Sócrates Brasileiro: de um calcanhar desconcertante a liderança da democracia de um povo!

Um líder nato dentro e fora dos gramados, que fez o mundo reverenciar sua genialidade e aplaudir suas jogadas misticas. Sua elegância, demonstrava sua superioridade e dizia ele, ser o Corinthians o símbolo da mais pura brasilidade, mas quem poderia ser mais brasileiro do que ele, que traz o nacionalismo em seu próprio nome?

 

Um gesto imortalizado! Foto: Os Imortais do Futebol


 

Não há adjetivos que possam definir o maior gênio que o futebol já produziu. O maior sim! Pois pra Sócrates, não bastava brilhar nos gramados, sua maestria ia além e encantava o Brasil e o mundo. Sócrates tinha a  ousadia e a  perspicácia de poucos, e o talento dos escolhidos!

Inteligente? Diferenciado? Gênio? Louco? Visionário? Autodestrutivo? Sócrates foi a somatória de tudo!

Leal a suas convicções e ao sangue reaça, ao longo de seus intensos 57 anos, Sócrates escreveu seu nome na história do Brasil e da nação corinthiana, tornando-se, mais um louco do bando e terei o prazer de exprimir em palavras, o orgulho e a admiração que cada alvinegro sente!

 

Um prodígio, entre os livros e os gramados de Ribeirão Preto

 

No Pará, mais precisamente em Belém, nasceu em 19 de Fevereiro de 1954, mais um Brasileiro, assim mesmo com b maiúsculo. Inspirado na Filosofia, paixão do pai Raimundo, nordestino autodidata que dava nome aos seus filhos conforme ia estudando, o menino foi batizado de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.

Ainda muito pequeno, Sócrates se mudou para Ribeirão Preto, quando seu pai conseguiu, brilhante aprovação em concurso público para fiscal da Receita Fiscal no Brasil. Na cidade, o menino foi estudar no Colégio Irmãos Maristas, onde passou a ter contato direto com o esporte que mudaria sua vida, e que antes era apenas um passatempo ao lado de seu Raimundo.

Aos onze anos, Sócrates já chamava atenção por suas jogadas no futebol de salão. Alto, esguio e desajeitado, para se livrar dos marcadores usava o calcanhar. Seria ele, sua marca registrada.

Logo Sócrates chamou atenção e contra a vontade de seu Raimundo, começou a treinar nas categorias de base do Botafogo-SP. Mesmo contrariado, o pai permitiu que Sócrates jogasse, mas sempre alertando que a prioridade eram os estudos e aos 17 anos, o jovem foi aprovado no vestibular na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

 

 

 

Sócrates teve de equilibrar os estudos e o futebol.

 

Por causa da medicina, Magrão quase não frequentava os treinos e por vezes, jogava sem dormir, após noites de estudos e de plantões, o que surpreendia ainda mais os dirigentes do clube. No Campeonato Paulista de 74, ao lado de Geraldão, com quem reeditaria a dupla anos depois no Corinthians, Sócrates, mostrou o quanto era diferenciado e infernizou as zagas adversarias.

Nessa época surgiram os primeiros contatos dos grandes clubes, mas acatando seu pai, Sócrates só deixaria Ribeirão Preto depois de formado. E foi assim que aconteceu…

 

A Malandragem de Vicente Matheus

 

Ahhh Vicente Matheus… este  tinha a visão aguçada, esperava calmamente para depois agir! Na contratação de Sócrates, junto ao Corinthians em 1977, Matheus agiu minuciosamente e deu uma bela rasteira nos rivais.

O técnico Jorge Viera, declarou no Botafogo que “jogador que não treina, não joga”, mas com Sócrates o tratamento foi diferenciado e deu resultado. O craque foi artilheiro e o clube  conquistou o primeiro turno do Campeonato Paulista, uma surpresa na época.

O camisa 8 passou a ser o sonho de consumo dos clubes e o São Paulo, estava na frente dos demais, esperando apenas a concretização da venda de Chicão, para o Corinthians que acabava de por fim a um jejum de 23 anos sem títulos expressivos. Foi ai que apareceu a figura do enigmático presidente alvinegro…

Enquanto o clube do Morumbi esperava o dinheiro, Vicente Matheus, anunciou que iria a Argentina, contratar a revelação do Argentino Júniors, Maradona e causou alarde nos jornais. Era tudo para despistar o rival!

