PALCO DE MUITAS CONQUISTAS, CENÁRIO DE TRISTEZAS, MAS SEM NUNCA DEIXAR DE SER O NOSSO LAR!


 

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Fonte: Reprodução


O Estádio Octávio Mangabeira, também conhecido como Fonte Nova, após longos anos de planejamento e construção, a obra mais importante e representativa do arquiteto e urbanista baiano Diógenes Rebouças, falecido em 1994. Inaugurado em 28 de Janeiro de 1951, com capacidade para 30 mil torcedores. Sendo ampliada entre os anos de 1968 e 1974, com a construção do anel superior, tendo como projetista o próprio Rebouças. Em seu entorno funcionava um ginásio Balbininho e vila olímpica com piscinas e pista de atletismo. Localiza-se numa região do centro da cidade de Salvador, próximo aos bairros do Nazaré, Brotas e Barris e às margens do Dique do Tororó (lagoa artificial em frente ao Estádio).

O Estádio é do Governo da Bahia e recebeu o nome em homenagem ao ex-governador Octávio Mangabeira, que governava a Bahia na época da inauguração. O apelido "Fonte Nova" é devido às várias fontes de água que existiam na região ao entorno do estádio. 

A partida inaugural foi contra o Botafogo de Salvador (clube tradicional da época) e o Guarany-BA, que terminou com o triunfo do Botafogo por 1 a 0. O primeiro gol no estádio foi marcado por Antônio.  Esse jogo fez parte do Torneio Octávio Mangabeira, organizado para inaugurar e promover o novo estádio, que, mais tarde, foi vencido pelo Bahia.

Desabamento da arquibancada

Em 2007, depois de uma disputa duríssima na série C, o Bahia lutou para conseguir sua vaga para o acesso na série B. Na grande final, contra o Vila Nova, cerca de 60 mil torcedores, mais os 30 mil do lado de fora sem ingresso. A diretoria Tricolor colocou um trio elétrico com alguns artistas e radialistas narrando jogo. Uma grande festa dentro e fora da Fonte Nova. Porém, em meio alegria do acesso à Série B, veio a tristeza para milhares de tricolores, principalmente para sete famílias que perderam entes queridos. 

Por volta dos 35’ do 2T, milhares de torcedores comemoram o empate pelo acesso, quando começou uma grande correria no anel superior, onde ficava a Torcida Organizada Bamor. Pessoas desesperadas falando que a Fonte Nova estava desabando, ocasionando o desespero geral, muitas pessoas pisoteadas e feridas. Logo foi confirmado que realmente uma parte da arquibancada tinha cedido e algumas pessoas caíram de uma altura com cerca de 30 metros, três pessoas ficaram feridas e sete faleceram. Muitos torcedores não souberam do ocorrido e continuaram as comemorações, alguns até entraram em campo para comemorar com jogadores, enquanto outras corriam para socorrer os feridos.


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Fonte: Eduardo Martins


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Fonte: Jornal A Tarde


Em seguida, a polícia isolou a área interna e externa do acidente, muitas ambulâncias chegaram ao mesmo tempo, familiares já tinham chegado ao local, um tremendo desespero para todos, até desconhecidos ficaram arrasados e dando suporte a quem precisava. Um dia de festa que se tornou um grande luto para a nação tricolor e para o futebol brasileiro.


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Fonte: Instagram ECBahia


Abandono e descaso

Após o acidente, a Fonte Nova virou casa de pessoas em situação de rua. Abandonada, um cemitério de escombros sem solução. Um total descaso com os torcedores baianos. O Bahia passou a jogar suas partidas fora de Salvador, como Feira de Santana (117 km) e Camaçari (53 km). Até 2009, quando o Estádio de Pituaçu foi liberado.

 

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Foto: Cahê Motta

 

Na época, o estádio era considerado um dos piores do Brasil pelo Sindicato Nacional das Empresas de Arquiteturas e Engenharia (Sinaenco). Quando íamos comprar ingressos, conseguimos ver estruturas rachadas e parte interior visivelmente desgastada, até pedacinhos de concretos caiam em torno, mas nenhuma providência foi tomada, até que aconteceu a tragédia. 

Então, o engenheiro Vicente Castro ressaltou que a opção mais viável para o estádio era sua implosão para construção de uma nova, já que o Estádio tinha mais de 50 anos com estrutura antiga e desgastada, a reparação não seria suficiente para segurança das pessoas. Já o Instituto de Arquiteto da Bahia (IAB) e do arquiteto Paulo Ormindo, que atestaram ser a estrutura perfeitamente recuperável. Nesse jogo de impasse, passaram 2 anos do acidente. 

