"Santo? Paredão? Maquina? Não, Magrão."

 

Hoje quando se pensa em Sport Club do Recife o primeiro nome que vem a cabeça é o dele. Não se trata apenas de um grande atleta, mas de uma grande pessoa. Me arrisco a dizer que é o maior jogador da historia do Sport. Santo? Paredão? Maquina? Não, Magrão.

 

Foto: Marcos Pastiche

O COMEÇO

 

Alessandro Beti Rosa, mais conhecido como Magrão nasceu em São Paulo, no dia 9 de abril de 1977. Aos 13 anos, foi levado pelo pai, o corintiano Félix Rosa, para fazer um teste no Timão. Quando chegou ao clube não pode fazer, pois apenas sócios podiam participar da 'peneira'.

No ano seguinte fez um teste no Nacional, time da segunda divisão do campeonato paulista. O goleiro que sempre foi acostumado a jogar com garotos mais velhos por causa da sua altura teria que jogar com os meninos da sua idade, como eles eram muito pequenos, foi decidido que ele não ficaria.

Magrão então permaneceu nos campos de Várzea e disputou um campeonato amador pelo time do bairro onde morava, no interior de São Paulo.

"Perdemos os dois primeiros jogos por 10 x 0 e 6 x 0. No terceiro enfrentamos o Jockey e empatamos em 1 x 1. Lembro que fechei o gol." - Magrão

Após a partida, um treinador da equipe juvenil do Nacional o convidou para jogar no clube. O goleiro aceitou. Durante 10 anos, jogou nas equipes infantil, juvenil, júnior e se profissionalizou no clube paulista.

 

2005

Foto: Reprodução/TV Globo

No dia 20 de abril de 2005, o Sport anunciava a contratação de um tal Magrão, goleiro do Rio Branco - SP já com 28 anos. Ele foi contratado a pedido do então técnico Zé Teodoro e veio para compor o elenco, assinando no dia seguinte o seu primeiro contrato com o Leão, de apenas 7 meses e com um ganho de R$ 2 mil.

A estreia veio após um mês, substituiu Maizena. Enfrentou a desconfiança de todos e não levou sustos. O Sport venceu o Guarani por 1 x 0, na Ilha do Retiro. Magrão seria mantido como titular por 12 jogos, mas por sofreu uma lesão e saiu do time em agosto. Encerrou o ano de 2005 como reserva, mas conseguiu renovar o contrato. Por conta das boas atuações e pela postura fora de campo, assinou novo vínculo por mais um ano.

 

Primeiro contrato assinado por Magrão no Sport ( Foto: Reprodução )

 

2006

Magrão iniciou o ano como titular, mas o bom momento durou pouco. As vaias ecoavam a cada toque do goleiro na bola. A posição estava sendo perdida.

No banco, Magrão viu o Sport ser campeão pernambucano. Uma nova oportunidade surgiu na metade da série B e voltou a vestir a camisa 1. Foram 23 jogos e um acesso. Magrão começava a se firmar.

Ao longo de 2006 foram, no total, 35 partidas pelo clube pernambucano.

 

2007

 

As barreiras ainda eram grandes. Após cinco anos o Sport voltava a elite do futebol brasileiro, os rubro-negros viam a necessidade de um goleiro com mais bagagem para encarar a série A. Nem o título do Campeonato Pernambucano como titular em todos os jogos aliviou a pressão. Cléber, que havia jogado no Santa Cruz um ano antes, foi contratado.    
 

Logo na segunda rodada do Brasileiro, a carga sobre o goleiro aumentou. Magrão tomou o gol 1000 de Romário, numa cobrança de penalti em São Januário. O Sport ganhou o noticiário internacional, e o goleiro acabou ficando marcado. Uma rodada depois, o Leão perdeu para o Grêmio com um gol contra de Du Lopes. A situação ficou insustentável.   

Algoz de Magrão, Giba foi demitido pouco tempo depois. Geninho assumiu o Sport e depois de dez jogos devolveu a camisa 1 ao goleiro. Após dois meses na reserva, ele voltou com o brilho de uma grande atuação na vitória sobre o Palmeiras por 2 a 1, dentro do Palestra Itália. O jogo seria um divisor de águas.    

No restante do campeonato brasileiro brilhou com ótimas atuações e defesas milagrosas chegando a ser elogiado pelo seu ídolo Rogério Ceni ao final do ano. Em 2007 foram 49 atuações pelo Leão da Ilha do Retiro.

