Representatividade feminina: conheça a história de pioneiras no jornalismo esportivo

 

É graças a voz delas que hoje temos espaço em um meio ainda tão machista

 

Jornalistas esportivas importantes na conquista do nosso espaço

(Foto: Reprodução)

Desde os primórdios, elas eram consideradas inferiores ao sexo oposto. Lutaram. Não aceitaram essa condição. E buscaram o mínimo: respeito e igualdade. A luta das mulheres com a bandeira feminista já dura anos, décadas, séculos. São vários capítulos de uma história que preza pela igualdade de gênero. Várias personagens conhecidas por conflitarem com o machismo, por lutarem pelo mínimo de reconhecimento. E, o mais importante, por buscarem respeito. 

São várias Joanas D’arc, Dandaras, Marias Quitérias, Maries Curies e por aí vai. São várias as que marcaram história para que, hoje, tenhamos o mínimo. São muitas as que não deixam o machismo impune. Que gritam. Que lutam. Que são chamadas de loucas. Mas que, mesmo assim, sempre usam sua voz para que o feminismo seja ouvido, discutido e respeitado. 

Hoje, falaremos sobre a representatividade no jornalismo esportivo. Entendo que, reconhecendo a luta das primeiras mulheres, percebemos a importância da nossa voz e a nossa força. Então, vamos falar sobre a história de grandes nomes da área? 

Comecemos por Zuleide Ranieri: a primeira mulher a narrar futebol no Brasil. Seu pioneirismo ocorreu nos anos 70, ao integrar a equipe exclusivamente feminina da Rádio Mulher, que ainda contava com Claudete Troiano, Germana Garilli, Jurema Yara, Leilh Silveira e Léa Campos. Juntas, elas comandavam as jornadas esportivas da emissora. Infelizmente, Zuleide nos deixou em 2016, ao sofrer um infarto agudo. 

 

Zuleide Ranieri, a primeira narradora deste país

(Foto: Arquivo Pessoal / Zuleide Ranieri)

 

O pioneirismo, no entanto, ganha mais vida a cada dia. Recentemente, tivemos a primeira mulher a narrar uma partida de Copa do Mundo na televisão brasileira. Trata-se da mineira Isabelly Morais, que foi uma das vencedoras do concurso proporcionado pela Fox e pôde contar a história de Rússia e Arábia Saudita, que abriu a Copa do Mundo de 2018, no canal Fox Sports 2. 

No entanto, não foi neste momento que ela começou a marcar seu nome na história da representatividade. Em 2017, ela narrou a partida entre América-MG e ABC, pela Série B do Brasileirão. Foi ali que Isabelly tornou-se a primeira mulher a narrar um jogo em Minas Gerais, pela rádio Inconfidência. 

 

A estreia de Isabelly Morais ocorreu no Estádio Independência, em Minas Gerais

(Foto: Ramon Lisboa)

 

São duas histórias de duas narradoras que foram pioneiras em épocas diferentes, mas no mesmo campo: a narração. De acordo com o historiador de rádio, Luiz Artur Ferraretto, são 89 anos desde que a primeira jornada esportiva foi realizada no Brasil. À época, Nicolau Tuma narrou o jogo entre as Seleções de São Paulo e do Paraná, no dia 19 de julho de 1931. 

Desde então, muito se evoluiu a respeito de representatividade. Na televisão, por exemplo, é notável a maior participação feminina em canais esportivos, como o SporTv, por exemplo. Mas, quando o assunto é narração, o que falta conquistarmos espaço? 

“Bem, amigos”, se vocês, algum dia, forem questionados a respeito da maior figura da narração no Brasil, a resposta será clara: Galvão Bueno, certo? Muitos amam, outros detestam. Mas a verdade é que ele empolga, emociona e conta histórias como ninguém. Seus bordões estão presentes na nossa memória, mesmo que inconscientemente, e seu nome ficará marcado para sempre no cenário do jornalismo esportivo. Haja coração!

Mas e se eu te perguntar a respeito de uma mulher narradora. Uma que você ouça com frequência, que conheça, que goste. Você lembra de alguma? No meu trabalho de conclusão de curso, eu questionei os meus entrevistados a respeito disso. E, assim, contarei a história de mais algumas figuras da narração. 