A implosão

A demolição só ocorreu no dia 29 de agosto de 2010, quase 3 anos após o acidente. Muitos torcedores queriam presenciar aquele momento, mas foi elaborado plano de segurança para a população em torno de uma área isolada, solicitando a retirada de comerciantes, moradores de casas e apartamentos da região. 

O ‘evento’ foi assistido por milhares de torcedores baianos atrás do isolamento, documentado e exibido ao vivo para vários canais internacionais. Em apenas 17 segundos, toda estrutura veio ao chão. 

 

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Fonte: Eduardo Martins / Jornal A Tarde


Quem presenciou a implosão, não pode deixar de se emocionar com o fim de um símbolo de Salvador com tantas histórias, paixões e lembranças de todos que um dia frequentaram aquele templo

Como torcedora, digo que foi uma sensação muito estranha, pois cresci ali e vendo tudo aquilo indo ao chão e lembrando dos mortos naquele local, foi triste demais. Ao mesmo tempo, lembrei de quantas vezes os torcedores falavam sobre ‘pedrinhas’, que na verdade eram partes do concreto, que se deteriorava com tempo. Infelizmente, providências só foram tomadas depois de uma fatalidade. 

O silêncio das famílias

Vários canais de telecomunicação tentaram contato com familiares das vítimas, sem sucesso. Falar sobre o que aconteceu naquele final de tarde não é fácil para os familiares de quem perdeu a vida de uma maneira tão trágica. A reserva é, perfeitamente, compreendida diante da situação. O trauma psicológico, talvez vivido por alguns desses familiares, justifica o silêncio. Por ora, isso funciona como uma forma de defesa para impedir o retorno da dor. Afinal, aquelas vítimas haviam deixado suas casas para se divertir e torcer pelo time do coração, quando se despediram de entes queridos pela última vez. 

Para os familiares e sobreviventes da tragédia, o dia 24/11/2007 não sai das cabeças e recordações. Em 2017, depois de 10 anos do acidente, Jader Landerson Azevedo dos Santos, 27 anos, um dos sobreviventes voltou a Arena Fonte Nova e conseguiu falar sobre o assunto. Desde o ocorrido, Jader e sua família nunca mais foram os mesmos -, um misto de tristeza e melancolia. Naquele domingo ensolarado de 2007, a vida do então fanático torcedor do Bahia virou às avessas em frações de segundos. Por tabela, sua família também foi impactada. Ele era um adolescente que vivia sorrindo, hoje, o sorriso deu lugar a um semblante sério e compenetrado. “Volta e meia acordo durante a noite tendo pesadelo”, ressalta Jader.



Fonte: Jornal A Tarde



Da queda, em si, não lembro nada. No dia, pela manhã, estávamos fazendo um churrasco aqui na rua. Comemorávamos o aniversário de Joselito, que era meu vizinho, assim como o Jadson. Então estava eu, eles dois, que eram primos, e mais três amigos ouvindo pagode e nos divertindo. Aí, decidimos que íamos para a partida. Encerrar a festa por lá”, contou Jader, tentando não se emocionar com as lembranças. Afinal, sua vida, em partes, foi mantida graças aos dois “melhores amigos”. Isto porque, após a abertura do buraco de pouco mais de 80 centímetros de largura e cinco metros de comprimento, Jader teve o impacto reduzido pelos corpos de Joselito e Jadson, que infelizmente, não sobreviveram.
“Apagou da minha memória. Foi um blecaute. Não lembro de nada. Nem de a arquibancada ceder, eu cair… Só soube quando estava em casa”. Antes disso, porém, foram 28 dias de internamento no Hospital Santa Izabel.  O ‘saldo’ da queda de 15 metros foram uma fratura em três vértebras da coluna, uma lesão muscular em parte da coxa direita e um leve distúrbio causado pela pancada na cabeça.

Por conta das sequelas, Jader teve que fazer sessões diárias de fisioterapia. Um carro disponibilizado pelo Governo do Estado servia como transporte. “Foram dois anos, depois suspenderam e não fiz mais”, alega Jader, que acionou judicialmente o Estado por não ter recebido nenhum tipo pensão por conta do acidente.

Na época, o jornal A Tarde procurou a assessoria de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, que informou sobre a pensão – prevista na Lei Estadual nº 10.954 criada um mês após a tragédia – é paga aos familiares das vítimas fatais do acidente. As pessoas que se machucaram, assim como Jader, receberam o amparo, o suporte do Governo. No atendimento médico, em questões assistenciais, deslocamento e transporte. Houve o pagamento do seguro obrigatório do ingresso da CBF – em torno de R$ 25 mil – todos receberam, inclusive Jader”.