 

2008

 

Como não se emocionar lembrando de 2008? Esse ano reservou o maior momento da carreira de Magrão, protagonista na conquista da Copa do Brasil.

Passava dos 90 minutos de jogo no Morumbi. O Corinthians comemorava a vitoria por 3 x 0 no jogo de ida da final da Copa, quando Enílton, que havia entrado no segundo tempo, recebeu de Carlinhos Bala e diminuiu o placar. Do outro lado do campo, o goleiro Magrão enxergou a importância daquele gol. A esperança estava renovada.

O gol fez com que o dia 11 de junho de 2008 entrasse para a história do Sport. Apesar da derrota, cada torcedor acreditava que era possível. E era. Em Recife, o Leão rugiria mais alto. A partida decisiva era na Ilha, transbordando de rubro-negros que não deixariam o grito cair nem por um minuto. O time do Sport sabia disso. O Corinthians também.

O calor em Recife estava maior que o normal. A Ilha do Retiro era a culpada. Mais de 30 mil torcedores borbulhavam o estádio para empurrar o time. Como fez em todos os jogos em casa, o Sport começou a partida pressionando. Carlinhos Bala era o motor da equipe, enquanto Luciano Henrique e Daniel Paulista ditavam o ritmo do meio campo. A pressão era grande. A bola teria que entrar.

Depois de muitas tentativas, Luciano lançou Bala. O camisa 11 dominou no peito e cruzou sem chances para o goleiro Felipe. Faltava um gol para entrar para a história.

Nesse momento, apenas Durval e Igor ocupavam o campo de defesa. Quatro minutos depois de abrir o placar, apenas o mais confiante rubro-negro poderia imaginar: após cobrança de escanteio, a zaga corintiana afastou, e a bola voou exatamente para a direção de Luciano Henrique.

É nessas horas que o destino de uma final de Copa do Brasil pode ser mudado. Em uma finalização inesperada, o camisa 10 arriscou um chute de canhota, sem deixar ela cair. Para balançar as redes, a bola poderia ter escolhido qualquer canto do goleiro Felipe. Mas ela preferiu passar justamente no espaço entre as pernas do jogador, ultrapassando a linha apenas o suficiente para que se confirmasse o gol. A rede sequer foi balançada.

A partir daí, as mãos levariam a taça pela volta olímpica minutos mais tarde foram as mesmas que voaram para defender a cabeçada de Fabinho. Foi o momento de Magrão mostrar o porquê de ser ídolo de cada torcedor. O apito final decretou o primeiro título de uma equipe nordestina na Copa do Brasil.

– A gente vê a dificuldade em um time nordestino chegar onde chegamos, até hoje isso não se repetiu. Representar Pernambuco e o Nordeste é muito bom. Eu não sou nordestino, sou de São Paulo, mas tenho um carinho muito grande por isso aqui. É  uma honra representar esse povo apaixonado por futebol. Todos eles vibraram – declarou Magrão.

Magrão começou a ganhar projeção até internacionalmente. Em julho daquele ano, dias depois da grande final contra o Corinthians, quase deixou o Sport. Recebeu uma proposta do futebol espanhol e esteve muito perto de dar adeus.   

 

2009

 

As defesas eram de tirar o folego, depois de 4 pernambucanos consecutivos e a Copa do Brasil, Magrão, que se consolidava como paredão da Ilha do Retiro não imaginava o que ainda estava por vir.  A maior e mais bonita defesa veio na Libertadores de 2009. O voo espetacular no estádio David Allerano, no Chile, para parar a bomba de Carranza e garantir a vitória do Sport sobre o Colo-Colo  na estreia. A primeira de um time brasileiro sobre o adversário dentro do Chile, festejada como um título pelos rubro-negros. Em Santiago e no Recife. A classificação em primeiro lugar no “Grupo da Morte”, que ainda contava com LDU e Palmeiras, foi empolgante. Mas a trajetória acabaria de maneira frustrante. A eliminação nas oitavas de final para o Palmeiras.

A partir dali se iniciou o calvário do Sport em 2009. O time não se encontrou mais e acabou rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro.  Mesmo com a queda, Magrão terminou o ano valorizado. Quase trocou a Ilha do Retiro pela Vila Belmiro. Recebeu uma proposta do Santos, chegou a acertar os salários, mas a saída novamente não se concretizou. Como já era ídolo, o Sport não abriu mão e renovou seu contrato até 2012.

No jogo contra o Flamengo, no dia 7 de junho de 2009, Magrão completou 200 jogos com a camisa do Sport.

