O mimimi feminino no futebol

 

 

Sei que de cara o titulo deste texto causará uma certa estranheza, mas afinal, que mulher de arquibancada e torcedora apaixonada nunca ouviu dizer que sua opinião é “mimimi feminista”? Ah, eu sei que várias.

 

 

Bem, está manhã fomos brindadas com as declarações do treinador Guto Ferreira, que justificou sua não resposta a uma jornalista, alegando que por ela ser mulher, não teria jogado futebol…

Nesse momento me pego pensando em quantas vezes já ouvi essa frase. Há alguns dias, um amigo me disse a mesma coisa: você fala de futebol, mas eu jogo, logo me respeita. Se me surpreendi com a declaração? Digamos, que mais ou menos, pois não foi nem o primeiro, muito menos será o último a usar essa “justificativa”, mas o que mais me surpreende é a quantidade de pessoas que acham declarações como essas normais, e ainda dizem que temos “um discurso infundado e midiático”.  Então o que devemos fazer?

A dúvida é cruel: como parar de ser mimizenta? Existe um manual ou passo a passo? Será que alguma youtuber já criou este tutorial? Vamos pesquisar no google?

Brincadeiras à parte, vemos sempre o machismo ser considerado como algo normal, de tão enraizado que está na sociedade. Frases e comentários maldosos, tem de ser aceitos, ingeridos e digeridos por todas nós, caso contrário, ouvimos que “estragamos o futebol com nossa chatice”.

Uma mulher que acompanha e entende de futebol, sempre ouve as mesmas frases clichês: o que é impedimento? Você só torce por causa do seu marido? Se gosta mesmo, então qual escalação do time campeão de 1972? Você sabe o hino? E por mais que reviremos os olhos ao ouvir, sabemos que mais dia, menos dia, tudo irá se repetir.

O assunto fica ainda pior, quando envolve torcida organizada. Muitas levam a alcunha de modinha, ou de “a caça macho”, por querer viver o dia-a-dia do clube, integrando uma organizada. Muitas vezes ouvi que mulher de T.O não serve para relacionamento, ou que ser integrante é algo feio para mulheres.

Os clubes também têm parte nisso. São culpados quando deixam de valorizar suas torcedoras e de produzir materiais femininos, ou quando apelam para a sexualização, para expor seus conteúdos. Quem aí não se lembra da luta para que a Nike produzisse camisas femininas para o Corinthians, ou do desfile de apresentação dos uniformes do Galo?

Quando os uniformes são produzidos, as lojas apresentam modelos rosinhas sem nenhuma criatividade, camisas em tamanhos minúsculos ou vestidos colados e por isso, muitas de nós acabamos adquirimos camisas masculinas.

Mas porque isso acontece?

Para muitos, uma mulher que participa da resenha e faz de tudo para acompanhar o time de futebol vale ouro, porém o ouro deixa de reluzir se ela entende mais do que ele, afinal seguindo a analogia de Guto, ele joga e ela não. Aí vem a cereja do bolo: PAREM DE GENERALIZAR! OPORTUNISTAS!

Opa, oportunistas? Não! A oportunidade é uma só: a da máscara cair! Sim, a máscara caiu! Caiu e escancarou o que todas nós sabemos há muitos anos e tanto lutamos contra!

Guto não foi mal-educado, apenas reproduziu o mesmo discurso arcaico e ultrapassado de muitos homens. O machismo e os velhos paradigmas, estão sempre ali, disfarçados e é em situações como essas, que vemos o que tanto tentam esconder debaixo do tapete.

Usarei aqui um trecho de outro texto meu:

 

“O amor pelo esporte, surge durante aquele jogo sofrido, daqueles resolvidos aos 45 do segundo tempo, quando o adversário, já está comemorando, mas ali dentro do peito a esperança pulsa ao ritmo do coração. Surge quando você olha a torcida apaixonada cantando, empurrando o time na derrota, rumo a virada e quando você vê, os olhos estão marejados. Se temos este sentimento, ninguém irá nos dizer o que podemos ou não fazer”.


 

Ninguém nos dirá o que fazer ou como fazer! Sabemos bem que não é fácil, e que muitas vezes enfrentamos preconceito, até mesmo de mulheres, ou vai dizer que nunca ouviu de alguém que você é louca por frequentar o estádio sozinha ou que ali “não é lugar para você”?

 

“Claro que por eu ser muito nova, ser inexperiente como repórter, surgindo logo como repórter de TV aberta e foi tudo meio rápido, então é óbvio que a desculpa de muita gente é 'Ah ela é bonitinha, por isso ela conseguiu'. Ninguém enxerga tua competência, teu potencial e teu trabalho, é sempre melhor dar essa desculpa da tua aparência para justificar por que você conseguiu e as outras pessoas não conseguiram", disse a repórter Isabela Labate, da TV Bandeirantes, "Às vezes a própria mulher acaba sendo preconceituosa com outra mulher. É sempre mais fácil dar essa desculpa 'Ah, ela é bonitinha e por isso ela está lá'", completou. (extraído de: https://esporte.ig.com.br/futebol/2016-03-16/tentam-desmontar-teu-argumento-so-por-voce-ser-mulher.html)

 

Vivemos quase que uma guerra tentando garantir um direito nosso! Lágrimas machistas continuarão rolando e nossa resposta é a presença em massa nos meios futebolísticos! Incomodamos e continuaremos incomodando! Mesmos sendo taxadas e atacadas, o que temos de fazer é seguir lutando!

Foto: Reprodução

 

Somos torcedoras, chefes de torcidas, colunistas, jornalistas, espectadoras, loucas e apaixonadas. Já quebramos muitas barreiras e temos muito ainda por fazer!

Como diz o velho Zagallo: Vocês vão ter que me engolir!

por Mariana Alves