Jader informa que a ‘revolta’ não se resumiu apenas aos governantes. Mas, principalmente, ao então time de coração. “Nunca mais vou frequentar um estádio de futebol”, dizia à imprensa meses após o acidente. Segundo Jader, o sentimento para com o time azul, vermelho e branco jamais foi o mesmo.

“Sabia sempre a escalação. Hoje, não conheço nenhum jogador. Não sinto mais nada pelo clube. Nesse tempo todo, não recebi uma carta, um telefonema, um camisa… Nada, nada…”, revela. 

Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação do Bahia afirmou que “o clube [na época sob outra gestão] esteve presente em todos os velórios e visitou todas as famílias. Além disso, houve apoio aos feridos no hospital”.



Fonte: Jornal Correio


Seguro obrigatório 

De acordo com o item 2 do artigo 16 do Estatuto de Defesa do Torcedor, é dever da entidade responsável pela organização da competição contratar seguro de acidentes pessoais, tendo como beneficiário o torcedor portador de ingresso, válido a partir do momento em que entrar no estádio.

Na ocasião da tragédia, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), organizadora do campeonato e responsável pela partida disputada por Bahia e Vila Nova, havia contratado a Companhia Excélsior de Seguros para essa finalidade. O superintendente da representação da seguradora em Salvador, Nélson Uzeda, pontuou que todos os beneficiários das sete vítimas fatais, envolvendo parentes de primeiro ou segundo grau foram, devidamente, indenizados. O valor foi limitado em R$ 25 mil para cada família. 

O superintendente ilustrou o procedimento com uma situação interessante, entre um dos mortos no estádio da Fonte Nova. Foi um caso em que um homem deixou três filhos menores, frutos de relacionamentos distintos. “A mulher que comprovou que tinha uma união estável com ele, recebeu o valor de R$ 12.500 e cada criança teve direito a R$ 4.166”, descreveu.

Ainda de acordo com Uzeda, o sobrevivente Jader Landerson Azevedo dos Santos, na época, um adolescente de 17 anos, também recebeu o seguro. Sua indenização ocorreu por invalidez parcial, dentro do mesmo período garantido aos outros beneficiários. A vítima sofreu uma fratura em três vértebras da coluna, uma lesão muscular em parte da coxa direita e um leve distúrbio causado pela pancada na cabeça. Jader ficou com uma sequela na perna direita.

As seguradoras são obrigadas a fazer esse tipo de pagamento em um prazo de até 30 dias após a entrega de todos os documentos. “Nós pagamos o valor a cada família em apenas 48 horas depois que apresentaram a documentação”, garantiu o superintendente da Excélsior, ressaltando a eficiência do serviço prestado.

Pensão especial 

O Governo do Estado que administrava a antiga Fonte Nova – paga uma pensão especial para 14 pessoas, parentes dos sete que morreram naquele dia. Entre os beneficiários estão filhos, cônjuges, pais e irmãos de vítimas. O benefício é concedido graças à criação da Lei Estadual número 10.954/2007, regulamentada pelo Decreto 11.016/2008, na gestão do então governador Jaques Wagner. A pensão especial é paga, mensalmente, aos dependentes e é igual à totalidade da renda mensal percebida pela vítima à data do óbito, sendo assegurado valor não inferior ao do salário mínimo.

Segundo a Secretaria de Comunicação do Governo do Estado, os beneficiários passaram a receber a quantia a partir do momento em que deram entrada no benefício e entregaram documentação comprobatória. Os pagamentos foram retroativos à data de 22 de dezembro de 2007, quando a Lei foi publicada do Diário Oficial do Estado. Ainda de acordo com a Secom, os dependentes que forem filhos ou irmãos terão o cancelamento da pensão ao completarem 21 anos de idade, salvo se inválidos, ou pela emancipação. Para os demais dependentes (pais), o prazo de duração da pensão deverá ser considerado a idade de 76 anos, para mulheres, e de 68 anos, para homens.

Singela homenagem para eternidade

Na Cidade Tricolor, há uma escultura feita com restos da arquibancada do antigo estádio. Obra de Bel Borba tem os nomes das sete vítimas dessa tragédia, que marca a história do clube e dos torcedores.


Imagem: Instagram ECBahia



Meus pêsames eterno a famílias enlutadas! 

Por Thamires Barbosa

 
*Esclarecemos que os textos trazidos nessa coluna, não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Mulheres em Campo.