Acho pertinente começarmos por mais uma que foi pioneira: Luciana Mariano. Atualmente, ela é contratada da ESPN. No entanto, sua história no meio esportivo começou ainda nos anos 90. A paixão pela narração começou em 1997, quando foi a vencedora de um concurso da Bandeirantes, que buscava uma voz feminina para a narração. Sua estreia foi em setembro daquele ano e, ali, mais uma barreira quebrou-se: Luciana tornava-se a primeira narradora da televisão brasileira, ao contar a história de um confronto feminino. 

Na carreira, Luciana coleciona outro pioneirismo. Desta vez, no Basquete. É porque em 2019, junto com Giovanna Terezzino, Luana Trindade e Caroline Patatt, ela integrou a primeira equipe de transmissão 100% feminina no Novo Basquete Brasil (NBB). O jogo foi em 09 de março, e colocou Botafogo e Brasília frente à frente. 

 

Luciana Mariano foi a primeira narradora da televisão brasileira

(Foto: Divulgação ESPN)

 

Quando o assunto é representatividade feminina, é impossível não falar dela: Glenda Koslowski. Você sabia que ela também já foi narradora? Isso ocorreu lá em 2016, quando ela narrou a ginástica olímpica nos Jogos Olímpicos do Rio e tornou-se a primeira mulher a fazer isso na Rede Globo. 

No entanto, a experiência não trouxe apenas boas histórias. Em entrevista ao Portal Terra, ela contou que sofreu muito com o machismo e chegou a pensar em desistir da carreira. Parem para pensar, esse preconceito desprezível quase fez ninguém menos do que Glenda Kozlowski pensar em abandonar cerca de 27 anos de carreira. Grave, né?

 

Glenda Koslowski foi a primeira narradora da Rede Globo

(Foto: Reprodução/Rede Globo)

 

E não são poucas as que passam por isso. Rapidamente, recordo-me de três situações envolvendo profissionais da área. A primeira é da jornalista Natalie Gedra, que trabalha como repórter internacional na ESPN. Em entrevista ao Portal Uol, ela contou que, quando atuava no Brasil, usava fones de ouvido nas jornadas esportivas, para não ouvir xingamentos de torcedores. 

Situação similar a da jornalista Joanna de Assis, do Sportv, que disse usar roupas mais largas no início da carreira para evitar pensamentos machistas e inibir comentários do tipo “conseguiu esse trabalho porque é bonita”. Em entrevista às Dibradoras, ela contou que quando dava furos de reportagens, muitos falavam que isso só era possível por ser mulher e estar “saindo com alguém”. 

Nada disso fez com que ela desistisse. Certamente, não foi fácil. Joanna conta que, ao longo de sua carreira, já chorou diversas vezes por sofrer com o machismo. Mas quando falamos dela é impossível não mencionar o seu pioneirismo. Vocês sabiam que ela foi a primeira mulher a ganhar o prêmio de melhor repórter da Associação de Cronistas Esportivos de São Paulo (Aceesp), em 2015? Fruto de muito trabalho e dedicação que nós, fãs, aplaudimos aqui de longe. 

 

Renata de Medeiros foi a primeira repórter de campo mulher da Rádio Gaúcha

(Foto: Reprodução/Instagram @rmedeirosrenata)

 

A última história envolvendo o desprezível machismo é sobre a maravilhosa Renatinha de Medeiros, da Rádio Gaúcha. Em março de 2018, ela ouviu palavras de baixo calão de um torcedor do Internacional, no clássico Gre-Nal. À época, ela conseguiu agir rápido e filmar a ação. O ato viralizou na internet e fez com que muitos entendessem a gravidade do machismo. 

No final do ano passado, eu tive o prazer de entrevistá-la e entender como foi passar por tudo isso. Renata me contou que depois daquele momento, percebeu que já tinha sido vítima de machismo velada em diversas outras oportunidades. E me falou uma frase que faço questão de relembrar:

— Eu ignorei diversos tipos de violência que eu sofria e ignorava por considerar que pertencia ao pacote futebol. E as pessoas reforçam esse pensamento dizendo 'ah, não dá bola, é do futebol, o futebol é assim'. E não, a gente tem que começar a se incomodar.

Para mim, gaúcha, que ouve a Renatinha, isso é exemplo, é representatividade. É tu sentir que alguém com visibilidade está lutando para que, no futuro, outras profissionais não passem por nada disso. Mas quando falamos dela, também é preciso lembrar que foi pioneira. Em 2019, Renata de Medeiros tornou-se a primeira repórter de campo da Rádio Gaúcha, uma das mais tradicionais do país, ao detalhar os lances de Internacional e Botafogo, pelo Brasileirão. 

