pensem nas criancinhas."

Precoce desde o início da carreira, aos 29 anos, ele era o jogador com mais gols na história do futebol.

"Marcar mil gols como Pelé é fácil, marcar um gol como Pelé é muito difícil." (Carlos Drummond de Andrade)

A década de ouro chegou ao fim, mas, os anos 70 também reservaram momentos marcantes na carreira do atacante, com destaque para a conquista da sua terceira Copa do Mundo, na qual a presença do atleta foi essencial e marcou definitivamente seu nome na história, para quem ainda tinha alguma dúvida de que era o melhor se todos.

Além da conquista da Copa do México, a década de 70 marcou a despedida de Pelé do futebol. Em 1974, contra a Ponte Preta, o camisa 10 santista fez sua última partida oficial pelo Santos. No ano seguinte, fechou contrato com o New York Cosmos, onde permaneceu por dois anos e por fim, em 1977, em amistoso entre o Cosmos e o Santos FC, time que o projetou, encerrou sua carreira jogando em cada tempo por um time.

(Foto: Futblogdosamigos)

Ao todo, Pelé marcou 1281 gols em 1363 partidas, números que tornaram o camisa 10 o maior jogador da história do futebol. Aliás, desde a aposentadoria do Rei, a camisa 10 do Santos passou a ser símbolo de respeito e referência para todos aqueles que tem a oportunidade de vestir a camisa com o número no qual Pelé honrou por tantos anos.

Em tempos no qual o futebol atualmente é sinônimo de "negócio", ver que Pelé passou praticamente toda a sua carreira em apenas uma equipe para muitos seria uma loucura. Mas, Pelé amava e era grato ao clube que defendia. Pelé era diferenciado, não fazia corpo mole, jogava por amor e fazia o que era possível para honrar a camisa do seu clube. Pelé nasceu com um dom, brilhou e mostrou que era possível sim fazer arte com os pés. 

Aliás, "impossível" era uma palavra que não existia no dicionário do camisa 10. Suas jogadas e gols espetaculares eram coisas que "até Deus duvidava".

39 anos depois de sua aposentadoria, Pelé continua sendo influente no futebol e ninguém foi capaz de superar parte dos seus feitos ou fazer gols tão bonitos. Muitos, assim como eu, não tiveram a oportunidade de vê-lo em campo, mas a gratidão por tudo o que Pelé fez, não apenas pelo Santos, mas pelo futebol mundial é enorme! Uma honra e “um orgulho que nem todos podem ter.”

Para a história não se perder no tempo, na cidade de Santos foi criado um museu em homenagem ao jogador. O “Museu Pelé” abriga um acervo vasto de objetos marcantes na carreira do atleta e que fazem os torcedores que não tiveram a oportunidade de viver naquele tempo terem noção da importância da carreira do atleta.

"Se Pelé não tivesse nascido homem, teria nascido bola" (Armando Nogueira)

Enquanto existir amantes do verdadeiro futebol arte no mundo, a história de Pelé sempre será lembrada.

Carolina Ribeiro. 

 

Títulos de Pelé pelo Santos:
1958 – Campeonato Paulista
1959 – Torneio Rio-São Paulo, Troféu Teresa Herrera, Torneio de Valência, Torneio Pentagonal do México e Torneio Mario Echandi
1960 – Campeonato Paulista, Torneio de Paris e Troféu Giallorosso
1961 – Taça Brasil, Campeonato Paulista, Torneio Itália, Torneio de Paris, Triangular da Costa Rica e Pentagonal de Guadalajara
1962 – Taça Libertadores da América, Mundial Interclubes, Taça Brasil e Campeonato Paulista
1963 – Taça Libertadores da América, Mundial Interclubes, Taça Brasil e Torneio Rio-São Paulo
1964 – Campeonato Paulista, Taça Brasil e Torneio Rio-São Paulo
1965 – Campeonato Paulista, Taça Brasil, Quadrangular de Buenos Aires, Torneio 4º Centenário de Caracas e Hexagonal do Chile
1966 – Torneio Rio-São Paulo
1967 – Campeonato Paulista e Torneio Triangular Florença-Roma
1968 – Campeonato Paulista, Torneio Roberto Gomes Pedrosa, Recopa Sul-Americana, Recopa Mundial, Pentagonal de Buenos Aires e Torneio da Amazônia
1969 – Campeonato Paulista
1970 – Torneio Hexagonal do Chile
1971 – Torneio de Kingston
1973 – Campeonato Paulista
1974 – Torneio Laudo Natel

Pela seleção brasileira:
Tricampeão mundial (1958, 1962 e 1970)
Bicampeão da Copa Rocca (1957 e 1963)

Pelo Cosmos:
Campeão da Liga Americana – NASL (1977)