 

2010

 

Um dos poucos jogadores que continuaram no clube após a conquista de 2008, Magrão ajudou o clube a igualar a sua maior série histórica no Campeonato Pernambucano. Como havia acontecido de 1996 até 2000, o Leão voltou a conquistar o pentacampeonato naquele ano.  

Mesmo com o bom início de temporada, o Sport mais uma vez fracassou no Campeonato Brasileiro. Na Série B, foram constantes trocas de técnicos e uma tentativa frustrada de acesso no fim.

Ao Final do Campeonato Brasileiro de Futebol o goleiro foi eleito craque da série B.

 

2011

 

O ano começou com o Sport sendo motivado a conquistar o tão sonhado hexacampeonato pernambucano. Mas deu tudo errado. Favorito, o Sport perdeu a final para o Tricolor e viu o sonho ruir.

O Sport só teve o que comemorar no final da temporada. E foi uma comemoração para nunca mais ser esquecida. O acesso à Série A era improvável por conta de uma Série B muito irregular, mas depois de uma sequência absurdamente inesperada de resultados na reta final, o Leão conquistou a quarta vaga em um jogo dramático em Goiânia, contra o Vila Nova. Na volta para o Recife, Magrão viveu uma das maiores manifestações da torcida do Sport. Os Rubro-Negros acompanharam a delegação do aeroporto até a Ilha do Retiro, numa carreata inesquecível.       

No dia 21/01/2011 contra o Ypiranga, jogo válido pela quarta rodada do campeonato pernambucano o goleiro completou 300 jogos com a camisa do Sport Club do Recife.

 

2012

 

Um ano para esquecer, tanto no coletivo como no individual. Uma lesão na coxa o afastou por quase dois meses dos gramados. Sem poder fazer nada, o goleiro assistiu a mais um rebaixamento do Sport. No primeiro semestre, amargou mais uma derrota para o Santa na final do Pernambucano.

O rebaixamento foi emblemático. Selado no Recife, na casa de um dos maiores rivais. O estádio dos Aflitos recebeu um bom público na tarde daquele 2 de dezembro. O Sport já chegou sem muitas chances de se manter na Série A, mas para Magrão, o caixão só foi fechado pelo Náutico.

No jogo válido pela 20° rodada do Brasileirão, contra o Flamengo, Magrão completou 400 jogos com a camisa do Sport.

No dia 15/05/2012 Magrão recebeu título de cidadão Recifense.

 

2013

 

Pelo terceiro ano seguido, o Sport foi derrotado pelo Santa Cruz na final do Campeonato Pernambucano. Cansado, Magrão hesitou. Após deixar a Ilha do Retiro chegou em casa avisando a mulher, Marilu, que havia decidido encerrar a carreira. Era uma decisão para aquele momento. Sequer esperaria o final do ano. A notícia caiu como uma bomba na família e entre os amigos, que se uniram para que aquilo não acontecesse.
 

- Pensei em parar no começo do ano. Antes de a gente perder novamente o Campeonato Pernambucano. Estava cansado, tomando muitos gols e no alvo das críticas. Não queria chegar nem no final do ano. Falei para a minha esposa que ia largar naquele momento mesmo. Lembro de um torcedor me chamando de velho e aquilo entrou na minha cabeça. Depois me acalmei e desisti de desistir.  -Disse magrão.

Apesar de não ter conquistado nenhum título naquele ano, Magrão se vingou do Náutico. Depois de ser rebaixado pelo rival em 2012 e vê-lo conquistar a vaga na Copa Sul-americana via Série A, foram muitas  “piadas” dos adversários. Mas a vingança veio quando o Leão, mesmo rebaixado, também ganhou a vaga para o torneio internacional, graças ao regulamento curioso da CBF, cruzou com o Náutico na fase nacional.

No dia 04/03/2013 Magrão recebeu título de cidadão Pernambucano.

No dia 24/10/2013 Magrão recebeu título de cidadão Olindense.

 

2014

 

Dentro de campo, Magrão junto com o Sport voltou a ser campeão Pernambucano depois de três anos e conquistou também a Copa do Nordeste justo no dia do seu aniversario de 37 anos e entrou no rol de grandes campeões da história do Sport. Somente ele e Durval conquistaram pelo club títulos no âmbito estadual, nacional e agora regional.