No âmbito regional, também precisamos citar a narradora Clairene Giacobe. Ela foi a primeira mulher a narrar o clássico Gre-Nal. O feito aconteceu em 2018, pela Rádio Estação Web, de Porto Alegre. Na narração, o pioneirismo também está presente na história da jornalista Natália Lara. Em setembro de 2019, ela foi contratada pelo canal de streaming DAZN e, assim, tornou-se a primeira a ocupar esta função na plataforma. 

 

Ana Thaís Matos foi a primeira mulher a comentar futebol na TV Globo

(Foto: Reprodução/SporTv)

 

Se o assunto é representatividade, você já deve estar se perguntando: mas cadê Ana Thaís Matos? Calma, gente, deixei-a para o final, porque sou fã e, possivelmente, me empolgarei. Além de excelente jornalista, carismática, inteligente e muitos outros adjetivos, ela ainda é pioneira. Ana Thaís foi a primeira mulher a comentar futebol na TV Globo, durante a Copa do Mundo de futebol feminino, em 2019. Mas não para por aí. No mesmo ano, ela também foi a primeira mulher a comentar uma partida de futebol masculino na TV Globo, no Brasileirão. 

Eu, como estudante de jornalismo, vejo Ana Thaís como exemplo. É um show de conhecimento a cada comentário expresso por ela. Além disso, ela também toca na ferida, fala sobre machismo, é uma ferrenha defensora da representatividade. Ana Thaís é brilhante. É sensata. Acho que ao olharmos para o trabalho dela podemos encontrar brilhantismo.

 Brilhantismo presente também em Bárbara Coelho. Lembro-me de acompanhá-la no “Tá na Área”, do SporTv. Era um show de sintonia entre ela e o também jornalista Thiago Oliveira. O programa era leve, um dos melhores (continua sendo — mas agora acompanho menos), daqueles que tu te programa para assistir, sabe? Atualmente, ela está à frente do Esporte Espetacular, ao lado de Lucas Gutierrez (outra dupla de peso, diga-se de passagem) e continua dando show. 

 Outro nome que precisamos citar é o de Nadja Mauad. Assim como Ana Thaís, acho que ela se destaca: é brilhante. Além de todos os atributos de um bom jornalista, Nadja também passa uma segurança ao transmitir a informação. Olhando para ela, entendo que ser uma profissional deste nível deva ser meta para todos que estão iniciando. Ela é exemplo! Para quem não acompanha o trabalho dela, recomendo começar. Atualmente, ela é repórter no Paraná. E também assina um Blog no GloboEsporte.com.  

 

Nadja Mauad é repórter da Rede Globo no Paraná

(Foto: Raquel Cunha/TV Globo)

 

Muitas outras mereciam ser citadas aqui: Carol Barcellos, Lívia Laranjeira, Gabriela Moreira, Renata Fan, Alice Bastos Neves, Tatiana Mantovani, Renata Mendonça — e as dibradoras, Bibiana Bolson e por aí vai. Felizmente, temos muitos “cases de sucesso” no jornalismo esportivo. Mas não pense você que foi fácil. Ao decorrer deste texto, li diversas entrevistas e biografias a respeito dessas profissionais. E posso dizer que, entre tantas palavras, determinação seria a perfeita para descrever o caminho delas na área. 

Determinação para ingressar numa área tão concorrida, para buscar espaço, para passar credibilidade, estudar, enfrentar o asqueroso machismo e ser, acima de tudo, exemplo. Nós, que ingressamos no jornalismo e sonhamos em, quem sabe um dia, nos tornarmos profissionais tão completas como elas, devemos entender que sempre haverá luta por representatividade, por voz e por espaço.

Muitas delas, antes de conquistar um espaço no mercado de trabalho, com certeza, pensaram em desistir. Mas não o fizeram. A luta por representatividade me motivou a pesquisar sobre o tema, a tentar compreender as barreiras encontradas no caminho da mulher jornalista esportiva. E espero que depois de ler este texto, você tenha entendido a mensagem que eu quero passar. 

Torço para que possamos discutir mais a respeito do assunto. Assim, será mais fácil fazer com que todos entendam que lugar de mulher é onde ela quiser!

 

Por Carol Freitas,

por elas 

e pelo futebol do interior!

 

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Mulheres em Campo.