“ÓH GLORIOSO VERDE QUE SE EXPANDE”

Tantas ideias, tantas histórias, tantas palavras a serem ditas, mas ao começar a relembrar daquele dia 29 de Novembro de 2016, sinto como se tivesse um nó na garganta e aquele sentimento que tomou conta da cidade parece retornar. 

 

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(Foto: divulgação Chapecoense)


 

Dia 28 de novembro de 2016, uma noite fria e chuvosa onde a equipe da Associação Chapecoense de Futebol viajava até a cidade de Medellín na Colômbia para disputar a primeira partida pela final da Copa Sul-Americana 2016. A Chape estava indo atrás do tão sonhado título internacional, e o torcedor? Esse não escondia o orgulho que sentia do time do coração, o verde e branco tomou conta da cidade de Chapecó. Naquele momento o Brasil era verde e Branco.

E quem poderia imaginar? Certamente nem mesmo o mais fiel e otimista torcedor da Chapecoense imaginaria o quão longe o nosso Verdão poderia chegar. Um time do interior; o time de uma cidade com aproximadamente 200 mil habitantes que até pouco tempo passava por uma gravíssima crise financeira e quase deixou de existir; que disputava o campeonato estadual e que por conta das dificuldades fora rebaixado para a segunda divisão e só disputou o estadual de 2011, ano em que foi campeão, pelo fato de outro clube ter pedido licenciamento do campeonato e ocasionalmente ter sido rebaixado deixando a vaga para o time do Oeste. Quem diria que esse time até então desconhecido poderia chegar tão longe e quem sabe conquistar um título desta magnitude?

A cidade toda estava em festa, quem vinha de fora pensava até que já havíamos ganhado o título, mas não. Era felicidade. Felicidade que emanava de todos os cantos da cidade. “Meu time”, “Meu Verdão”, “A Chape”, disputando a final da Sul-Americana. “Nossa, que sonho”, “chegamos até aqui”. O assunto era a Chape, o Verdão, o Furacão do Oeste. 

Dia 23 de novembro de 2016, o segundo jogo da semifinal era em casa contra a equipe do San Lorenzo. Arena Condá lotada, a torcida vibrava, gritava, aplaudia e apoiava o time, era só segurar o zero a zero e a final estava logo ali; foi difícil, foi sofrido, mas assim terminou o jogo e a Chape estava na final da Sul-Americana por conta do gol qualificado feito na primeira partida.  

Os planos agora eram de como levar a torcida até Curitiba, o último jogo não poderia ser feito em Chapecó, o estádio não tinha a capacidade suficiente para receber o jogo da final, mas a torcida é fiel, o torcedor vai onde a Chape estiver. Na cidade era só alegria, verde e branco para todo lado, o povo desfilava com o manto da equipe pelas ruas sentindo orgulho de ser Chapecoense. Porém vimos o nosso sonho se tornar um pesadelo assim, literalmente, do dia para noite. Amanhecemos com a trágica notícia que deixou de luto uma cidade, um país, um continente inteiro e o mundo.

O que era pra ser um sonho acabou virando um pesadelo para 77 famílias. Exatamente 01h15min, madrugada do dia 29 de novembro de 2016. Tinha tudo para ser um vôo tranquilo, pois bem, tinha. O piloto da companhia aérea boliviana Lamia sinaliza para os controladores de vôo que está em uma falha elétrica total, estava sem combustível, precisava realizar um pouso de emergência. Naquele momento todo um ciclo de irmandade, rodeados de conquistas e realizações estava chegando ao fim em um episódio trágico. O avião que transportava a delegação da chapecoense caiu no morro EL Gordo em um vilarejo, cerca de 35 quilômetros de distância do aeroporto de Medellín, na Colômbia. Aos poucos todos os jornais do mundo noticiavam a maior tragédia aérea da história do futebol. As notícias eram desencontradas e a princípio não sabiam se havia algum sobrevivente. A angústia, apreensão e o desespero tomavam conta, as lágrimas vinham sem nenhum esforço, à dor e o sofrimento da torcida e dos familiares era imensurável, era algo inacreditável. Como gostaríamos de simplesmente voltar a dormir e perceber que aquilo não havia acontecido. Que era apenas um terrível pesadelo e iríamos acordar e perceber que tudo não passou disso, um terrível e impensável pesadelo. Infelizmente não foi o que aconteceu.