Mas, fora dos campos ele vivia uma grande dificuldade. Sua esposa, Marilu, foi diagnosticada com câncer. Algo que nocauteou o sempre seguro Magrão. Com Marilu hospitalizada, ele pensou em não jogar a final da Copa do Nordeste, mas foi demovido da ideia pela própria esposa. Depois, a encheu de alegrias e esperanças com o título. Assegurado diante do Ceará, num Castelão lotado.

Com a conquista do Pernambucano foi eliminado o algoz dos anos anteriores, Santa Cruz. Com direito a pegar um pênalti na semifinal decisiva.

2014 também foi marcado por outra história fora dos gramados. Referência não só no Sport, mas em todo o estado, ele foi convocado pelo então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). A ideia de se candidatar nas eleições daquele ano era real, mas o projeto acabou adiado. Hoje, ele agradece por não ter seguido o novo caminho.

No dia 21 de maio de 2014, Magrão completou 500 jogos pelo Sport, contra o Cruzeiro.

 

2015

 

O ano de 2015 seria especial para Magrão. Após viver o céu e o inferno no clube, ele estava com a titularidade absoluta e  vivia uma grande fase técnica. Quando a vida resolve pregar uma peça, uma séria contusão no ombro aconteceu durante a partida contra o Flamengo, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro. Eduardo garantiu seu retorno após a recuperação. Mas a volta não aconteceu e o jovem Danilo Fernandes terminou o ano como titular. A tristeza pelo momento vivido foi contada por ele em entrevistas, mas o posto de ídolo nunca será perdido.

O atleta completou 10 anos na Ilha do Retiro e quebrou o recorde de jogador que mais disputou partidas pelo Sport. Após três meses se recuperando de uma luxação no ombro direito, o goleiro disputou sua partida de número 571 pelo Sport, se tornando o atleta que mais vezes vestiu a camisa do clube rubro-negro.

Infinitas homenagens e presentes não poderiam expressar o carinho da torcida leonina por esse homem, e para tentar expressar um pouquinho da nossa gratidão por ele, a diretoria preparou algumas coisas para comemorar esses momentos tão especiais:

Foto: Twitter Oficial do Sport

 

O goleiro Magrão, foi homenageado no vestiário por ter se tornado o jogador que mais vezes vestiu a camisa vermelha e preta, e a homenagem veio pelas mãos do vice-presidente Arnaldo Barros.

 

Créditos: Sport / divulgação

 

No dia em que o Sport comemorou 110 anos de fundação, o jogador foi surpreendido com um paredão erguido dentro de uma barra de futebol, contendo sete camisas alusivas aos grandes momentos vivenciados pelo arqueiro ao longo desta uma década de serviços prestados ao Leão.

Mas o maior presente de 2015 foi o jogador que deu a torcida rubro-negra. Magrão, anunciou oficialmente, no inicio de dezembro, que ficará no Sport até o fim de 2016.

"Sou grato a Deus por mais um ano de renovação tendo o privilégio de continuar honrando este clube que tanto admiro e tenho um carinho enorme. Creio que 2016 será um ano maravilhoso"           -Magrão, sobre a renovação de contrato com Leão até o fim do próximo ano.

Um líder dentro e fora de campo, com um comportamento irrepreensível e um carater exaltado por companheiros e adversários. Um pai e um marido admirado dentro de casa. Uma pessoa que consegue manter o equilíbrio em qualquer circunstancia. Em alguns momentos uma maquina, em outros, um santo milagreiro, com defesas espetaculares e impossíveis para os 'normais'.

Um atleta completo que entrou para historia do Sport. Um jogador singular que escreveu seu nome na historia do futebol brasileiro. Cercado de desconfiança da imprensa e da torcida, o ídolo que tinha tudo para ser apenas mais um, e acabou se tornando no número 1.

E junto com os  parabéns por essa trajetória cheia de glórias, deixo aqui meu agradecimento: Obrigado por TUDO Magrão.

 

Foto: Aldo Carneiro /Pernambuco Press

Títulos:

Ceará - Campeonato Cearense: 2002

Fortaleza - Campeonato Cearense: 2004

Sport - Campeonato Pernambucano: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2014

Copa do Brasil: 2008

Copa do Nordeste: 2014

Taça Ariano Suassuna: 2015

Títulos Individuais:

Melhor Goleiro do Campeonato Pernambucano de Futebol: 2007, 2008, 2009, 2010, 2012, 2014

Seleção do Campeonato Pernambucano de Futebol: 2007, 2008, 2009, 2010, 2012, e 2014

Craque do Campeonato Brasileiro da Série B de 2010

Seleção da Copa do Nordeste 2014


Beatriz Cunha