Como diz a música “malandro é malandro e mané é mané”, e malandramente, Vicente Matheus chegou em Ribeirão Preto e por seu carisma, conquistou a família de Sócrates e fechou sua contratação. Enquanto isso, seu irmão Izidoro Matheus substituía o presidente em almoço com a diretoria são-paulina.

 

Vicente Matheus, deu uma rasteira no rival para poder contratar Sócrates. Foto: R7

 

No mesmo dia Sócrates já era jogador do Corinthians. Matheus ligou para seu irmão, e mandou que ele largasse os dirigentes do rival falando:

 

– Largue tudo! Invente qualquer coisa e diga que volta em outra oportunidade… Que não depende mais de você… Que vai falar comigo amanhã…. Saia daí agora… O Sócrates já esta comigo! (Vicente Matheus)



O irmão mais velho dos Vieira de Oliveira, era do Timão! Anos mais tarde, o troco viria com o caçula Raí. 

 

Títulos e a Democracia Corinthiana

 

No Corinthians, já formado, Sócrates não teve vida fácil. Por seu jeito calado e por não comemorar seus gols, a torcida pegava no pé do meia-atacante, cobrando raça e sangue quente.  

Magrão comemorava com o punho fechado, fazendo o gesto dos Panteras Negras (organização política ligada aos negros norte-americanos. Lutava pelo fim da segregação racial nos anos 60.) e a torcida queria mesmo que ele fosse para o alambrado! Dono de uma personalidade única, Sócrates dizia não precisar fazer média com torcedor.

Em campo, jogou com Geraldão e fez uma dupla quase que perfeita com Palhinha, além de ter a companhia do grande amigo Casagrande. Ganhou o Paulista de 79, carimbando seu passaporte para a seleção Brasileira.

Sob o comando de Sócrates, o Corinthians faturou o bi-campeonato paulista de 1982 e 1983, mas o que mais marcou a carreira do jogador no Corinthians foi a chamada “Democracia Corinthiana”.

 

Sócrates foi líder da Democracia Corinthiana. Foto: Imortais do Futebol

 

O final da gestão de Vicente Matheus foi desastroso. No Brasileiro de 81, o clube amargou as últimas posições e no Paulista, ficou na 8º posição, fazendo o dirigente cair no ano seguinte.

Waldemar Pires assumiu a presidência do Corinthians, trazendo novos ares ao clube. Assim como seu xará filosofo, Sócrates buscava o dialogo aberto. Ao lado de Wladimir e do sociólogo Adílson Monteiro Alves, Sócrates implantou no Corinthians uma gestão que  colocava funcionários, dirigentes e jogadores no mesmo nível em termos de votos. Todos participavam das decisões e todos tinham voz , estava instaurada a Democracia Corinthiana.

 

A serviço do seu país

 

Sócrates passou a liderar passeatas que apoiavam a democracia e o movimento das Diretas Já, que clamava a volta das eleições para presidente no Brasil. Dentro de campo, pela primeira vez em sua vida, dedicou-se 100% ao futebol, para realizar o sonho de ser Campeão Mundial em 82.

 

“Quero mudar meu país, quero mudar meu povo, sempre”, Sócrates.

 

Jogador de confiança de Telê Santana, Sócrates recebeu a braçadeira de capitão. Muitos dizem até hoje, que aquela seleção, formada por Zico, Falcão, Júnior, Leandro, Éder ,Cerezo e Sócrates é a melhor de todos os tempos!

Talento lhes sobrava, e a gana pelo título transbordava! Sócrates largou o cigarro, a bebida e encantou no mundial, com jogadas inimagináveis. Mas, para a infelicidade de uma nação, tudo foi por água abaixo na partida contra a Itália de Paolo Rossi, que venceu a seleção brasileira por 3 a 2. Era o fim do sonho do tetra.

 

Seleção de 82. Foto: Reprodução Internet

 

Diante de mais de 1, 7 milhão de pessoas, no Vale do Anhangabaú em 1984, Sócrates anunciou: "Se a eleição direta para presidente passar, eu não deixo o Brasil para jogar na Itália.” Ao seu lado estavam Casagrande e o locutor Osmar Santos, que pediu que o craque repetisse a frase, levando a multidão a loucura.