Não há um chapecoense que não se lembre com tristeza daquela impensável madrugada, não há torcedor que não lembre exatamente como recebeu aquela trágica notícia, não há uma pessoa nesta cidade que não chorou ao ligar a televisão ou ouvir no rádio a notícia da queda do avião. A única palavra que vinha a mente era: POR QUÊ? Porque isso foi acontecer? Porque agora? Porque assim? Porque com a gente? Porque com a Chape? Com a nossa Chape! Com o nosso Verdão! Por quê? PORQUÊ?? Talvez nunca tenhamos a resposta para essa pergunta.

O mundo todo viveu a tristeza sobre a tragédia que havia acontecido naquela madrugada, mas em Chapecó a sensação era diferente. Aquele dia amanheceu nublado, sem cor, sem a menor graça, era o dia que todos os chapecoenses gostariam que nunca tivesse existido. A cidade perdeu seu brilho, perdeu a alegria, perdeu o chão. Não existia conversa. Não existiam sorrisos. O que se viam eram apenas rostos desolados, olhares perdidos e lágrimas, muitas lágrimas. Até mesmo aqueles que nem simpatizavam tanto assim com futebol sentiram aquela perda. E sabem por quê? Porque não era apenas o time de futebol da cidade que estava naquele avião. Eram atletas, diretoria, comissão técnica, jornalistas, pais, filhos, avós, irmãos, tios, maridos e amigos. Sim, antes de tudo, amigos. Amigos do time, amigos do povo chapecoense. 

Em menos de uma semana o torcedor chapecoense viu suas alegrias se transformarem em lágrimas, viu seu sonho se transformar em pesadelo. Viu a Arena Condá que tanto celebrou a alegria do torcedor, ser palco de um velório coletivo. E foi em meio à chuva que nos despedimos de nossos eternos campeões, e não podia ser diferente, a chuva que tanto marcou as alegrias do torcedor chapecoense, daquele time que era imbatível no campo molhado; a chuva tinha que estar presente, para representar as lágrimas do mundo todo, que choravam a perde destas 71 vítimas. Foram 71 vidas, 71 famílias, 71 sonhos destruídos. Houveram 6 sobreviventes, 6 vidas poupadas na tragédia, 6 pessoas que passaram pelos piores momentos de suas vidas e hoje podem dizer a todos que renasceram naquele dia 29 de novembro de 2016; pessoas que hoje nos inspiram por sua força e coragem em seguir em frente.

 

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(Foto: arquivo pessoal)


 

Aqui em Chapecó não havia essa história de estrelismo, de atletas serem intocáveis. Por vezes você ia até o mercado, a um restaurante, uma loja e até mesmo na igreja e encontrava os jogadores, acompanhados de suas famílias e como sempre atenciosos, tiravam fotos, davam autógrafos, conversavam, riam. Sim o povo chapecoense era amigo do time, e talvez seja por isso que sentimos tão profundamente a perda destas pessoas, sentimos tão profundamente a perda de nossos amigos, das 71 pessoas que nos deixaram dessa terra, mas que estarão sempre vivos em nossas mentes e corações. Nossos eternos guerreiros, nossos eternos campeões.  

Não poderemos jamais esquecer o que o nosso adversário fez por nós naquele dia, não podemos esquecer o que o povo colombiano fez por nós. A equipe do Atlético de Medellín mostrou que a solidariedade ultrapassa a barreira das quatro linhas, o título da Copa Sul-Americana Cedido ao time da Chapecoense mostrou antes de tudo, que não é só uma competição, as equipes alviverdes mostraram ao mundo que não é simplesmente futebol; é sentimento, é emoção, é alegria, é solidariedade, é amor. 

Após o dia que marcou pra sempre a vida dos chapecoenses, hoje é o dia em que paramos novamente para repensar a nossa vida. Foi difícil, foi sofrido, mas conseguimos nos reerguer, conseguimos aos poucos ir seguindo em frente.

Três anos se passaram, faz três anos que nossos meninos (carinhosamente chamados pela torcida) e nossos amigos nos deixam. Eles almejavam o topo e subiram tanto que chegaram ao céu; lá em cima brilham 71 estrelas, lá de cima eles zelam por todos nós. 

