"Um por amor, dois por dinheiro."

Esses dias o futebol brasileiro passou por uma nova novela. O atacante Robson de Souza, mais conhecido como Robinho, até então ídolo santista, que em suas entrevistas sempre fez questão de deixar claro o imenso apreço que tem (ou tinha?!) pelo Alvinegro Praiano, protagonizou uma das cenas que hoje em dia mais se vê: trocou o time que defendeu por anos, e que disse amar por tantas vezes, por um outro que “ofereceu” melhores condições trabalhistas.

Quem não gostou nada disso foi a torcida do Peixe, que idolatrava o atacante por tudo o que ele fez pelo clube, por suas pedaladas, que inclusive, levaram o Santos a ganhar títulos, e por seu futebol. A “geração de torcedores internautas” não deixou barato e “botou pra quebrar” nas redes sociais. O nome do jogador até sumiu por alguns instantes da galeria de ídolos do site oficial do Santos, mas depois reapareceu. Robinho também teve sua imagem no muro do CT do clube pichada, e apagada... Foi o típico “aqui se faz, aqui se paga”.

Imagem: Guilherme Dionizio / Gazeta Press

De pérola praiana a mercenário, Robinho passou de ídolo a vilão, simplesmente por ter feito sua opção, a melhor em sua concepção. E com tudo o que aconteceu, não deixou de falar sobre sua relação com o Peixe e sua decisão.

"Muito complicado quando se fala de sentimento, por mais sentimento que se tenha. Futebol hoje é um negócio, muitos empresários que estão ricos sem deixar nenhuma gota de suor. Quem me conhece sabe da minha índole, do meu caráter. Nada vai apagar o que fiz pelo Santos. Dei a vida pelo clube. E hoje vou dar minha vida pelo Galo", disse o atacante.

Mas com todo esse episódio, quem não lembra, por exemplo, de Paulo Henrique Ganso, quando trocou o time da Baixada Santista pelo Tricolor do Morumbi?! A torcida fez questão de jogar moedas no jogador quando ele voltou à Vila Belmiro já defendendo o São Paulo. E será que já esquecemos de Paolo Guerrero, que tanto jurou amores ao Corinthians e que jogaria apenas nesse clube, e meses depois estava vestindo a camisa do Flamengo?! E Ronaldinho Gaúcho, que teve a oportunidade de retornar ao Grêmio, mas optou em defender o rubro-negro carioca, deixando muitos torcedores gremistas decepcionados?!

Meses atrás o torcedor brasileiro pôde acompanhar o desmanche do Corinthians, que teve boa parte de seus jogadores indo de “mala e cuia” para o futebol asiático. O mercado chinês fez a limpa nos gramados brasileiros, e depois do 7 a 1 da Alemanha em cima do Brasil na Copa de 2014, esse foi o segundo tapa na cara de clubes e torcedores.

Renato Augusto tantas vezes demonstrou carinho e consideração enquanto jogador corinthiano, mas em sua despedida, sequer esboçou qualquer reação. O que a torcida achou disso?! Muitos se decepcionaram...

Com tantos jogadores trocando seus times do coração, ou que os revelaram, vale lembrar que tantos outros foram fiéis aos clubes que defenderam até o fim de suas carreiras.

Rogério Ceni é um desses, no meio de poucos. Foram 25 anos defendendo o mesmo clube, vestindo o mesmo manto, beijando o mesmo símbolo a cada vitória ou derrota. Foram 25 anos de devoção ao santo do Morumbi, o São Paulo Futebol Clube. E ele sempre deixou bem claro pra quem o questionasse que assim seria até o dia que se aposentasse. Com tudo isso, foi um dos atletas mais profissionais e excelentes que passou pelo clube, com toda sua dedicação e paixão.

“Sei que vai chegar o dia, mas, até lá, eu vou ser sempre o são-paulino mais apaixonado que já passou por aqui, pode ter certeza!”

E o “São Marcos”?! O ex-goleiro alviverde passou 20 anos jogando pelo Palmeiras, e foram 20 anos torcendo antes de jogar, como ele mesmo faz questão de afirmar. Marcos até hoje vive o Palmeiras.

Tudo o que eu faço no meu dia a dia não tem como não ter o Palmeiras na minha vida. Foram 20 anos jogando e 20 anos torcendo antes de jogar. E agora estou torcendo novamente. Não consigo acordar um dia da minha vida sem ter de falar o nome do Palmeiras pelo menos uma vez. Isso é dentro de casa, fora, em qualquer lugar. Minha vida tem Palmeiras todos os dias”.

Imagem: de-lambreta.blogspot.com.br 

E no hall da fama do Santos, quem não se lembra do lateral-esquerdo Léo, que ao todo passou 10 anos no Alvinegro Praiano?! Hoje o ex-jogador é assessor do Departamento de Futebol do clube, e acompanha de perto tudo o que acontece na Baixada Santista. Léo, até hoje, é lembrado com muito carinho pelos torcedores, por todos os momentos de glórias que viveu com a camisa do Peixe.

Esses são apenas alguns exemplos de jogadores que um dia juraram amor à camisa dos clubes que os revelaram e que defenderam, e a lista é grande, apesar de “pequena”.

Como disse um amigo, e eu como fanática que sou, triste tenho que concordar: “O futebol cada vez mais profissional. Torcedores somos nós!”... Não fico triste pelo futebol estar cada vez mais profissional, mas pelo simples fato de o terem tornado um círculo empresarial, onde nós, torcedores apaixonados ou não, nos tornamos meros clientes. Sim, isso que nós somos hoje, clientes.

Mas o sentimento que temos, o amor que bate nos nossos corações, vale muito mais que qualquer “valor simbólico” pago nos ingressos, ou nas mensalidades de sócio-torcedor. A emoção de gritar gol em um clássico majestoso, a tristeza da eliminação numa pré-Libertadores, a felicidade por conquistar seu primeiro, ou terceiro título no Mundial de Clubes... Tudo isso não paga o salário astronômico que tantos jogadores recebem no final do mês, mas paga a NOSSA paixão! Paga o nosso sentimento sem explicação, nossa vontade de ir ao estádio mesmo com uma gripe que acaba com a nossa respiração. Paga nossas lágrimas por ver nosso time campeão!

Imagem: masteresporte.com 

Não podemos julgar, mas o julgamento sempre há. O futebol a cada dia torna-se mais profissional. Jogadores, sem generalizar, hoje em dia jogam não pelo amor à camisa, mas pelo dinheiro no bolso. Em parte é até admissível, por possuírem família e precisarem mantê-la. Isso não faz deles jogadores ruins, mas os leva a serem taxados de mercenários pela torcida, que faz de tudo pelo clube que ama. Por que, afinal, quantos jogadores que ganham muito menos que tantos outros, conseguem viver bem e cuidar tranquilamente dos seus?!

Jogar por amor se tornou uma prova de amor. Prova de amor que seria dada por tantos, como nós, que tantas vezes perdemos a voz, que quisemos entrar em campo e jogar, pra simplesmente chutar a bola e tentar fazer um gol. Prova de amor que nos faria amar ainda mais o clube pelo qual o nosso sentimento não pode parar, e que nunca vai parar... Porque a paixão pode ser passageira, mas o amor, esse é eterno.

 

Renata Chagas