 

No Vale do Anhangabaú, Sócrates deixou a multidão eufórica. Foto: pitacosperdidos

 

A emenda constitucional que reivindicava a volta das Diretas, acabou não passando no Congresso e decepcionado, Sócrates se transferiu para a Fiorentina.

Com a camisa da seleção, ao todo foram 63 partidas e 25 gols marcados, no período de 1979 e 1986, ano de sua última Copa.  

 

O desastre italiano e a volta ao Brasil

 

Em Florença o craque não conseguiu o mesmo exito que no Brasil. Além da birra com Passarela, Sócrates se negava a treinar indo contra o treinador.

Para piorar, a família Pontello, dona do clube era representante da Democracia Cristã italiana, o maior partido de direita e ao ser apresentado, Sócrates ergueu seu punho como de costume, causando espanto. Segundo Tom Cardoso, autor da biografia de Sócrates, Flávio Pontello perguntou: "O que é que isso? Gesto comunista aqui?". Sócrates foi avisado da gafe e respondeu: "Ah, ele não gostou? Então é agora que vou fazer toda hora!”.

Assim como no Corinthians, Sócrates se negou a fazer média e sempre que questionado sobre seu posicionamento politico ou sobre seus vícios, respondia com convicção.

 

Sócrates teve passagem pela Fiorentina. Foto: R7

 

Foram dois anos no clube e Sócrates retornou ao Brasil para jogar na Ponte Preta. O jogador chegou a ser apresentado, mas cancelou o contrato para jogar no Flamengo de Zico.

Sem condicionamento físico e sofrendo com lesões, Sócrates não conseguiu brilhar na Gávea. Foram 21 partidas e apenas 5 gols, participando ainda da conquista do Carioca de 86.

Magrão, Tentou continuar a carreira no Santos, time de sua infância e marcou um gol em suas estreia contra o Cerro do Uruguai, mas pouco tempo depois, decidiu parar de vez. A despedida foi onde tudo começou, no Botafogo-SP.

 

A vida fez dele Corinthiano

 

“Quando cheguei ao Parque São Jorge eu disse, com absoluta frieza, que não era corintiano, que era até anticorinthiano. Hoje, com a carreira encerrada, digo com a mesma tranquilidade que sou corinthiano até morrer. Eu, que sempre digo que não mudaria nada em minha carreira, se pudesse começar tudo outra vez, talvez, na verdade, mudasse uma coisa, algo totalmente inviável, mas enfim: se pudesse, eu gostaria de ter nascido no Parque São Jorge. Porque a torcida faz isso com você.” (Sócrates)

 

O Doutor que nunca foi de “média”, foi conquistado pelo amor da Fiel. Quando tentou se aventurar como comentarista, preferiu descer e saudar a torcida, como nunca havia feito. O jogo, um Corinthians x Palmeiras, foi o primeiro e único de Sócrates na Globo, pois em nenhum momento ele conseguiu segurar sua torcida, ao clube que o acolheu.

A admiração e o orgulho, tomavam conta de Sócrates quando o time entrava em campo. O Corinthians, passou a ser um dos amores da vida do apaixonado ídolo.

 

“É diferente, sim. Nem a do Flamengo é igual. Todos sabem o que essa torcida representa. Parece que Deus deu uma paradinha lá no Parque e transformou o time e a torcida no que eles são.” (Sócrates)

 

Magrão, dono de frases marcantes e do mais puro e apaixonado Corinthianismo, disse que queria partir, num domingo com Corinthians campeão e por obra dos deuses, o pedido do gênio foi acatado! Nada mais justo ao doutor corinthiano, que será eterno em cada coração alvinegro.

Por seus excessos com álcool e o cigarro, Sócrates nos deixou vitima de complicações de sua cirrose. Era um 4 de dezembro de 2011… dia em que o Corinthians sagrou-se pentacampeão brasileiro

 

Homenagem dos jogadores e da torcida ao Doutor. Foto: Globo Esporte.

 

“A grande força do Corinthians é a emoção que a torcida passa para o time, algo numa dimensão que nenhuma outra passa.” (Sócrates)

 

Sócrates partiu, deixando seu legado e teve ainda, mais uma alegria. Todas as homenagens, foram poucas, perto do que foi o jogador, ídolo de duas nações: a brasileira e a corinthiana!


por Mariana Alves