E hoje, três anos da maior tragédia do esporte mundial podemos dizer que nossos guerreiros jamais serão esquecidos, nossos guerreiros não morreram, nossos guerreiros viraram lenda, em uma história de luta e superação de um time humilde que mostrou ao país e o mundo que pessoas de bem e qualificadas podem sim mudar o mundo, pois a Chape chegou aonde chegou principalmente pela competência, esforço e dedicação de quem estava de fora das quatro linhas, de quem assinava o nome do clube e tinha para si a responsabilidade de almejar degraus cada vez mais altos em direção a glória.

 

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(Foto: ACF/Divulagação/Chapecoense/Facebook)


 

Mas infelizmente, desta vez a tristeza destes três anos é um pouco maior. Durante 2 anos, no sofrimento e na raça a Chapecoense continuava na elite do futebol, mas, há dois dias o time teve seu rebaixamento matematicamente decretado no Brasileirão de 2019. 

Ah, mas é normal um time cair, acontece com muitos clubes. Sim, mas com a Chape é diferente. Mas porque diferente? Porque depois de 2016 a Chape nunca mais foi a mesma, a cidade nunca mais foi a mesma, e sabemos que nunca mais será a mesma coisa. Três anos após a tragédia e os erros de 2 anos após a reconstrução não foram suficientes para ensinar aqueles que estavam a frente do clube, que a base de tudo sempre foi a humildade. Humildade para reconhecer e consertar os erros, humildade para recomeçar quantas vezes fosse preciso, humildade para reconhecer quem realmente era importante e deveria permanecer no clube.

O rebaixamento não afeta apenas o clube e os jogadores, ele se reflete na cidade inteira. A Chapecoense é um alicerce da cidade, nos dias de jogos na Arena Condá o movimento na cidade era enorme, o comércio era movimentado, o turismo crescia, a economia era positivamente afetada, principalmente quando a partida era contra algum time “grande” do país. A série B não é um desastre, mas para quem entende de futebol, sabe que o investimento é menor, a repercussão é menor, a mídia é menor, e consequentemente os lucros são menores, algo extremamente ruim, para um clube que acaba o ano com muitas dívidas para sanar.

Nesses três anos a impressão foi de que algumas pessoas só estavam interessadas na mídia que infelizmente o clube tinha por conta da tragédia (almejamos o reconhecimento, mas não desta forma), interessadas no lucro, no status que o clube poderia dar. Poucas foram às pessoas que realmente honraram o clube, honraram o time que representavam e a camisa que vestiam. E o resultado está aí. 

A realidade é essa, estamos na série B em 2020. É hora de repensar, reavaliar, se reestruturar, e se for preciso, mandar todos embora e começar do zero. Nada acontece por acaso, e o desejo da torcida é que a Chape aprenda com os próprios erros, e se inspire nela mesma para retomar a glória que um dia já teve. Se inspire e preservem a memória e os ensinamentos daqueles que levaram a Chapecoense ao topo em 2016. 

E apesar de tudo, a única certeza que temos, é de que o torcedor jamais vai abandonar o clube. Seja na série A ou na série B, estaremos lá para apoiar.

E neste momento nada exemplifica mais a força da nossa Chape do que seu próprio hino: 

 

“Ó glorioso verde que se expande

Entre os estados, tu és sempre um esplendor

Nas alegrias e nas horas mais difíceis

Meu Furacão, tu és sempre um vencedor

 

São tantos títulos outrora conquistados

Com bravura, muita raça e fervor

Leva consigo o coração de uma cidade

Meu Furacão, tu és sempre um vencedor

 

Sempre honrando nosso escudo com sua raça

És alegria nos estádios, nunca só

Na imensidão e vastidão do nosso estado

Chapecoense, tu és sempre Chapecó

A força imensa de sua fiel torcida

Que nos estádios tudo é lindo e nos fascina

A nossa massa, meu Verdão mexe contigo

Tu és querido em toda Santa Catarina”.


 

Esse é o nosso lema, essa é a nossa força, “Somos mais que 11, Somos Chapecoense”.

 

Ana Carolina Teixeira