Vamos falar sobre as Torcidas Organizadas

Crescente aumento de violência aponta necessidade emergencial de diálogo entre o clube, federação, segurança pública e as lideranças

 

Foto: Reprodução

 

Os finais de semana eram sempre animados lá em casa. Eu com uns sete anos me sentava-se à mesa da cozinha ao lado de meu pai, com seu rádio do lado e sintonizado na Tupi. Ouvíamos o noticiário esportivo. E foi este vascaíno roxo que cedeu aos meus insistentes pedidos e me levou para assistir o time que escolhi amar, o Fluminense, jogar no Maracanã. Jamais esquecerei a sensação que invadiu meu peito tamanho era o contentamento.

Assim que sai em frente ao gramado, bem no final do túnel, meu coração bateu em descompasso com a bateria das Torcidas Organizadas. Aquelas enormes bandeiras em movimento no ar. O componente com a farda da sua respectiva agremiação, orgulhoso. As lembranças que carrego são as melhores e tenho uma forte impressão de que a nova geração pode não ser agraciada com o mesmo privilégio.

Naquela época eu e meu pai fazíamos o percurso ida e volta com segurança usando qualquer veículo de transporte, caminhando pelas ruas da Cidade ou numa estação ou ponto de ônibus a esperar. Chegávamos em casa inteiros para alegria de todos. Atualmente as coisas andam caóticas.  

Pelo carisma que exerce para os frequentadores ou não, a torcida de futebol ganhou um papel no contexto social e, de uns anos para cá, passou a ser associada a um grupo de baderneiros que só querem arrumar confusão e brigas. Isso sem falar dos que matam em nome da camisa.  De um grupo que cantava e fazia a festa nos estádios para um bando de “marginais”. Os estádios passaram a ser templos de tensão social e é criada a “Cultura da violência”.

 

Recentes episódios

 

Desde o começo do ano soubemos de alguns confrontos, emboscadas com espancamento, furtos com violência física, assassinatos...

O caso mais recente acabou com um torcedor do Corinthians, covardemente espancado, depois de uma briga entre torcedores do seu time com os do Coritiba. Pelo menos seis feridos, segundo a Guarda Municipal. A confusão ocorreu na região do Estádio Couto Pereira. O embate começou quando dois ônibus da torcida corinthiana passaram pelas ruas perto do estádio. E para infelicidade, não foi apenas um caso isolado. Podemos comentar inúmeros episódios semelhantes.

No Rio de Janeiro, um torcedor do Botafogo foi baleado durante uma briga generalizada antes do clássico Botafogo e Flamengo, no estádio do Engenhão.  Um dos fundadores da Mancha, Moacir Bianchi foi assassinado dentro de seu carro quando cruzava uma avenida de São Paulo. Foi atingido por 22 tiros, disparados à queima roupa após ter sido encurralado por dois veículos.

 

Moacir Bianchi, foi vítima de uma emboscada. Foto: Gabriel Uchida

 

Gilberto Bittencourt Viegas, conhecido como Giba do Trem, ex-líder da torcida Guarda Popular do Inter, foi assassinado no Centro de Sapucaia do Sul junto com a criança que também estava no carro. A mulher escapou.  O carro foi alvejado cinquenta vezes.

Paulo Ricardo Gomes da Silva foi morto por uma privada arremessada das arquibancadas do estádio, na partida entre Santa Cruz e Paraná pela série B do Campeonato Brasileiro. Paulo nem mesmo torcia para o Paraná, era membro de uma torcida organizada do Sport. Ele estava lá para tirar fotos da torcida rival.

Na saída, seu grupo foi emboscado. Três vasos sanitários foram arrancados do anel superior do estádio e arremessados. E para finalizar os exemplos, um torcedor do Santos foi espancado até a morte num ponto de ônibus.

O Brasil é o campeão do número de mortes de torcedores por conflitos em torcidas organizadas. O Rio de Janeiro é o único local no Brasil que tem uma polícia especializada para segurança nos ginásios que é o GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios). Isso faz diferença.

 

Briga na partida entre São Paulo e Corinthians. Foto Léo Pinheiro\ agência Estado

 

Fui buscar informações e pesquisei dados até me deparar com um novo e rico material do sociólogo e professor da Universo Maurício Murad que há vinte e seis anos estuda as Torcidas Organizadas. Ele acredita que é preciso uma série de medidas para que se possa começar a solucionar a questão.

“Eu tenho defendido que o problema da violência no futebol precisa de um conjunto de medidas nos âmbitos da segurança pública, dos clubes, da federação e da mídia. Eu acho que é um conjunto integrado de medidas repressiva, preventivas e reeducativas que integradas podem resolver isto", diz ele.

Murad vai mais longe. Em seu viés, o problema se repete pela falta de uma postura eficiente e firme das autoridades. O clima de impunidade no Brasil afeta e estimula novos delitos, avalia. Para ele, a solução só virá quando o combate à violência no futebol se tornar uma política de Estado. O conflito de torcidas organizadas e virou um marco do início da violência e dos homicídios entre torcedores de futebol. "Chegou o momento, em que as torcidas passavam das páginas esportivas para as páginas policiais", recorda.

Em seus estudos, o sociólogo percebeu que se envolvem em brigas as pessoas que já possuem algum antecedente criminal e utilizam o futebol de fachada. "Eu peguei um inquérito da Polícia Civil de São Paulo, de torcedores que a polícia capturou, e que eram ao mesmo tempo afiliados do Palmeiras, do Corinthians e do São Paulo. O inquérito concluiu o que era óbvio: eram traficantes que usavam aquelas multidões tocadas pela paixão para cometer suas práticas e comércios ilícitos", explica.

 

Torcedores de Atletico PR x Vasco em Joinville.  Foto Agência Globo

 

E mesmo diante deste quadro preocupante, Murad defende a existência das organizadas e diz que culpar esses grupos pela violência nos estádios ou fora deles  é uma visão preconceituosa e elitista.

"Acho as organizadas muito importantes para o futebol. É o 12º jogador, é a responsável pelas alegorias, pela festa, pela criatividade. É o embelezamento do espetáculo. O que nós precisamos é separar o joio, a erva daninha, do trigo,” pontua.

Proibir as torcidas organizadas também não é vista com bons olhos pelo estudioso. Ele recorda que a Mancha Verde foi extinta em São Paulo e pouquíssimo tempo depois ressurgiu como Mancha Alviverde.  

“Uma desmoralização, um deboche contra a autoridade pública", lembra. "Por que quando um deputado é flagrado em roubo, corrupção, em prevaricação, ninguém fala em acabar ou fechar o Congresso Nacional?", questiona.

Outra coisa muito comentada e já imposta em alguns estados é a Torcida Única. Inclusive o Fluminense esteve envolvido naquela disputa para torcida mista de um Fla x Flu não muito distante. Ele explica que tais jogos não ajudam a resolver os conflitos e que explica que não tem o confronto, mas em compensação aumenta a violência fora dos estádios, nos arredores e até em pontos distantes.

O sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, professor-pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e um dos organizadores do livro "Torcidas Organizadas na América Latina: Estudos Contemporâneos" afirma que além de estarem atentos às dinâmicas da violência, clubes e instituições públicas devem repensar estratégias de tratamento das torcidas organizadas. É importante discutir a legislação com lideranças das próprias torcidas organizadas.

“Eles entendem que não se dialoga com quem está predisposto à violência. Nos termos mais chulos brasileiros, é aquela história de "não dialogar com vagabundo”. A implementação da torcida única e outras coisas desse tipo no Brasil são frutos dessa perspectiva, de legitimar a repressão sob argumento de que esses grupos estariam "contaminados", explica.

Se fizermos uma comparação ao modelo adotado na Alemanha veremos o torcedor como personagem e protagonista que deve ser ouvido. No fundo, o que está em jogo são visões de como o Estado lida com a violência na sociedade.

O sociólogo alerta para um outro ponto relevante, a violência intra-torcidas. Acontece quando você começa a ter muitos conflitos internos dentro de uma mesma torcida, numa luta que é simbólica mas também é material, por poder, por questões econômicas. Segundo ele, essa é a grande dinâmica nos últimos 10 anos entre as torcidas.

“O Brasil se agregou a essa dinâmica. De modo geral isso vinha sendo resolvido do ponto de vista de dissidências. Um exemplo curioso surge em 2001 com a Fúria Jovem do Botafogo, uma dissidência da Torcida Jovem que torna-se maioria. As dissidências tendem a ser minoritárias, mas com a Fúria surge uma possibilidade de destronar o grupo que reinava até aquele momento”, exemplifica.

Outra questão que ele estuda é o nascimento do chamado "torcedor raiz", uma espécie de retorno aos anos 90, que ganha força e tem como bandeira a luta contra a modernização e elitização dos estádios.

“As torcidas organizadas do Corinthians estão criando músicas para hostilizar aqueles que sentam nas áreas laterais, mais caras. Os chamam de "burgueses", "playboys". Ao mesmo tempo, os "torcedores consumidores" mostram insatisfação com a torcida organizada, cada vez mais vaiam certas condutas. Está muito claro esse contraponto. O futebol continua popular, mas o estádio não. A tendência é receber cada vez mais um público de classe-média, capaz de pagar mensalmente o programa de sócio-torcedor”, comenta.

Depois desse apanhando geral e do recorte de dois especialistas no assunto é hora de repensarmos nossas posturas. Será que o esvaziamento dos estádios de futebol é mera coincidência?

Encerro a matéria com um texto desabafo de meu parceiro da Torcida Força Flu. Fabio Esteves é Diretor de Caravana e Bateria, além de membro atuante da Associação das Torcidas Organizadas (Anatorg):

“Amigos de Torcida, estamos vivendo talvez a pior fase das Torcidas organizadas no Fluminense, o Rio de Janeiro e no Brasil. Isso porque fomos ignorantes e ignoramos as mudanças do Torcedor e do Sistema. Ignoramos e deixamos de lado a verdadeira ideologia e a essência de torcer. Brigas internas ou com rivais passou a ser mais importante do que a festa na arquibancada e o clube que torcemos.

Muito me entristece ver morrer, pouco a pouco, aquilo que escolhi para viver nos meus domingos a tarde, ver meu time e a minha torcida dando show no Maracanã. Hoje eu já não posso falar que minha torcida nunca perde! Tantos falam que ideologia de torcida é briga.

Depois de vinte e cinco anos nesse mundo, já não sei se o errado sou eu ou eles. Cresci aprendendo a amar o Fluminense e depois a Força Flu. Que brigas faziam parte da torcida mas não era a sua essência. Não sou santo, nem o dono a verdade. E o que é mais importante hoje a torcida forte na pista ou na Bancada?

Não adianta uma torcida forte na pista se ela é punida e fica em vias de extinção. Estamos a caminho do fim por nossos erros, por nossos egos. A arquibancada do Fluminense anda morta, sem vibração e vivemos de lembranças do passado, um passado sem brigas com barras de ferro ou armas de fogo

Não sou bandido para tirar a vida de ninguém e também não quero que tirem a minha por motivo tão banal, pois amamos a torcida e amamos também quem nos espera em casa. São parentes, esposa, filhos que nos aguardam aflitos e orando por nossa integridade”.

 

Fontes: O Globo – Estadão – O Povo Online

 

Por Carla Andrade